Residências

Ir em baixo

Residências

Mensagem por João de Deus em Sab Jan 10, 2009 10:27 pm

As residências de Deverell são todas pequenas e simples, mas confortáveis, embora não tenham muita proteção contra o frio,
por isso é importante manter as lareiras acesas à noite e ter muitos edredons.
Apesar da excentricidade do povo da vila,
eles são hospitaleiros e gostam de contar suas histórias fantásticas para quem quiser ouvi-las
- ou mesmo para quem não quiser ouvi-las.
avatar
João de Deus
Admin

Número de Mensagens : 118
Idade : 76
Data de inscrição : 29/11/2008

Ver perfil do usuário http://countymayo.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por K. em Seg Mar 09, 2009 3:45 pm

Continuação de:

http://countymayo.forumeiros.com/deverell-f15/parque-de-diversoes-t93.htm#284


- Cale-se, inútil. Um trapo sujo em sua boca e você sufoca até morrer. Fique quieto, se eu desconfiar que você chama a atenção de alguém na estrada quebro seu pescoço antes de abrir o saco.

K. se aproveitava da invisibilidade concedida aos humildes. Uma carroça guiada na estrada chama pouco a atenção, devido a empáfia dos modernos em atribuir às classes menos favorecidas o rótulo da ignorância e insignificância. Você passa com sua picape cabine dupla em alta velocidade e nem se dá conta que vai uma carroça pelo acostamento, porque você considera as pessoas destinadas a guiarem carroças menos do que gente. O que K. sabia é que nenhum homem nasce melhor ou pior do que o outro, o mecanismo que eleva a uns e esmaga a maioria é que havia sido elaborado com dispositivos de segurança sofisticados e sensíveis, prontos a guilhotinar os aspirantes a provarem seu valor por suas próprias medidas. Se é a pessoa que define o próprio valor, os antecedentes sociais não servem como termômetro de nada, são apenas pontos de distração.

Mirael era muito mais perigoso do que K. foi capaz de julgar. Estar prestes a tirar-lhe a vida, e vir agora com a voz conciliatória fazer-se de vítima confusa, oferecer auxílio. Assustador. Magnífico. Pouca gente era dona de um dom tão perfeito, camuflar-se de cordeiro inofensivo entre a relva, mascar seu feno e fornecer regularmente sua lã à tosa, para no grande dia do ataque da alcatéia devorar juntos as ovelhas e os lobos.

- Preocupe-se consigo.

Só porque Mirael não se mostrou o total imbecil da previsão de K., não significava que a confiança estava ganha. Confiança não se obtém de graça, desgasta-se rápido. Recomendável não confiar jamais.

Promissor o mecânico. Talvez não fosse só um monte de lixo para a fogueira. Haviam fagulhas nele. Precisava apenas aprender a apagar e acender nos momentos oportunos.Questão de treino. A vida inteira remoendo sozinho a família trucidada, fingindo que ninguém mais na redondeza sabia do seu passado negro. Sobreviver na visão de K. devia ser considerado uma honra e um privilégio, mas para o mecânico estar vivo era uma condenação. Ponto de vista errado. Corrigível.

Só a luz pobre da lua iluminava a viela quando K. saltou da condução para destrancar o alto portão lateral, abrindo acesso para o galpão aos fundos de sua casa, além da estufa de hortaliças e flores. Acendeu a lâmpada do alto telhado que iluminava muito mal o ambiente. Outros cavalos descansavam em suas baias.

Desamarrou a boca do saco e deixou sobre o feno um desperto Mirael amarrado. Sob o olhar vigilante do hóspede desatrelou o animal e o tocou para dentro da baia aberta. Em uma das extremidades do galpão havia um espaço como que uma cozinha, dividida do resto por uma parede à altura da cintura, lá se viam armários, uma pia grande, um refrigerador antigo e uma mesa com tampo metálico. Uma porta escondida de um observador externo dava entrada a um banheiro. Tirou de um dos armários um kit de primeiros socorros. Engoliu em seco uns comprimidos sem ler a embalagem, aplicou no braço esquerdo uma injeção e descartou a seringa. O que fez em seguida estava fora do campo de visão do Mirael jogado ao chão, mas parecia estar lavando o local da punhalada e avaliando o tamanho do estrago. Alguns pontos seriam necessários, ficaria para depois. O sangue estancara, perfuração insuficiente, febre e infecção precisavam ser contidos. Cortar não devia ser a especialidade do outro. Leva tempo para descobrirmos nossos verdadeiros talentos.

Aproximou-se de Mirael e desfez as amarras da mão, oferecendo uma bacia com água e uma bolsa com gelo.

- Lave-se. Segure o gelo sobre a fratura... e não faça besteiras. Os meus cães estão soltos e não toleram estranhos andando pela chácara. - Quatro dobermans eram os animais de estimação de K.

Com uma nova volta aos armários, K. trouxe duas garrafa de irish stout e duas canecas de alumínio grandes. Encheu as duas canecas e entregou uma caneca e uma garrafa para Mirael, se deitou no feno perto da parede oposta do galpão, para ouvirem o que um e outro diziam era preciso elevar a voz. Entornada a primeira caneca, K. iniciou:

- Fique despreocupado com a sua segurança enquanto estiver em minha casa, a hospitalidade da minha família sempre foi proverbial. Como eu sou a única alma que restou desta família, não pretendo desrespeitar as velhas tradições.

K. falava olhando para cima, como se conversasse com alguém no andar de cima, onde estava guardada a maior parte do feno e outros gêneros.

- Eu não queria nada de você quando fui à sua casa, senhor Mirael. Fui apenas lembrá-lo de um serviço que estava marcado para que realizássemos juntos. Todavia, houve o que houve. Eu nunca havia reparado no senhor antes, porque, sinceramente, o senhor não é notável. Mas, confesso que esta noite descobri o quanto o senhor pode ser... interessante. Foi a primeira vez que o senhor tentou matar uma pessoa? Havia pensado nisso antes? O senhor acha que matar outra pessoa vai proporcionar algum alívio para suas dores? Vai proporcionar algum êxtase? Acha que existem pessoas que merecem viver e outras que merecem morrer? Se existem, quem está qualificado para julgar? O senhor? Eu? A Rainha?

K. não conteve uma risada que sacudiu seu corpo pela dor do ferimento que voltou a sangrar.

- Tirar uma vida é uma responsabilidade muito grande, senhor Mirael. Homens fracos o fazem e são destruídos por isso. Ao mesmo tempo, tirar uma vida é muito simples, fácil, não é mérito nenhum. A pergunta mais importante desta noite, senhor Mirael, é: o senhor sobreviviria ao Julgamento que recai sobre os assassinos?


Mirael olhava como um perturbado, mas K. estava em seu habitat, confiante, apostando no potencial do mecânico, pagando o risco para conferir.
avatar
K.

Número de Mensagens : 7
Idade : 30
Data de inscrição : 19/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por Amelia K. Boom em Qua Mar 11, 2009 2:42 am

Continuação do Lounge Room

Powered by beta.joggle.com


Mas num ponto, Amelia precisava concordar que João de Deus estava correto. Scanners como ela – e era estranho pensar em si mesma com essa classificação, para Amelia ela era Amelia. K. Boom, nas horas vagas. E o K. Boom agora recebia outro nome. – Bem, Scanners podiam ser bem inconvenientes, ao passo que... bom, eles explodiam cabeças. Se irritavam e K. Boom.

Pode-se racionalizar o quanto quiser, mas a verdade era aquela.

Olha! Uma bola de bilhar!

Amelia se viu perambulando pelas ruas residenciais de Deverell, com aquela beleza que fazia os pulmões se aconchegarem nas costas e doerem de tão maravilhosa e que só uma paisagem natural como aquela podia oferecer mesmo de noite, com as casas de pedra, tudo simples, realmente simples, podia-se ver, inclusive que algumas daquelas habitações sequer possuíam estrutura que comportasse calefação ou mesmo encanamento moderno que evitasse que água congelasse na tubulação nos tempos de frio extremo.

A população de Deverell não era muito dada a modernidades mesmo, eram do tipo que deixavam seus filhos ainda no carrinho de bebê do lado de fora de casa por algum tempo nas noites de inverno para que se acostumassem com o frio – e debochassem dele quando grandes.

Amelia debatia consigo mesma os seus próprios mecanismos de defesa para desculpar sua mediocridade. Era tão mais fácil culpar os outros e apontar o dedo quando a vida cobrava sua parte no acordo. Podia culpar as dificuldades que teve quando jovem, ao pai, que era alcoólatra e era ela a responsável pela sanidade da família. Ou ela assim achava, era mais fácil usar isso como desculpa pelos auto-sabotamentos e fracassos.

Também era bem mais cômodo sentar-se no sofá de casa olhando pela janela e filosofar tarde adentro depois de não passar em um concurso, que isso aconteceu porque teve algum esquema corrupto. Suas habilidades nas disciplinas requeridas e avaliadas necessitavam de mais esforço da parte dela, de mais estudo, mas ainda assim, a culpa era dos outros.

Amelia lembrava-se quando estava no curso de confeiteiros de Varsóvia e foi dada a ela e a seu parceiro de provas a tarefa de fazer uma delícia qualquer, contanto que fosse doce. Amelia era especialista em massas, seu parceiro era o doceiro, por isso tomou frente da receita, e havia separado os ingredientes. O mais crucial dos ingredientes era o chocolate com pimenta.

O parceiro teve que ir aliviar-se das necessidades naturais e Amelia tomou frente na execução. Amelia não gostava de pimenta. Por isso trocou o ingrediente por marmelada de Dijon. A receita foi pro brejo.

Quando Pietr – o parceiro de Amelia – foi esbravejar com ela, chamando-a de obtusa e incompetente, Amelia, é claro, encontrou todas as respostas de seu avental para brindar Pietr dizendo como ele era impiedoso, e mau, e grosseiro por tratá-la daquela maneira.

Amelia via agora que Pietr tinha toda a razão. Não gostar de pimenta não dava a ela razão alguma para ignorar o que era pedido, e qual era a deixa dada por Pietr. Ao menos que trabalhasse com a pimenta dele.

Olha! Um taco!

Amelia, se já não tivesse encontrado um caminho no jogo anteriormente, possivelmente se sentiria desolada e inclinada a cometer auto-implosão por aquela demonstração tão doentia de auto-piedade, e todo aquele amor por se sentir baixa e se odiar.

Ela passava pensativa por um pontilhão quando um menininho ruivo, com o nariz sujo, e a bem dizer, as roupas também, e o rosto e os cabelos, atirou uma pedra em Amelia.
Antes de explodir, era melhor perguntar.

- Por que foi isso hein?
- É porque você está aí, toda arrumada e limpa nessas roupas de moda e nem liga pra um menos afortunado como eu! Ia me ignorar, era o que era! Por causa do seu julgamento preconcebido de que eu por ser pobre não valho nada!

O garoto não percebia que ele estava fazendo o que se chama projeção. Ele mesmo tinha um preconceito contra a própria pobreza, odiava aquilo nele mesmo, e culpava os mais abastados pela condição, e se ressentia de tudo o que era. Para o garoto não sofrer mais, Amelia não pode se privar de oferecer o tratamento necessário.

Não, ela não explodiu o menino.

Mas devolveu-lhe a pedrada com um entusiasmo febril, que abriu um talho na testa dele. Se ela era rica, e no pensamento dele merecia um tratamento diferenciado, não seria ela quem iria deixá-lo de fora e subir num pedestal para “não descer ao nível”. Responderia do jeitinho dele e com gosto.

Sem perceber, Amelia entrou em uma propriedade, ia caminhando vagarosamente pela grama, olhando as estrelas e pensando nas suas últimas ações. Matar se tornara realmente fácil. Pessoas sem rosto, sem nome para ela, mas ela sabia, tinham família, casa, presente e passado. Ao menos o peso do futuro não mais pesava naqueles ombros.

E quem seria Amelia para julgar quem vive e quem morre? Bem, seria Amelia. Foi Amelia desde o começo. Disseram uma vez que não poderia conceder a vida a ninguém, portanto, não se deveria ser tão ávido por condenar alguém à morte. Era uma lógica que não fazia muito sentido para Amelia. Se ela não podia fazer brotar das mãos uma maçã, não poderia deixar sobrar apenas seus caroços depois de uma série de dentadas? O doutor Oliveiras não tem o poder de fazer crescer câncer nos pacientes, assim, quem era ele para extirpá-lo de seus pacientes? E quem estaria habilitado a julgar o merecimento de uma vida? Se viver é merecimento, estamos todos lascados, porque todos iremos morrer. A quem cabe o poder de tirar a vida? Essa era uma resposta que Amelia já possuía.

Para algumas pessoas, matar é uma necessidade, e em todos os seres vivos essa necessidade se faz. E sim, Amelia sentia alívio quando matava. Psicopatas eram assim. Isso fazia dela uma psicopata?

Era fácil julgar como fraco um assassino quando não se tem forças para matar.

Um cachorro veio raivoso na direção de Amelia, mostrando os dentes, rosnando, os pêlos eriçados. Amelia sorriu com violência. Estava fácil demais.

O cachorro pulou na direção dela, enquanto outro, que vinha da esteira mordeu o tornozelo de Amelia. O que havia pulado perdeu sua chance ainda no ar. Motivada pela dor, não teve dúvidas. Ele explodiu no ar.

Amelia não gostava de maltratar os animais, mas não achava correto que eles mordessem primeiro e perguntassem depois.

O cachorro que mordia o tornozelo ao ver o destino do colega de matilha, logo relaxou a mandíbula e Amelia continuou sua caminhada.

Sem demora avistou uma luz do que parecia ser um galpão. Levada pela curiosidade, Amelia foi até lá. Quando chegou, encontrou um sujeito com tanta maquiagem quanto um membro do Kiss e uma senhorita. Eles bebiam em canecas de metal.

Amélia chegou devagar e para sua surpresa e espanto, ouviu que a jovem discursava com o rapaz justamente o ponto de suas ponderações.

Aaaah, aquilo seria interessante.

Como o sorriso ainda não havia abandonado o rosto de Amelia, ela entrou no galpão, olhando fixamente para K., que logo viu-se apossada por uma dor de cabeça dos diabos. O processo não era fácil para a própria Amelia, que estava como ela própria colocou: em treinamento. Não queria explodir com rapidez. Precisava ser capaz de controlar o próprio dom, o que aconteceu com João de Deus foi coincidência, ela devia conseguir fazer aquilo e por isso foi dourando as vozes que tomavam conta da cabeça dela. Até mesmo os resquícios de Cliona, completamente ignorada reverberavam de forma a dar mais forças para Amelia. Controlar não estava sendo fácil.

Sangue começou a sair das orelhas de K.
avatar
Amelia K. Boom

Número de Mensagens : 13
Idade : 38
País de origem : Ilha de Pólvora
Data de inscrição : 22/01/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por Bradock Katana em Sex Mar 13, 2009 12:14 am

Powered by beta.joggle.com


No começo de tudo, os Übermenschen reinavam sobre a Terra.
Os valores que comandam a sociedade são sempre os valores do mais forte.
Eram os valores do Übermensch.

Os mini-menschen tinham duas opções: "ou você toma vergonha na cara e cresce, ou será eliminado de vez do páreo."

É assim que funciona até hoje nas civilizações avançadas, ou Reino NATURAL. Não é o fracote que se reproduz. Esse vai chupar o dedo no exílio, e dessa maneira fica garantido que as gerações futuras serão ainda mais fortes.
No reino artificial, é o oposto, e daí surge o conceito de entropia, não por acaso para vantagem dos criacionistas.

Como a reviravolta se deu? O mini-mensch, amargado, despeitado, frustrado, começou a mordiscar pelas bordas.

- Deus quer que os pobres fraquinhos sejam protegidos. Os fraquinhos não podem ter bens, não podem ter conhecimento, não podem ter nada, então eles não vão passar no vestibular, por isso vocês têm que deixar umas vagas separadas para os fraquinhos. Snif.

Até então os deuses premiavam os fortes. Surge então o Deus com D maiúsculo, que diz que os mongolóides herdarão a Terra.

Quando um Übermensch leva um tapa, ele pode botar o tapado que fez isso em coma. Por isso nunca que o mini-menschinho poderia se bater com ele. A não ser que...

- Sabe de uma coisa, sabe o que seria o certo você fazer? Se te baterem em uma face, vira a outra.

Agora o mini-mensch poderia dar quantos tapas quisesse no gigante.

O mini-mensch pode não ser superior em força, inteligência ou posses, mas ele é trapaceiro. Ele é manipulador. Foi ele que inventou a retórica. Ele sabe que não vai ter as melhores razões, então ele prega:

- Você precisa ficar em silêncio perante as opiniões dos outros. Me deixa falar! Fique quieto e ouça, não faça julgamentos, julgar é errado!

Ele tem o dom de convenientemente se esquecer que "julgar é errado" é um julgamento.
E quando ele diz que o certo é quem fala mais alto se calar para que ele — que tem cordas vocais frágeis, que é gago, que pensa devagar — para que ele possa falar, a regra vale para quem fala melhor do que ele, não para os que falam mal como ele. Porque o fraco é quem mais possui privilégios.

E assim as coisas foram se invertendo. E assim o fraco, comendo pelas bordas, foi impondo valores que lhe convinham.

- Você não pode impor seus valores - ele diz - porque isso não é democrático!

Ele impõe que a imposição de valores não pode ser feita, porque em termos de lógica e de natureza humana, nada está mais de acordo do que impor valores. Aquele que diz "eu não imponho" quer que os outros não imponham e vai fazer suas lavagens cerebrais nesse sentido. Ninguém vai deixar o outro em paz, muito menos o mini-mensch. Pois o que ele tem é o discurso. Ele não tem força, nem os melhores argumentos, porque não são naturais, não descem redondo, são fruto de ilusionismo retórico.

- Você não é democrático! Fora com o autoritarismo!

Quando ele enxota o autoritarismo, onde está a democracia? O que é a democracia senão a possibilidade de haver em uma sociedade a expressão de todo tipo de pensamento? Mas o mini-mensch escolhe: "todos os pensamentos, menos os que me sejam contrários." Assim ele exerce controle e autoritarismo. Não ostensivamente, francamente, honestamente, mas sacripanta, coitadinho — manipulador.

- Você quer impor seus valores para se sentir melhor!

A verdade é que se eu consegui impor meus valores é porque eu sou melhor.
E se impor meus valores faz com que eu me sinta melhor, qual o mal nisso? Mas o mini-mensch é o caluniador do desejo. Ele é o mensageiro do moralismo e do Grande Não.

- Seu prazer não pode estar acima dos outros.

Por quê? Não há resposta lógica natural para esta pergunta, porque o aforismo é só uma ficção. A doutrina do mini-mensch não encontra apoio na realidade dos fatos. Na realidade dos fatos o que acontece é que criaturas como ele não têm vez: meu prazer pode ir até onde você tenha o poder de me impedir. E assim a Natureza evolui.
Mas o mini-mensch conseguiu levar a cabo uma mediocrização geral do pensamento que faz involuir a assim chamada civilização. "Nem eu, nem vocês."

- Você quer impor seus valores para se sentir melhor. Não pode isso! — E assim ele impõe seus valores.

Porventura ele não está tentando ser, por vias tortas, como o Übermensch? Está.
Então o Übersmensch pode condená-lo por ter arrumado um meio, ainda que manipulatório, para ditar valores tais que façam, artificialmente, do mais fraco o mais forte?
O problema com o mini-mensch é que ele é tudo aquilo que demoniza.
O problema com ele é a sua hipocrisia e sua cegueira.

E os mini-menschen, nessa reprodução totalmente anti-natural do mais fraco, geraram uma porção de mini-menschenzinhos, ainda mais anêmicos que eles, que não questionam seu legado axiológico. Eles vão reproduzindo.

Eles realmente não percebem como são incoerentes e hipócritas. Realmente não percebem.

Conta Platão em "Hípias Menor" que, para Sócrates, Ulisses era superior a Aquiles porque quando Aquiles causava o mal, ele não sabia o que estava fazendo. Ulisses era mau quando queria ser mau. Ulisses era livre.

O mini-menschinho não é livre, porque nasceu na fábrica moralista do Deus com D, como robô parido por um maquinário de artificialidades e artifícios. Ele pensa que diz um discurso que é dele, e não acha nem um pouco estranho que esse discurso é formatadão demais e igual demais ao de todo mundo. Justamente porque, pela programação da fábrica, repetir o que todo mundo diz é bom sinal.

É fácil para ele definir como errado o Übermensch, que mais honesto que o Übermensch não há. A imposição é nociva ao mini-menschinho porque ele não tem capacidade para sobreexcedê-la. Então ele criou as restrições normativas, porque faticamente ele não consegue restringir.

Ele reclama e usa a vitimização e a choramingação a seu favor. Ele conseguiu impor a filosofia do "você não bateria num homem de óculos, bateria?" para que não tenha que enfrentar as imposições.

As imposições do mini-menschinho são vistas como "direitos".
As imposições do Übermensch como transgressões.
É tudo uma questão dos óculos que se esteja usando, o mini-menschinho conseguiu fazer com que no mercado só existam os dele à venda.
Ele conseguiu impor os seus valores porque o Império Pagão não estava preparado para enfrentar um inimigo ao qual faltasse o pudor da retribuição.

Mas tudo isso vai mudar um dia. À medida em que até a manipulação vai perdendo a força como instrumento de poder dos mini-menschenzinhos, vamos retornando àquilo que o mundo sempre foi. Sem máscaras.

Os que não puderem suportar isso, não devem sobreviver.

A explosão de um cachorro o despertou desses pensamentos. É que acontecimentos do tipo costumam chamar a atenção. Ele estava atrás da sebe alta que separava a estradinha do pasto, e tinha por que procurar através da folhagem, ela não, inclusive mais distante não o viu. Ele resolveu ficar por lá mesmo, acompanhando os passos da mulher incógnito até que a viu entrar em uma casa. Então ele saiu de trás da sebe, olhou para os lados, não vinha ninguém, e foi atrás dela já com a arma de tranqüilizante em punho, simplesmente porque ele a queria. Quem decide quem vai levar o quê? Quem pode levar.
avatar
Bradock Katana

Número de Mensagens : 4
Idade : 53
País de origem : Inglaterra
Data de inscrição : 07/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por K. em Sab Mar 14, 2009 5:09 pm

Para K., o mais pesado Julgamento que pode recair sobre um assassino é o dele próprio. Não interessam as Leis e os Códigos religiosos e jurídicos em vigência, se um homem não pode estar em paz com as próprias ações, ele está condenado a autodestruição, porque não há veneno mais corrosivo para a consciência humana que a consciência humana.

Desejava testar os escrúpulos de Mirael quanto a tirar a vida de outra pessoa. O vacilo de algumas horas atrás, perder a oportunidade de matar-lhe, deixou esta dúvida: Mirael era realmente capaz de matar alguém ou agiu movido por alguma loucura momentânea? Para os fins de recrutamento que estava visando, um companheiro que passasse a ter pesadelos só porque abateu algumas pessoas inocentes no caminho seria descartável. Do mesmo modo, alguém que encontra prazer demasiado em fazê-lo seria vítima de distrações desnecessárias e que comprometeriam os objetivos finais. O assassino perfeito mata o que é necessário, não chama a atenção e não se arrepende. Em cada um destes requisitos, K. acrescentaria, “o assassino perfeito mata o quê e quem EU acho necessário, só chama a atenção quando eu indicar, e se arrepende quando falhar comigo”.

Sabia que as coisas nunca correm exatamente como desejamos, portanto, sabia que Mirael não responderia logo de início: “entre Deus e a Rainha, K., é evidente que qualquer um possui maior qualificação para julgar”, e complementaria, “como eu não possuo aptidão para escolher, escolha por mim, e eu matarei em seu nome”. Mas os nossos desejos se realizam a passos de tartaruga, para obter esta resposta de Mirael seria necessário algum tempo de treinamento e persuasão. O primeiro passo estava dado, o mecânico já sabia quem era mais forte. Enfadonho era mostrar às pessoas o quanto elas são imbecis, e depois convencê-las de que, apesar de imbecis possuem alguma qualidade que não devem negar ao mundo, no pensamento de K., substitua-se “mundo” por “K.”

Porém, o mecânico mostrava-se mais fraco com bebidas do que K., aliás, tomar um garrafão ou os dois não faria diferença para K., engrolava as palavras e o discurso para um lado insignificante aos seus interesses. Neste meio tempo, ouviu-se a correria de patas no lado externo, avançou para a janela acima de Mirael, e o próprio Mirael ergueu-se com esforço para observar também, o que lembrou K. de cortar as amarras dos tornozelos. Mirael convencera-se de sua segurança. Um segundo passo dado.

Amélia caminhava desavisada entre o grande espaço de relva entre o portão de entrada e o galpão. K. havia deixado o portão sem trancas porque pretendia sair logo em seguida, assim que Mirael confirmasse o interesse em descobrir sua verdadeira natureza. Ninguém da vizinhança se atrevia a passear pela propriedade, devido aos cães propositalmente treinados para estraçalhar qualquer invasor. Em várias ocasiões precisara abater alguns por estranharem-lhe. Então, naquela noite, não se moveu para afastar os cães da ruiva, porque eram ótimos cães, estava ficando difícil encontrar bons cães como aqueles. Especialmente depois que sua melhor matriz criou o sestro de devorar as crias recém paridas. Incômodo grande precisar vigiar a cadela nas noites próximas ao parto para salvar os filhotes, nem sempre havia esta disposição por parte de K. Por isso, não ia matar seus preciosos cães por conta de alguma forasteira que não havia lido a placa de “Cuidado”. Em verdade, não havia placa nenhuma, seria providenciada na manhã seguinte para fins de provar aos enxeridos a inocência dos proprietários. Seria muito engraçado ir para cadeia porque seus cães arrancaram os pedaços de algum turista.

Com os olhos cinzas fascinados, assistiu à explosão do crânio de seu melhor cão de guarda. Sorriu.

- É uma mulher muito atraente, não acha, senhor Mirael? Imagino esse fogo fazendo as coisas certas.

Mirael não retribuiu o sorriso, não devia ter entendido as intenções, preferiu não opinar. Como se nada estivessse ocorrendo lá fora, voltou a interrogar Mirael sobre as suas intenções assassinas. A porta se abriu e Amélia entrou, sorriso nos lábios. K. também sorriu, de perto a ruiva ficava mais atraente. A cabeça de K. doía, como na noite em que o pai levou-lhe à uma caçada e atirou com o cano por cima do seu ombro. Depois o velho homem explicou que não podia perder a oportunidade nem avisar para que K. se esquivasse, ou espantaria a raposa. K. passou algumas horas em quase surdez, curtindo a dor que reverberava do tiro, um orgulho louco do pai, o melhor caçador que já tivera notícia.

Decepcionou-se quando sentiu o sangue escorrer pelo pescoço, viu o olhar de esforço no rosto da ruiva. Degradante. Quis tomar um último gole na caneca, mas este já havia sido tomado, com desânimo, arremessou a caneca contra Amélia. A asa de alumínio atingiu a têmpora direita da ruiva, abrindo um pequeno corte que sangrava em abundância. Ato contínuo, arremessou-se contra Amélia, imprensando-lhe contra a parede de madeira, o punhal que havia sido retirado de Mirael em punho, a lâmina a meio milímetro do pescoço branco e convidativo da ruiva, sentiu cheiro de vida em Amélia, um cheiro quente e vermelho despregado da carne pulsante e do suor. Alguns podem denominar este mesmo odor de “cheiro da morte”, mas K. só conseguia sentir o cheiro da morte em quem já estivesse morto.

- Você possui um dom maravilhoso, desperdiçado em um espírito fraco como o seu. Além de desconhecer as razões pelas quais ele te foi entregue e além de não saber dominá-lo, você é incapaz de usá-lo em seu próprio benefício. Apesar disso, estou ardendo para ver no que você vai se transformar quando amadurecer.

A dor aumentava, mas se condicionara a nunca desistir antes de obter o que desejava. A última coisa que faria em vida não seria desistir. K. falava com a boca grudada na orelha de Amélia, usando seu corpo para pressionar a ruiva contra a parede, segurando os dois pulsos dela com a mão esquerda, passando o braço direito pela nuca para obter um melhor ângulo da lâmina do punhal rente à artéria do pescoço de Amélia. Sua coxa esquerda foi enfiada entre as coxas de Amélia, e com o pé direito pisava no pé esquerdo da moça, que firme procurava não demonstrar medo ou dor, ou talvez realmente fosse inquebrantável. Mas K., duvidava, uma moça bonita como aquela andando errante no meio da noite era exatamente o que aparentava ser, alguém procurando encrenca sem medir as consequências.

- É uma pena, Ruiva. O perigo de se utilizar o método de vítimas aleatórias é o das vítimas se tornarem algozes. A última coisa que farei em consciência será te degolar. Confesso que não planejava uma morte tão deliciosa quanto esta, em tão boa companhia, mas vou compensar o fato de não ter os miolos no lugar para enxergar você sangrar até morrer com o fato de que os nossos sangues vão estar misturados e nossas almas vão chegar do outro lado abraçadas.

Lambeu o caminho pelo qual a lâmina devia passar no pescoço de Amélia.

- Se você nos desse uma chance, podíamos achar coisas interessantes para fazer. Este mundo é um tédio para quem não sabe se divertir, mas para quem sabe...

Não recebia visitas tão divertidas desde a época em que os pais ainda estavam vivos.

E se perguntava o que queria aquela pessoa andando sorrateiramente ao redor do galpão, mais um intruso, “é sempre assim, no melhor da diversão a festa se enche de gente”. Se não estivesse mais lá para recepcionar os novos visitantes, contava com Mirael para fazer as honras da casa.

A casa de seu pai sempre recebia com calor, vinho e hospitalidade.


Última edição por K. em Seg Mar 16, 2009 7:32 pm, editado 2 vez(es)
avatar
K.

Número de Mensagens : 7
Idade : 30
Data de inscrição : 19/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por Medusa em Sab Mar 14, 2009 7:40 pm

Powered by beta.joggle.com


Re-metamorfoseando transfigurações já suficientemente variadas.

Teremos tempo para as tuas pobres descrições?

Quem raio é o narrador? Sou eu! Pois sou, sou eu. Não tens nada com isso.

Não te exaltes queridinho, temos tempo, todo o tempo que poderíamos sequer desejar, isto porque o tempo deixou de importar.

Deixa-me então resumir a narração, estamos quase na hora do chá.

Claro, é preferível festejar as eventualidades pouco felizes.

Tanto tormento sofrem os resquícios mentais que somos e no entanto encontramos tempo para tomar chá e celebrar as eventualidades explosivas.

Vamos lá, sempre foste uma vontade fraca, não falhes agora também.

Certo.
Em seguida monta-se na vassoura e eleva-se sob a noite que tão bem acomoda criaturas desta índole.

Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra!


Não cabem num coração humano sentimentos desta ordem.

Nada de belo se ergue nesta noite. Um possível impulso predatório num impossível invólucro. O facto é que se elevava também um irrequieto e tenso cheiro a sangue. Segue então a bruxa pelos ares cortantes, perseguindo, talvez, um desígnio nascido nas trevas do seu coração, ou talvez esteja simplesmente aborrecida.

Retém-se porém - fazendo a vassoura suspender-se no ar - sobre a provável origem da agitação nocturna e observa um homem que se aproxima da habitação cheio de vigor e confiança nas suas passadas. Medusa sorriu. Não como sorria quando lhe dizia que Afrodite era um pálido reflexo de beleza comparada com ela. Não como sorria quando lhe falava de Platão e do amor. Nada de jovial ou de inocente se encontrava neste sorriso, era uma fatalidade que suponho anuncie outra ainda mais atroz. Seja qualquer coisa que me livre de contemplar o seu sorriso, que enfim pressiona os contornos do meu ser.


Medusa precipita-se para baixo e felinamente, como as criaturas da noite sabem, contorna o homenzinho da intensa demanda por alguma coisa e já no solo transforma-o num sapo com gestos pouco decifráveis. Dirige-se à casa em passos regulares e confortáveis chegando a tempo de ouvir uma voz algo solene a referir o tédio que caracteriza o mundo faltando a capacidade de divertimento. Como tudo aquilo lhe parecia verdadeiro, tão verdadeiro como a ruiva que era comprimida contra a parede pela pálida figura que tinha falado, não tão pálida como o desfigurado intrépido homem de olhar estupefacto que se renunciava a fazer uso das cordas vocais. O sangue era abundante e todo o quadro devia excitar com suficiente intensidade a bruxa que se introduzia sorrateiramente.

Continuamente e sem prestar justificações a qualquer forma de autoridade, vocês humanos, seguem como pobres títeres, ficando o vosso movimento a dever-se a fios invisíveis que nascem em vocês mas sobre os quais não têm qualquer controlo ou compreensão. São indevidas as formas como expressam os motivos que vos guiam, são bruscas e deselegantes as vossas acções. Ser uma pedra em queda não garante qualquer conhecimento sobre a gravidade, ou sobre as pedras sequer.

Enquanto fala decide, sei lá, transformar a faca que ameaça a existência encostada à parede numa serpente que salta decididamente das mãos do arauto do tédio e crava os seus dentinhos venenosos no pescoço fogoso e desprevenido da ruiva.
avatar
Medusa
dead char

Número de Mensagens : 9
Idade : 118
País de origem : Grécia
Data de inscrição : 07/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por Amelia K. Boom em Sab Mar 14, 2009 9:46 pm

Amelia estava tentando se controlar para não explodir o dono da casa. E percebeu o esforço de K. para resistir à explosão de sua cabeça (degradante), por isso resolveu afrouxar um pouco, por um momento de fraqueza - de piedade.

Ainda com compaixão, ouviu o discurso de K. falando de seu dom maravilhoso "em um espírito fraco"... Que fosse fraco ou o cacete, quem ia morrer ali era K.... e seu espírito forte que aproveitasse o paraíso na companhia de Deus e dos anjos...

K. também tinha uma prepotência ingênua de achar tão fácil crer que Amelia é que não estava conseguindo ter sucesso em sua tentativa homicida, quando a única fraqueza de que ela poderia se arrepender ali era seu segundo de compaixão. O discurso de K. seria interessante no contexto certo. Ele colocava a fraqueza em termos de menos poder, quando o problema ali era a condescendência de Amelia. Aliás, essa mesma condescendência que permitia a K. estar fazendo todo aquele discurso... o que tornava K. ou um tremendo de um ingrato ou seu discurso era, em última análise, contra si mesmo: condenando a chance que Amelia tinha-lhe dado, com isso queria dizer que deveria ter sido morto logo de vez.

De fato.

Amelia decidiu abrir mão de suas hesitações. Explodiria seu anfitrião compulsório. Sem drama. O perigo de se utilizar o discurso sob critérios aleatórios, é que ao invés de se obter a intimidação, o que se consegue é o efeito oposto. Mas Amelia julgava aquela morte muito mais honrosa do que se K. tivesse apelado para o "coitadinho de mim, você não bateria num homem de óculos, bateria?" a fim de ser poupado. Neste caso, Amelia não teria tanto gosto em explodir uma cabeça. Noutras palavras, suas vítimas não eram aleatórias.

E K. falando como se jurasse ter conhecimento cabal sobre o que dizia - morreria com a bênção de ter tido a última palavra; morreria pensando que tinha falado tudo certinho, era aquilo mesmo sem tirar nem pôr. Amelia era mais compassiva que Deus, afinal. K. nunca mais sofreria tédio algum, e mesmo que Amelia escolhesse vítimas aleatoriamente, seus critérios para assim proceder não eram aleatórios... é que por vezes a diversão dela se constituía, justamente, na coisa mais importante. Apenas que K. com seu discurso exequial havia anulado a aleatoriedade com a qual queria condenar Amelia...

Esse povo não sabe fazer a coisa direito mesmo.

Mas os deuses são generosos. Pelo menos Diana era. E por isso Amelia deu mais importância à menina tonta que veio lhe dar uma mordida no pescoço do que para K. Logo após K. lamber-lhe a pele suada e suja sobre a carótida (tem gosto para tudo), Amelia explodiu a cabeça da infeliz que pulou em seu pescoço como se tivesse mola e não guizos na cauda.

O mesmo e o mais do mesmo.

A história se repete, especialmente a das mulas-sem-cabeça (pelo menos caudas elas têm).

Gostam de se proteger com discursos do tipo "vocês todos são títeres do que não compreendem"... "vocês se expressam erroneamente" ou qualquer coisa do tipo, "uma pedra em queda não garante qualquer conhecimento sobre a gravidade" etc etc etc, e, enfim, com esse tipo de filosofia antiga, de Pirro de Elis, velha, que morreu por suicídio, a pessoa está dizendo que ela mesma não pode garantir o conhecimento embasador de seus julgamentos, então acaba esvaziando suas acusações de qualquer poder, o que quer dizer que seria melhor ficar quieto - ou, daria no mesmo, só que com menos gasto de saliva.

Então, Amelia explodiu a cabeça da criancinha, assim, sem maiores dramatismos. Voou merda para todo lado; postas grandes de cocô aterrissaram nos olhos de K. e para dentro de sua boca torta em esgares e empáfia também voou bosta, nada de ruim nisso, já que apreciava o gosto de sujeira.

Quando finalmente apareceu na porta aquele homem alto e robusto, por quem Amelia sentiu uma atração imediata. Ela definitivamente desprezava homens que pareciam mulheres frágeis...

off - Medusa,
Este RPG não é surrealista.
Eu não o criei com esse tipo de objetivo.
Aqui, ainda há que ser resguardada certa verossimilhança.
Se você acompanhou os posts de João de Deus e da Louhi Pohjola, como em um dos nossos tutoriais recomendo que seja feito, deve ter percebido que as criaturas no grupo Witches são bruxas no sentido humano do termo, e não potteriano... O bruxo fantástico é o Viladora, devidamente colocado no grupo Warlocks. Portanto, ele pode transformar gente em porco, a sua personagem não tem o poder de transformar gente em sapo.
Eu entendo que você não queira seguir classificações, não queira saber de respeitar a Narração, mas numa dessas nem a sua narração pode ser respeitada... Felizmente, há uma saída para esse impasse: o Maldoror.
No RPG Maldoror todo player é narrador, não só os criadores do fórum, e vale absolutamente tudo. Eu recomendo que você vá para lá se entregar aos desvarios e zoeiras, o que pode ser muito divertido quando não se trata de um jogo visando certos objetivos, que guarda compromisso com uma trama e no qual um post sequer precisa fazer sentido para merecer uma interação.
Se você concordar em observar o contexto deste RPG, sua personagem poderá ser liberada como poltergeist. Se você acha chato regras, ter que seguir a Narração, se você quer narrar enfim, então a melhor coisa para você é cancelar suas contas aqui e ir para o Maldoror.
Dei o recado em aberto para o caso de haver mais alguém que não tenha entendido a diferença entre fantástico e surreal, ou melhor, pastelão.
avatar
Amelia K. Boom

Número de Mensagens : 13
Idade : 38
País de origem : Ilha de Pólvora
Data de inscrição : 22/01/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por Mirael em Dom Mar 15, 2009 9:44 pm

1

A forma ultrajante com que foi correspondido era um sinal claro de que não seria fácil dobrar a criatura assexuada, mas essa reação dela, para Mirael, antes de ser uma prova de superioridade, se mostrou um sinal de fraqueza. Assim, no jogo que jogava contra K, ele ganhava um trunfo e a balança tendia a se equilibrar. Agora, ele sabia que a arrogância da moça nublava sua perspicácia e usaria isso quando lhe fosse conveniente. Por hora, o que convinha era se fazer de imbecil e deixá-la acreditar que detinha as rédeas da situação.

Mirael engoliu o insulto e se deixou levar, apreciando o silêncio e tentando imaginar as articulações dentro da complicada cabeça de K. Até que voltasse a bostejar a prepotência que lhe era peculiar, compreendê-la era missão impossível. Deixaria ela falar, demonstraria interesse pela sua história e reagiria de acordo com as suas expectativas, buscando conhecê-la.

Quando pararam, sentiu o odor característico de estábulo e entendeu que ela o levara para um abrigo. Excelente! Como esperava um pouco mais de demonstração de força, acreditou que angariara alguma consideração. O que era muito promissor, considerando que acabara de lhe ameaçar a integridade física.

Quando K lhe ofereceu segurança e tratamento à ferida, aceitou tranquilo, mas, entendido das controversas armadilhas da vida, voltou a se preocupar com a sagacidade da anfitriã.

O que veio em seguida fez com que Mirael se desligasse de suas conjecturas. Havia esquecido do serviço agendado, havia falhado e justamente K lhe jogava isso na cara. E então, vendo-o abalado, ela se transformou e mudou de assunto, mostrando-se interessada nos seus predicativos de assassino.

-- Hammm... - baluciou Mirael atônito. Aquilo era algo totalmente inesperado. Ninguém, nunca o havia questionado sobre isso. - Como ela descobriu? Será que ela sabe mesmo o que eu fiz? - Perturbado, tomou um grande gole da bebida que recebera, o que, estranhamente, lhe facilitou a retomada da linha de pensamento. - Filhadaputa. Essa rapariga é mesmo inteligente. Atingiu meu ponto fraco para golpear a minha alma. Será que fez isso conscientemente? - De uma maneira ou de outra, a partir daquele momento, K conquistara um admirador.


2

-- Você não acredita em destino, que somos todos ferramentas à disposição dos desígnios de Deus? Quem se atreveria a julgar Ele?

Da parede oposta, K olhava com desdém. - Será que ela não me entendeu?

Encaravam-se em silêncio, quando a moça se dirigiu apressada em sua direção. Na verdade, Mirael só percebeu quando ela já estava bem em cima dele. Assustado, levantou-se e percebeu que estava um pouco tonto. - Que está acontecendo?

Trôpego, viu K desamarrar-lhe os pés. - Ai que bom! - pensou enquanto massageava os tornozelos.

- O que ela está dizendo? - Não sabia de que mulher ela estava falando, nem quais eram as suas intenções com aquela estória de assassinato, até ver a ruivinha parada ameaçadoramente à porta.

Nunca assistira a um espetáculo tão magnífico. Aguardaria sentado a vitória de K, se não desconfiasse de que ela poderia precisar de sua ajuda com a gostosinha. A briga realmente o excitara e, à certa altura, Mirael se pegou admirando as formas de K. - Será que é mulher, mesmo?


3

Cortando-lhe o devaneio, Mirael percebeu o movimento de um vulto do lado de fora da porta. Então, pegou a garrafa que estava aos seus pés e, junto à parede, deslocou-se sorrateiramente para perto da entrada. Quem viesse atrapalhar o show ganharia uma garrafada no quengo.
avatar
Mirael

Número de Mensagens : 8
Idade : 39
País de origem : Irlanda do Norte
Data de inscrição : 16/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por Frank Flynn em Seg Mar 16, 2009 11:42 am

Powered by beta.joggle.com


Ele podia jurar que Adelfa tinha marcado de se encontrar com ele ali, onde a sebe faz uma comunicação entre o pasto e a estrada, mas tudo que se encontrou com ele foi um cachorro que veio lhe morder o tornozelo. Mordida tão assassina quanto o temperamento do cão.

Frank berrava por ajuda, mas a única casa cujas portas se encontravam hospitaleiramente abertas e, por isso, cujos habitantes poderiam lhe fornecer socorro imediato era, justamente, a que pertencia ao dono dos cães serial-killers, e que provavelmente aproveitaria os restos mortais do cão explodido por Amelia juntamente com os de Frank, para completar a feijoada. Impotente, ele começou a discursar em altos brados...

- Maldito! Cão do inferno! Não queira tu, cão sarnento do limbo doce, justificar tua pele sebosa e teu corpo torrado com as lágrimas dos toucinhos do mar. Mas fica sossegado, cão, olha que ainda não encontraste o muro do açafrão, mas que os próximos bilhões de anos estão, por definição, próximos. Meça teus movimentos, cão, não é hora de rocar, saiba que um salmão encurralado não é páreo para uma trinca de dízimos. Vai e escuta: ouve teu estômago, inferno sem rabo, ouça o ronronar da tua bile pedindo mais carne para o dia da marmota. Ignora aqueles que plantam vento e colhem resina. Observa os estrangeiros, que sempre dão meia-volta antes de esticar os mamutes. Cão, não faça cachorradas, olha o exemplo do porco: foi de fazer porcaria que serviu de peru no Natal. Não retires o que disse antes de retirar-te, pois a melhor forma de te esquivar das tuas próprias opiniões é não contestar quando alguém te convence de que nunca estiveste errado!

O cachorro mastigava apaixonadamente a perna de Frank, tentando vencer o grosso jeans que o separava da carne, mas já embebido do gosto estimulante de sangue.

- Cão brumoso, borre tuas calças aladas com o que vou te dizer agora: quando fores velho e estiveres com o cérebro entupido com azeite e bolas de neve, perpetre um testamento escrito em ninho de mola ruiva contando uma ou duas perspicácias. Deixa teus netos saberem que tu, enfim, um dia foi solúvel em pedra-sabão. Por que não voltas a mergulhar nos pântanos para saborear o ectoplasma dos noviços zumbis, que povoam o charco seco em busca da fome dizimada? Não acreditas que as tartarugas fariam o mesmo? Por que não executas uma dança ao Sol, para que teu corpo se consuma nas trufas, e os vapores da tua consciência tornem-se títeres do teu epitáfio? Apenas assim, cão da morte, é que poderás desafiar a virtude dos tolos!

Mas nada disso o livrou de perder um pé. O que o salvou de perder o outro foi o astronauta que lhe dardejou um tranqüilizante na cabeça enchapelada - o tranqüilizante foi para Frank mesmo -, o que fez com que o cachorro perdesse o interesse no corpo desfalecido e fosse atacar o astronauta.

Frank logo recuperou os sentidos pois o interior da copa do seu chapéu era de isopor compacto, e por isso ele tinha apenas fingido que estava desmaiado. A perna sangrando, não conteve novos discursos:

- Ó cão do vício monstruoso, a virtude é como a gota do orvalho na cisão da madrugada. A virtude é igual a ti, cão, pois, como tu, ela sabe que por onde quer que andes, e para onde quer que olhes, sempre serás o mesmo cego e o mesmo aleijado. A virtude é o ópio dos neo-sociopatas, e apenas o ópio é capaz de manter nossa lucidez ativa em um mundo de vãos hipostáticos. A virtude é o primeiro e o penúltimo refúgio do vício. O vício vicia, mas a virtude é difícil. É mais fácil parar de fumar do que fumar trezentos cigarros de uma só vez!

Como o astronauta tinha sido agora atacado, ele precisou usar o tranqüilizante seguinte contra o cão. Frank se regozijou pela eficácia do seu discurso, e começou a se arrastar até a porta aberta.

Com dificuldade, colocou-se de pé, uma das pernas estraçalhada, e se apoiou no batente da porta vendo dentro da casinha de Salad Fingers duas mulheres atracadas numa posição sugestiva. A ruiva até deu uma piscadinha insinuante para ele. Ela que tentasse fazer isso na frente de Adelfa.

Frank não viu o homem maquiado que o aguardava, de tocaia, com uma garrafa de uísque na mão, mas avançou com o pé comido e por isso caiu antes que pudesse ser atingido na cabeça. Espalhada pelo piso, escorrendo pelas paredes, havia uma pasta de sangue e carne apodrecida, cheirando a esterco, mas ninguém parecia se incomodar com isso. Frank era obrigado a se incomodar, pois era ele quem teria de arrastar-se por aquele chão imundo. A dor, porém, é eficaz na busca do consolo; ele viu que o homem de rosto tão branco como o útero da Virgem Maria segurava uma garrafa apontando para ele, e se agarrou às pernas do samaritano:

- Que irlandês estouraria uma garrafa na cabeça de alguém estando ela ainda cheia? Me dê uns tragos e em troca lhe darei minha primogenitura!
avatar
Frank Flynn

Número de Mensagens : 4
Idade : 43
País de origem : Irlanda
Data de inscrição : 11/01/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por Adelfa Klein em Seg Mar 16, 2009 9:32 pm

Adelfa queimou as pontas dos cadarços de suas botinas em estilo militar porque estavam desfiando e aquilo a incomodava. Detestava pontas soltas. Por isso queimava tudo que não estivesse em ordem – a sua ordem – liso, limpo e claro.

Estava justamente para pôr os pingos em todos os “is” no seu relacIonamento com Frank, preparando-se para o embate, inspirando-se em Greese, seguido de Aliens – o Resgate, quando Gloria chamou-a para aquele papinho ridículo em frente à menina nova da boate. Como se Adelfa necessitasse de apresentação. A menina teria sua dose certa de Adelfa quando fosse preciso.

- Tolinha. – Ela disse, observando a patroa colocar a toalha a fim de esconder-se de seus olhos vigilantes quando voltou para seu minúsculo gabinete, após fazer Ed comer sua secreção nasal pastosa.

Imediatamente, Adelfa ligou uma outra câmera, uma localizada no espelho de Gloria Hole, um trabalho de mestre que fizera para não ficar fora de nada.
O importante era saber sempre.

- Se escondendo para fumar e coçar o “membro fantasma”. Por que não pode simplesmente aproveitar o melhor dos dois? Gente que não se aceita é foda.

Delfa, a fim de aporrinhar quanto pudesse, já havia falado para Gloria o que pensava sobre o esforço da outra em parecer femininíssima ao invés de simplesmente relaxar e ser. Era sua diversão, seja dito.

Outra de suas diversões era treinar o bonitão Frank na arte de ser homem. Ele era sensível demais para seu gosto, cheio de feridas e perdões demais, cheio de palavrórios demais, mas ela o aceitava e ele a aceitava.
Cada um com seu gosto, do seu jeito.
Sempre o deixava esperando cerca de umas duas horas, mas tendo sua concentração nos filmes sido perturbada, resolveu sair antes e ficar de longe, olhando-o esperar por ela. Gostava de ver quando ele disfarçava a irritação por ficar esperando com um sorriso fingidamente cordial. Era engraçado.

Adelfa, a sétima filha de um sétimo filho da junção de sete famílias, sabia que quem falava menos no Natal comia mais panetone, então para ela, o silêncio sempre havia sido e sempre seria de ouro.
E quando ela falava, era para calar a todos. Enquanto mastigava, é claro, de boca aberta. Não era afeita às boas maneiras, que só indicavam o quanto as pessoas podiam ser domesticadas. E ela estava longe de ser uma poodle de circo. Bem longe, aliás.

Seus pés trinta e nove esmagaram a grama fofa onde era o ponto de seu encontro com Frank, mas não o viu em lugar nenhum, o que a fez desconfiar, já que conhecia a pontualidade dele.

Espionou as moitas e sebes mais altas, tentando ver se ele é que não resolvera, depois de tanto tempo pregar-lhe uma peça. Ninguém lhe pregava peças a não ser que desejasse ser desmanchado. Talvez fosse a intenção dele, afinal. Há algum tempo vinha notando que Frank parecia gostar de... certas coisas que ela impunha quando estavam juntos. Coisas duras e cruéis.

Foi quando viu o corpo se arrastando para dentro de um daqueles casebres decrépitos da área. Apertou os olhos e, além da grama, esmagou com seus passos firmes os restos de algum animal desmantelado.

Adelfa olhou aprovadoramente as tripas no chão, pensando que, se fosse obra de um novo Frank, ele teria ganho pontos com ela. Mas achava difícil. A natureza humana podia ser disfarçada, mas raramente mudada a seu ver.

Quando entrou na casa, pôde ouvir as últimas palavras ditas por Frank, o que a deixou abalada momentaneamente e, em seqüência, encheu-a de fúria.

- Cada um dá o que é seu, Frank, mas achei que por termos um relacionamento de longa data eu teria o benefício do primeiro lugar da fila. Mal conhece outra pessoa e já sai dando tudo que bem entende.
Qual a razão de manter uma relação qualquer com outro ser humano se não se pode nem sequer ter algum lucro?
E vai levantando dessa imundície, seu imundície! Quantas vezes já não disse que assim, rastejando feito uma lesma epilética não pega ninguém?


Adelfa pegou com brusquidão a garrafa da mão de Mirael e tomou um golaço sem fazer careta ao sentir o álcool queimando seu esôfago.

- O que é aqui? – Ela perguntou, olhando à volta, de cenho franzido. Seus olhos foram do homem extremamente maquiado às duas mulheres estranhas, abraçadas. Uma delas sequer parecia mulher – ou homem.
– Isso é a concentração de alguma parada gay? Uma bem furreca, por sinal. Qualquer mona de morro teria um piti homérico de ver o nível dessas "bibas".

Tomou mais um gole, espatifou a garrafa na cabeça de Frank, já que era alemã e não irlandesa, antes que o homem pintado tentasse oferecer outro drinque a ele, que fedia como um zurrilho esmagado, aliás, parecia que vários zurrilhos haviam sido estraçalhados naquele lugar, pelo cheiro horrendo:

- Levanta e honra as suas calças! A não ser que esteja deitado para tentar ver as calcinhas delas. Posso até entender se for isso. Não vou gostar, mas é melhor ser homem que verme.
avatar
Adelfa Klein

Número de Mensagens : 2
Idade : 39
Data de inscrição : 12/03/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por Amelia K. Boom em Qua Mar 18, 2009 1:13 am

Amelia não gostava de dirigir. Nada contra os carros, nada contra o volante, nada contra estar na direção. O problema eram os carros à volta, todos se mexendo, assim como quem tem vida própria e só Amelia sabe o que se passa na cabeça daquelas criaturas que dirigiam. E a visão, ou melhor, a audição era aterradora.

Certa vez, estava ela naquele mesmo centro onde as explosões começaram, mas ela estava no carro – por sorte explodir ainda não era um acontecimento digno de nota na vida de Amelia, apenas notícias em jornais causadas por terroristas nervosos ou prédios condenados – e ela dirigia. Esperava o sinal abrir, aquele marasmo vermelho, irritado, quase tão enervante quanto uma menstruação. E ela olhava a rua de um lado a outra vendo os carros passar.

E de repente uma buzina.

A desgraça era insistente na orelha dela.

Por outro lado, veja bem, para Amelia seria relaxante, afinal, a barulheira cegava seus outros sentidos. Seria. Entenda: Era uma buzina. E buzinas não são relaxantes, e nem é essa a função delas.

E a buzina penetrava nos ouvidos e nos olhos e nos braços e nas peles e nos ossos e nos cabelos. Os cabelos de Amelia se arrepiaram.

A desconfiança de que a buzinação era para ela foi ficando cada vez menos sutil e mais elefantosa, daquelas que toma conta da sala, branca, com patins, copos de groselha a postos equilibrados por uma tromba temerosa. É que tinha um rato na sala.

Acredita que a buzina ainda estava lá?

Amelia se dignou a olhar pra trás. Uma sujeita daquelas frágeis, com uma SUV registrada em seu porte de arma e um chiuaua à tira colo.

Bem, e por que não convidar o elefante para se aconchegar no sofá da sala?

Com espanto, Amelia percebeu que a coisinha falava. Coitada, queria ser ouvida em meio à buzinação que causava, tinha mesmo que acreditar que a voz de ganso era tão mais irritante que uma buzina. Mas legal mesmo era a linguagem corporal usada pela coisinha, ela parecia estar aos brados. “Desliga a buzina!” Amelia torcia de longe, quase que queria escutar o que a outra dizia.

Para sorte da coisinha ao volante na SUV, Amelia até que entendia coisa ou outra por leitura labial. Ela só demorou tempo demais para entender o que se passava porque estava observando coisinha pelo espelho retrovisor. E as palavras saíam ao contrário.

Lá pelas tantas Amelia bem compreendeu que era xingada de barbeira.

Verdade. Acusação séria para as pessoas que esperam pacientemente o sinal ficar vermelho.

Falando em aleatoriedade, o melhor é voltar para o galpão.

Aaakh! Tinha que ter discurso? K. estava naquelas de discurso, como todos os mauzinhos de todas as histórias com mauzinhos quando estavam prestes a cometer seu ato mais mal e fatal. Aquele maldito discurso explicando suas razões, ou então sermoneando o alvo que estava prestes a sofrer as conseqüências da infelicidade deles.

A roda da moralidade do dia apontava para a fraqueza de Amelia. Ainda bem que Amelia não era lesada o suficiente para encarar aquilo com seriedade. E estava determinada a pôr à prova as suas capacidades de controle e não a sua paciência, ou as suas convicções.

Por isso K. estava viva.

Por isso Medusa havia morrido.

Ainda faltava a gargalhada, mas Amelia com certeza que não esperaria por aquela parte da demonstração, especialmente porque mais pessoas chegavam e, pela porta surgia um tipo realmente estranho. Por um momento, a alegria por ter explodido mais um ainda inundava o seu corpo, e a porcaria espalhada pela explosão anuviou os sentidos de Amelia. Se por um segundo ela identificou o sujeito como sendo a melhor alternativa à pão fatiado, ao piscar os olhos com a rigorosidade que suas pestanas mandavam, logo pôde ver que o sujeito em questão era tão firme quanto geléia de morango. E colorido também.

Aproveitando a entrada triunfal do mancebo, Amelia decidiu que seus dedos eram o elo mais fraco naquela equação, e deveriam sofrer as conseqüências por estarem tão à mão. K. tentava segurar seus pulsos com uma mão só, mas essa era daquelas coisas que teria que ser muito homem pra fazer. Do tipo que joga basquete e tem mão de raquete de tênis. E depois, os restos de Medusa que aterrissavam nos olhos e boca de K. facilitavam o processo. Amelia conseguiu livrar a mão esquerda e segurou com força a faca de K. O sangue brotando até que era agradável. Quente e tudo o mais. Mas o corte tinha aquela mania de coçar. E doer.

Amelia então mordeu.

Mordeu como se nunca tivesse mordido antes. Mordeu como se o nojo não fizesse parte da sua vida. Mordeu como morderiam as Amelias se fossem canibais. Enquanto fazia K. testar o melhor zumbido gerado por uma daquelas dores de cabeça capazes de cegar, porque, se chegassem um ponto mais adiante, explodiria.

Mas ninguém explodiria. As pessoas se aproximando ao redor dos acontecimentos cada qual com suas considerações traziam mais elementos que faziam com que Amelia quisesse que o mundo se explodisse num inferno de sangue e miolos.

Isso lembra pãozinho com molho de tomate.

Amelia de repente se viu com fome.

E lembrou que tinha um dos braços de K. na boca, e este começava a sangrar, por debaixo dos dentes dela.

Eca, eca, eca!

A repulsa era gigantesca, para não dizer tamanha.

E assim Amelia espirrou. Daqueles gostosos, violentos e cheinhos de catarro.

Sobre os espirros dizem que não é possível, quando acometido por um deles, manter os olhos abertos, e que um espirro pode chegar a 160 Km/h. Os gregos também interpretavam o espirro como sendo sinal dos Deuses. Os habitantes de Viltvodle VI acreditam que o criador do universo é o grande Megaresfriadon Verde, e semeiam o medo perpétuo da vinda do “grande lenço branco”.

Saúde.

Com as contrações dos movimentos todos, e claro, o fato de Amelia estar de posse da faca de K., as coisas mudavam um pouco de lugar. Amelia se viu livre para cutucar não muito amigavelmente as costelas de K. usando a propulsão do espirro. Com a pontinha do cotovelo.

Amelia saiu trôpega dos braços de K. e, mostrando a faca para K. cheia do seu sangue, catarro e repúdio, Amelia só pôde dizer, com seus dentes machados de sangue como que para reforçar suas palavras:

- Falemos, pois, em fraqueza! Quem quer convocar quem para uma caçada sangrenta porque a vida é um tédio de outra forma? Te condeno à vida. E que ninguém me acuse de ser gentil por isso!

Amelia ia saindo pela porta do galpão. Jogou a faca para Adelfa, que tinha o jeitinho meigo de quem sabia exatamente o que fazer com aquilo.
avatar
Amelia K. Boom

Número de Mensagens : 13
Idade : 38
País de origem : Ilha de Pólvora
Data de inscrição : 22/01/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por Bradock Katana em Qua Mar 18, 2009 6:01 am

Nothing can stop me now
There's nothing to fear
'Cause everything I'd ever want
Is inside of here.


Powered by beta.joggle.com


E ele a esperava do lado de fora. Quem disse que ele teria a pretensão machista de salvar a donzela em perigo? Obviamente, quem inventou o machismo foi o mini-menschinho. Dava para saber perfeitamente bem àquela altura que a ruiva sabia dar-se é muito bem sozinha.

Bradock sabia que o vilarejo não era normal. E o tinha em boa conta por isso. As pessoas que viviam em Deverell não podiam ser qualquer porcaria para aí seguirem vivendo. Acima de tudo, não podiam ser normais. O problema do normal é que ele não se sente à vontade com anormalidades. O anormal sobrevive em quaisquer circunstâncias. Quem pode o mais, pode o menos. O anormal se incomoda menos. E quando se incomoda, tem mais recursos.

Johann Friedrich Schiller, quando sem inspiração, alinhava oito maçãs mofadas sobre o console destampado do piano de cauda e ficava apalpando os frutos apodrecidos. Aquilo o inundava de idéias. Ele não sabia explicar por que isso acontecia, mas sabia que funcionava. O fato dele não saber explicar por que tinha que ser com maçãs mofadas (oito), e não com outros objetos fofinhos quaisquer, tornava a sua escolha aleatória? Há que se entender o que é a aleatoriedade. Se não existe sorteio, não há aleatoriedade.

Toda escolha, ainda que improvisada, ainda que não pensada, nunca é realmente ao acaso. É simplesmente que o ser humano é movido por forças que ele não conhece de todo.

Por isso que em uma sessão de livre associação de idéias, o psicanalista procede a uma varredura do inconsciente — porque essa associação não é livre realmente.

O cérebro nunca joga palavras ao acaso, por isso que a escrita automática é, também, base para diagnósticos psicanalíticos. Ele é tão perfeitamente condicionado e comprometido com certos objetivos - determinados pelo id, não pelo superego, como ocorre no processo consciente - que o sonho "maluco" do pastor que começou a lamber o microfone para que este funcionasse, provocando a forte comoção das carolas na audiência, as quais já começaram a chorar aí mesmo antes do sermão começar (um sobre Jesus dizendo "Olhai os antúrios do campo"), é uma denúncia.

Isso porque a mente inconsciente aprendeu a lidar perfeitamente com o superego. Longe dos olhos, mas perto do coração.

O pastor contou depois "Deus quis me dizer com isso que me fará derramar Seu poder no sermão e tocará a muitos corações." O fato dele se ver como um sujeito muito correto, e por isso não aceitar de modo algum a interpretação do psicanalista..., não a torna menos exata. Quem disse que ele se conhece?

A mente consciente é cega, e precisa ser, do contrário não conseguiria sobreviver às exigências do superego, às injunções sociais, porque só se artificializando para viver em uma sociedade tão artificial. Ser o que você realmente é seria "psicopatia" — seria "o fim da 'vida em sociedade'." Seria aquela vida como era no começo de tudo, quando os Übermenschen reinavam sobre a Terra. Seria o Reino Natural. Nós somos pessoas civilizadas agora. Do ponto de vista da realidade, da essência, o que isto significa? Um bando de gente em camisas-de-força.

Uma delas se constitui das várias crenças necessárias para dar sentido a uma existência cretina dessas: o Céu me espera se eu viver uma vida igual à morte aqui na Terra. O pastor não vai querer ver que isso é só casca, e que na essência ele é igual ao tarado que irá para o inferno, e que o excesso de bíblia é uma compulsão recanalizadora de uma libido sonegada, não resultado dos estímulos transcendentais do Espírito Santo. A sua vida ascética é só um outro formato para a luxúria.

Bradock tinha passado do ponto fora da curva. Espírito Santo e luxúria demoníaca são a mesma coisa, e, francamente, qual a diferença entre os transes em um terreiro de macumba e um daqueles espetáculos pentecostais? O crente vai dar todas as diferenças - tudo artificialidades. Tudo DISCURSO. Retórica. É o material de que as camisas-de-força são feitas. Amelia simplesmente explodia cabeças.

Então a escolha de Bradock foi aleatória? Prova maior da enormidade dos motivos era que ele não gostava de ruivas e "de repente" abriu uma exceção. A conversa mais louca da literatura certamente era aquela da Elizabeth Bennet para o Mr. Darcy, em que ela recusa o cara porque no dia em que eles se conheceram, ela o tinha ouvido comentar com um amigo "Mas que menina mais sem graça essa". Ela, em sua postura intelectual muito superior, exigia que ele mudasse seus preconceitos. E ele, muito lúcido, disse que poderia fingir uma mudança para agradá-la. Ao final, ela percebe que era, mais que ele, uma violenta preconceituosa. Tinha preconceito dele ser rico, bem apessoado, superdotado, culto, realista. Ela, em sua postura intelectual muito superior, exigia que ele mudasse seus preconceitos — para os dela. Ao fim e ao cabo, é disso que se trata.

Amelia caminhara até a porta com a faca em punho, atirando-a por fim à Adelfa. Quando se virou para sair, esperava-a uma injeção sedativa, disparável a longo alcance. Parecia até planejado da parte dela desacordar caindo para frente, nos braços do captor. Pelo menos Bradock preferiu imaginar as coisas por aí. Colocou-a no ombro e levou-a para sua toca.
avatar
Bradock Katana

Número de Mensagens : 4
Idade : 53
País de origem : Inglaterra
Data de inscrição : 07/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por Jupiter em Qua Mar 18, 2009 8:50 pm

As projeções que sua vida montava eram no mínimo, extravagantes. Como se a história estivesse nos rastros de suas atitudes. Por isso ele estava lá, buscando um nexo no meio de suas razões, dissecando sua imagem num espelho. Achando ser o de sempre que desfilava por ai com os mesmos chavões.

Mas não, hoje? Hoje ele era Júpiter, um garoto atarracado de olhos fundos e dissolutos. —Se você não fosse solteiro, eu daria encima de você. —Disse ele para o reflexo. Porém, era justamente por ser casado consigo que ele se sentia atraído por sua psique irresistível. Ele simplesmente pôs seu boné e acendeu o fumo na ponta da boca e se colocou a sair da hotelaria.

Trabalho de praxe. Vender a alma pra balela e se curtir de um cansaço interior. —É melhor ter fogo nas mãos do que pássaro comendo seu fígado. —Cadenciou a embreagem da scooter e saiu arrotando dióxido rua abaixo nos biombos do asfalto. —Doçuras e gostosuras. —Disse ele olhando sua imagem no retrovisor.

Não que ele fosse um doce, de forma alguma, ele simplesmente se lembrou quando a recepcionista da Collin Pizzas outorgou satisfação da noite interior e ele disse—Olha só sua piranha, se você não tomar cuidado, vai acordar com formigas saindo na sua boca. –Ela se enfureceu e saiu fazendo estardalhaço—Veja Jose—Jose é uma das atendentes—Você é testemunha, ele me ameaçou se alguma coisa acontecer... —Ele interrompeu. —Não seja burra, eu disse isso porque meu pau é doce mesmo. —E saiu pra mais uma das entregas.

Chegou no trabalho um tanto quanto amargo, seu chefe estava de mal humor.—Atrasado de novo.—Júpiter simplesmente se equilibrou e disse.—Sua mulher também.—E pegou os instrumentos de trabalho, uma placa com ‘Vai vai Presunto’ e as luvas para o trabalho da pizzaria mais higiênica da cidade.—Pouco sabiam que era ele que comia as calabresas.

Porque existe uma filosofia inteira nessa de entregar pizzas. Existe aquela teoria básica da relatividade que se um corpo tem a vontade, o outro tem que ser o meio dela. E é por isso que a vontade de Júpiter era a mais pura em querer ter a vontade de se tomar de excêntrico. Como por exemplo, fazer a borda recheada ele mesmo com os ingredientes do próprio corpo.

E foi assim que Júpiter se flagrou perdido nas redondezas daquela droga de cidade e decidiu fingir que fora naquela residência que pediram a pizza. Ele chegou, bateu com os nós dos dedos a porta e gritou. —Não aceito balas de troco. —E voltou a atenção pro seu chiclete.

Como não atendiam a porta, ele decidiu circular a casa e pular pela janela. Foi assim, subindo as escadas que ele disse. —Nem adianta vir com ameaça não, até a bíblia custa caro, meu caro. —Ele olhou as condições e disse. —Não aceito penhores como pagamento também, mas quem sabe um sexo casual?—Foi falando e falando até chegar a um dos quartos. —Poisé, é justamente assim o que eu acho, esses monstros de filme que aparecem por ai, são na verdade todos, obras do interior, tudo feiúra da alma que se dilacera na cara dos toscos.

Indo contra o gradiente de concentração, ele fez osmose, do cotidiano pro perigoso. Se aventurando pra dentro da casa dos mal-vindos. Sentia-se confortável, porque a vida inteira Júpiter morava mal, não seria agora que se sentiria envergonhado por isso.

Na verdade ele não enxergava nem a casa. Deixou os óculos em casa e a primeira pessoa que viu, ou na verdade sentiu... Tacou-lhe a mão na cara desta (Adelfa) e a apalpando pra sentir a grossura do timbre, ele elevou a voz e disse. —Pizza do Collin!—E deu um sorriso e colocando a pizza de lado e estendeu a mão pra pegar a grana.

Não aconteceu. —Ah, não tenho troco, mas se quiser, eu trago depois. —E olhou para todos—Estão em reunião?Ah, me desculpem, finjam que não estou aqui, a menos que queiram uma interação viril de um...—Ele deu um pigarro e se sentou.—Que chuva, não?

Vendo que ser casual não funcionava, ele simplesmente esperou. —Sem pressa, espero pegarem a grana, supimpa?—E continuou mascando o chicle, mas ai ficou com fome, tirou um pedaço e deu uma mordida, tomando cuidado pra não comer a borda. —Portuguesa, essa é um barato. —E encheu a boca—Não tem um refrigerante ai não, pô?

E curtiu a hospitalidade dali, um ambiente harmonioso e no mínimo, singelo.
avatar
Jupiter

Número de Mensagens : 2
Idade : 41
País de origem : Escócia
Data de inscrição : 16/01/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por K. em Dom Mar 22, 2009 4:34 pm

- Destino? O destino, senhor Mirael, é o Acaso com manias de grandeza. (*) Deus existe, mas adivinhe! Não dá a mínima para como levamos nossas vidas.

E a dor prosseguia, pulsante uma bolha crescia e se movia, reativa às atividades cerebrais da ruiva. A dor mantinha alerta, atiçava as sensações, aflorava o ódio e o desejo. Pouco antes, sob a bruxuleante luz da noite, Amélia estourar os miolos de seu cão foi revelador. Plena em sua decisão segura, rápida em sua execução, a criatura Amélia era um aborto da criação, retirado da gaveta evolutiva para desafiar o previsível. Assim, os quinze minutos de admiração que rendeu à ruiva se esgotaram ao vê-la vacilar. O motivo do vacilo pouco valia, demonstrava descontrole, falta de planejamento, imprecisão. Desperdiçar um dom tão atraente em caprichos momentâneos, caminhar ao léu e eliminar os que se trançam aos cadarços de seus sapatos. K. desprezava a intrusa por revelar seus segredos a tantos olhos ao mesmo tempo, matar uma criança e deixar as testemunhas vivas, ferir a K. e sair caminhando pela mesma porta que entrara sem se preocupar em apagar as evidências. Sentir que nossos atos são extraordinários e dignos de aplauso é muito comum, pensou, imprudência é não medirmos a distância entre nosso brilhantismo e a capacidade dos demais em nos suportar.

Havia atirado a caneca contra a testa da ruiva porque desejava ver o ódio nos olhos dela, saber até onde iria sua fúria, conhecer com que tipo de maldade estava lidando, precisava provocá-la e sentir seu antagonismo, porque a palavra amizade não fazia sentido algum para os seus preceitos, consideração e retribuição muito menos, pressentiu o quanto a ruiva podia vir a ser importante para os seus planos no futuro, mesmo com os seus métodos estúpidos e sem a intenção de colaborar em nada, a própria atitude de não tentar esconder seus crimes seria uma vantagem. Sabia agora um dos pontos que irritavam a ruiva e poderia usar isto para apertar algum gatilho no futuro. O estranho era descobrir utilidade em alguém e continuar odiando a pessoa do mesmo jeito, K. não admitia, mas devia estar com inveja de Amélia. É claro que a inveja vinha acompanhada de despeito, pois ficava uma certeza patente de que possuindo um poder daqueles conseguiria tudo o que desejasse, não precisaria depender de tantos outros fatores, angariar favores, comprar simpatias. Mas não possuía. Deus não dava asas às cobras, isto era verdade, porque as cobras não precisavam de asas para cumprir os seus desígnios.

Por fim, foi uma sorte não precisar matar a ruiva, a distração trazida pela criança (uma pena a morte em vão, nas mãos certas a morte de uma criança choca mais que a morte de cem homens) e os fetiches de Amélia em espalhar sujeira e se sentir parte dela haviam poupado o acontecimento. As vozes dos novos visitantes – para K. não se constituíam como incômodos, pois se foram capazes de vencer os cães algum valor mínimo mostravam, e de alguma sorte eram vítimas – unidas a um pequeno retrocesso da dor lhe permitiram acompanhar atentamente o desvencilhar de Amélia de sua mão, seu gesto precipitado e sugestivo contra a lâmina do punhal, suas imprecações finais e exageradas. Caso K. acreditasse em Destino teria certeza de ser a mão deste agindo em seu favor, apontando para a importância de seus propósitos. Mas não acreditava, portanto, diabolicamente acontecera tudo ao acaso e por influência dos caprichos humanos.

Com largas golfadas de ar, bombeava a vida para dentro e para fora dos pulmões. Não saberia mais viver sem odiar, uma vida inteira jogada fora em desprezar e ignorar, enquanto a verdadeira emoção residia no ódio. Torceu o lábio num sorriso silencioso e escondido pelos cabelos imundos, “as fraquezas têm sempre alguma serventia”. Se este mundo em que vivemos não fosse cheio de vícios e fraquezas o que seria dele? Com certeza seria ainda mais tedioso, e mais difícil de dominar.

Antes de desmaiar viu a ruiva tombar nos braços do que lhe pareceu somente um vulto. Desejou melhor sorte àquela sombra do que tiveram os seus cães.

Acordou se afogando com o tonel de água gelada despejada sobre sua cabeça. A água e o gelo foram até seus ossos, tossiu até não haver mais fôlego. A gentileza viera de Mirael, face contorcida em apontar com gestos forçados de cabeça os três visitantes retardatários.

- Estamos quites, você não me deve mais um despertar em grande estilo. – Dobrou-se para engolfar mais ar.

Antes de dar atenção aos visitantes, quis avaliar suas condições. A cabeça não doía tanto, ou talvez o resto doesse muito mais, a audição falhava às vezes por efeito do sangramento recente, uma das costelas incomodava, o corte feito por Mirael sangrava também. Estava mal, mas de pé.

Só depois prestou atenção nos outros, uma mulher grande e forte, um homem semi-desmaiado com um ferimento grave no pé, um rapazote vestido à moda escocesa. Ouvia mal o que eles conversavam, de toda forma, seu interesse em prosear estava diminuído.

Olhando em volta ficou com mais ódio da ruiva. No dia em que ela precisasse limpar as próprias sujeiras entenderia a razão pela qual se tomam precauções neste ramo de atividades. Pedaços de cães em seu quintal, os miolos da desconhecida por toda parte, tudo largado à toa em sua casa.

Avaliou que se um dos três retardatários pretendesse chamar a polícia já o teria feito, não havia razão para ameaçar nenhum deles, desnecessário, já tinha cada rosto muito bem guardado na memória, não gostava de delatores e os delatores também nunca conseguiram simpatizar com K.

- Conheço um lugar em que a noite dura até a hora em que o freguês pagar, a bebida nunca acaba e a música acorda os mortos. A comida não é esta droga industrializada – falou e encarou bem a cara grande do escocês e suas caixas de pizza – e as companhias são as piores possíveis.

Era uma insinuação, óbvio, não estava se dignando a pedir que saíssem de sua casa, tampouco convidava para que lhe fizessem companhia. Ia aonde desejava e dava este direito aos outros, ou fingia não estar dando a mínima para o que os outros fariam, tendo já em mente pagar alguém para vigiar aqueles três por algum tempo; as caras eram de gaiatos no navio, mas confiar não era o forte de K., se estivessem por perto era mais fácil de descobrir porque haviam se encontrado ali naquela noite, e comprovar se valiam alguma coisa. A noite já vinha sendo interessante até ali, mas não se contentava com emoções pequenas. Estava contando aquele como último dia para seus prazeres, depois viriam obrigações e dedicações contínuas, não podia perder um minuto a mais com distrações. E precisava rever uma pessoa.

- Já bebeu o suficiente por uma noite? Um homem não deve deixar o sangue esfriar nas veias, senhor Mirael, vamos a um lugar em que o sangue está sempre quente!
De fato, o corpo de K. estava gelado como um lago no inverno, não seria qualquer coisa apta a quebrar aquele gelo e recompor as suas forças.

Gritou a última frase com a porta da caminhonete que estava estacionada atrás do galpão aberta, acompanhando o grito com várias buzinadas. Desejava menos as companhias do que cumprir uma promessa feita à sua, em breve, anfitriã da última vez em que a visitara.

Madame Dolly pediu que levasse amigos.

(*) adaptação de frase do Millôr Fernandes
avatar
K.

Número de Mensagens : 7
Idade : 30
Data de inscrição : 19/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por Frank Flynn em Seg Mar 23, 2009 8:07 pm

"Agradam-me os valentes. Não basta, contudo, saber manejar bem uma espada; é preciso saber também a quem se fere. Vós deveis ter somente inimigos dignos de ódio, mas não inimigos dignos de desprezo: é mister estardes orgulhosos do vosso inimigo. É mister reservardes-vos para o inimigo mais digno, meus amigos: por isso há muitos adiante dos quais deveis passar.
Ditosos tempos aqueles em que um povo dizia: 'Sobre Nações quero eu fazer-me Senhor.'
Que, meus irmãos, o melhor deve reinar, o melhor quer também reinar. Quando se ouve outra doutrina, é porque falta o melhor."
Nietzsche (quem mais poderia ser?), "Assim falou Zaratustra"


"A comida lá não é essa droga industrializada." E as aves que lá gorjeiam são mais marias do que cá.

K. era realmente um anjo de pessoa. Permitiu que os intrusos ficassem em casa numa boa, nem se preocupou de eliminar suas testemunhas, que pelo menos Frank a tinha visto enfiar uma faca no pescoço da ruiva. Ainda demonstrou incômodo em relação à sujeira, mas se conteve nos impulsos faxinescos para deixar seus convidados à vontade.

Ela também tinha uma facilidade admirável para disparar julgamentos sem maiores preocupações com evidências comprobatórias. A pizza que Jupiter tinha trazido era "droga industrializada". Viu uma pizza em uma caixa, ergo, comida industrializada. E a verdade é que todos os ingredientes eram frescos! Jupiter tinha podado seus pêlos pubianos coisa de minutos antes, para fazer o recheio da borda, e reservara o resultado da masturbação para temperar os tomates. Já devolveu na hora:

- Então vai lá no enterro com essa roupa de brechó!

Ficaram contentes por poderem aproveitar a casa de K. Jupiter não perdeu tempo e foi remexer em despensa e geladeira, para preparar um ensopado, usando todos os ingredientes disponíveis, desde berinjela a pêssego podre. Frank foi deitar um pouco, para descansar a perna sangrante nos lençóis da generosa anfitriã. Adelfa tentou ligar a tv para assistir a luta livre, mas como o canal em questão não pegava direito, de raiva meteu soco na tela, partindo o aparelho, e então, frustrada com tudo, menos com Frank, foi descontar, logicamente, nele.

- Você vai ficar aí deitado, dando mole? O corpo é comodista, você tem que reagir!

Embora com dificuldade, ele já foi logo se pondo de pé, porque não queria fazer feio para ela. Esta, por sua vez, para testar os poderes do amante, mandou:

- Vai lá naquele entregador de pizza e tira a pizza da boca dele!

Frank se arrastou até a cozinha e olhou para o Jupiter comendo com vontade, o cara parecia esfomeado, necessitado, e "vacilou". Então Adelfa começou a falar um monte para ele, que ele era um descontrolado, que não tinha planejamento, precisão. Como coisa que ele precisasse planejar para enfiar a pizza no rabo do cara. Frank tinha as mãos mais rápidas da Irlanda.

O motivo dele era "dar uma chance", mas o motivo não importava, porque o motivo era descontrole, saca? O motivo de Frank não ir lá tirar a pizza da boca do rapaz, que era dar uma chance, só podia significar descontrole, nada além disso, no máximo falta de planejamento e precisão.

Adelfa continuava vociferando, contente por ter uma razão ante a qual arrogar-se o título de dona, ainda que fosse das mais podres e irrazoáveis, ainda que não fizesse sentido.

Quer dizer que eu dou uma chance para que o meu ato não seja um puro capricho, dou a chance do cara me acrescentar motivos de ir lá acabar com a farra dele, e isso é "descontrole".

O cu tinha mais a ver com as calças do que as atitudes em questão com as interpretações adelfianas.

O problema de se fazer discursos aleatórios é que não convencem e pegam mal. Frank estava começando a ficar de saco cheio de Adelfa.

Aí o Jupiter começou a fazer discursos para Frank:

- Você é um fraco. Você não sabe por que tem o dom de tocar treze violoncelos ao mesmo tempo, e isso é uma fraqueza imperdoável, essa ignorância das leis da genética, do esforço e dos desígnios divinos. Aí basta você pegar o arco e tocar o violoncelo que você não consegue controlar a música, porque se soubesse se controlar não ficava pondo a mão no arco durante a execução toda. Inclusive que você toca muito bem, mas você não sabe tocar para o seu próprio benefício, pois se tocasse para o seu próprio benefício você ia logo enfiar o violoncelo no meu traseiro, é isso que você ia fazer, mas você é fraco e não é capaz de me foder, com o tamanho de arco do seu violoncelo que é só uma batalha palha, e aí o problema de transformar arco em batata aleatoriamente é que a partitura se transforma em estrogonofe. — discursava ele aleatoriamente.

Então Frank foi lá, catou a pizza da boca de Jupiter, com rapidez — e precisão — enfiou-lha no rabicó, pegou outros pedaços e lhos tacou na cabeça, a terça parte entuchou camiseta adentro e o resto chutou contras as paredes e usou de patins para deslizar sobre o chão como se fosse um rinque.

Adelfa foi obrigada a inventar outra reclamação:

- Você tem que fazer isso na frente de todo mundo? Derrubou a pizza, tem que limpar!

Primeiro ele era errado por dar a chance para o cara. Depois era errado por ir foder com ele por "mero capricho". Isso que, concedida a chance, o outro lhe devolveu com todos os motivos do mundo para ser detonado, por ser um imbecil. E quando foi lá o Frank lhe tirar "o chupa da boca" — que não é para ter vacilos, que é para se impor mesmo —, vem Adelfa lhe dizer que o fizesse às escondidas... que limpasse a bunda do nego na qual Frank tinha entrouxado a pizza.

Quer dizer, limpa você! Se tem quem limpe, eu, o ruim, vou ficar fazendo a bondade de limpar a bunda dos outros, ou ficar medindo a capacidade do cara me suportar? Se for para ser suportável e ficar fazendo média, acabou-se a maldade. Se o melhor de ser mau é justamente não ter que ficar pisando em ovos com o puto que seja!

Jupiter ameaçou de dar queixa de estupro na polícia, e aí Adelfa recomeçou:

- Tá vendo? Se você estupra, limpa a porra com cândida, porque vão te descobrir pelo dna.

Mas ele não era o foda? Não era para ser o foda? O foda vai ficar se escondendo ? Que se escondam as baratas, viesse a polícia e ele tinha a capacidade para transformar seus cérebros em pizza. Tinha? Então vão ficar impondo moral de escravo para cima de mim?

Se eu quero mesmo destruir tudo não tenho que esconder é nada, quero mais é que venham a mim para eu terminar logo com essa palhaçada de vez.

- Eu não quero ser vilãozinho de meia-tigela, Adelfa. Vá tomar no cu.

Adelfa lhe meteu bordoada, aí ele viu que ela ficava irritada quando lhe faltavam com o respeito, e para o futuro poderia usar isso contra ela:

- Vai tomar no cu, Adelfa.

Tomou nova porrada.

- Vai tomar no cu.

Mais porrada.

Mas, bem lembrado, para manusear pizzas Frank era rápido, ágil, sabia fazer coisas com pizzas que haviam inspirado o jogo do Super Mario. Isso Adelfa tinha que reconhecer:

- É, o bom de ter esse seu poder é que você consegue tudo o que quer sem precisar de outros fatores, como limpar as evidências que deixa para trás, eliminar testemunhas, lamber o cu do outros, pisar em ovos calculando a capacidade dos demais em te suportar.

- Pois é, Adelfa, afinal de contas eu não preciso que gostem de mim para mandar por aqui. No mais, você percebe a sua incoerência, ou não? Sabe o que causa a incoerência? O oportunismo. O discurso do oportunista não tem consistência, ele não fala as coisas porque tem um norte, convencimento de uma tese, ele fala as coisas por falar, para se justificar, não há comprometimento com uma verdade pessoal, mas com uma vaidade oca. No fim, tudo que ele consegue é não ser levado a sério. Não quero seguir esse tipo de discurso, porque não quero ser vilão-mulherzinha.

Então ele a dispensou, pois ela era toda abrutalhada e falava grosso, mas no crânio tinha o tipo de cérebro que tanto fazia inteiro ou espatifado. Mesmo uma explosão aleatória de uma cabeça assim ficava justificada como se fundamentada fosse - porque dava no mesmo. É o que a filosofia chama de "falso problema": se o x e não-x são a mesma coisa, não é preciso justificar a aniquilação de x. Polemizar em cima disso é tão útil quanto ficar olhando para a parede.

- Sabe, Adelfa, você faz uns discursos exagerados, contraditórios...

Ela ficou puta e avançou para cima dele empunhando um caroço de azeitona com o qual pretendia substituir um de seus globos oculares. Ele pegou o caroço da mão dela e o atirou contra Jupiter.

- Seu gesto precipitado é sugestivo, Frank. - disse ela com desprezo.

- Que precipitado, Adelfa. Você veio para cima de mim com a azeitona e eu tirei da sua mão. Se eu deixasse quieto, ainda que por um momento, você ia chamar de vacilo, se eu reajo, você chama de precipitado. Acorda lá, ficar criticando só por criticar para se convencer que você é uma puxa de uma gênia do crime, acaba dando em incoerência e no fim vira pastelão. É melhor você se juntar ao Jupiter logo. — este tivera a brilhante idéia de retirar a pizza das profundezas do ser com uma colher de pau.

E de novo ela tentou se justificar do seu jeito capenga:

- Se nós não tivéssemos fraquezas, o mundo com certeza seria ainda mais tedioso, e mais difícil de dominar.

- É tedioso quando é fácil. Você realmente presta atenção no que diz? Isso para quem fala que não se contenta com emoções pequenas. Eu vou procurar um oponente que não tenha vícios nem fraquezas.

Jupiter apoiava Adelfa:

- Você precisa aprender muito ainda para ser bom vilão. Por exemplo, olha a merda que você me deixou, com essa pizza enfiada no meu rabo. O dia que você tiver que tirar a pizza do seu próprio rabo, então você vai entender porque tem que tomar a precaução nesse ramo de estupro. Olha aí, pedaços de pizza no meu cabelo, minha roupa suja de pizza, você precisa limpar, porque senão tudo acaba em pizza.

- Então você está falando do bom vilão? É para eu ser ruim ou para ser a empregada doméstica das minhas vítimas? Eu quero mais é que você se foda com essa pizza.

A transformação de Frank não teria sido possível se Adelfa, em seu autoritarismo, não fosse, por outro lado, mentalmente inconsistente. Pois quando se tem uma personalidade imperativa bem apoiada em razões inescapáveis, o resultado é síndrome de Estocolmo. Então restava a Adelfa ser mais boazinha, porque é a vontade de se impor do baguá que ninguém suporta.
avatar
Frank Flynn

Número de Mensagens : 4
Idade : 43
País de origem : Irlanda
Data de inscrição : 11/01/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por Jupiter em Ter Mar 24, 2009 7:07 pm

“A arte reconduz suavemente à realidade as contemplações demasiado abstractas do teórico, enquanto impele com nobreza o prático para as especulações desinteressadas” Auguste Comte.

Pior é aquele que se intitula algo, vive num mundo na qual a auto-medicação é faculdade de gente globalizada. O outro já chega dizendo que é vegetariano, mas pra mim, o cara gosta mesmo é de verduro. E é tudo uma coisa só, vem pra mim dizendo que é depressivo, orra, o cara vem com um puta mau humor vivendo no mundinho, com medo até de se encarar por medo de conhecer a merda que é e depois vem com um baita beiço de que o mundo é injusto? Por isso que eu digo que ser filha da puta hoje em dia é top de linha.

Daí o cara que não tem competência, vem com birra, com aquele jeito de mal amado, se excluindo do mundo porque é o mundo que está contra o cara. Primeiro que ele nem se arrisca a conhecer o mundo a sua volta, se não saberia que o mundo se auto-exclui e que ficar de bicão por ai, é coisa de borboleta que não é saciado hormonalmente, porque nunca vi, tem cada um que vive com a libido queimando, onde já se viu.

E foi com uma dessas que Júpiter foi enxotado. Por causa de um moralismo barato que mandaram ele digerir a calabresa pelo sigmóide, injusto, também. Ele ficou ali, atônito com as pernas abertas enquanto o provolone secava em suas entranhas. Ele simplesmente caminhou até o tapete com as pernas abertas enquanto rex abanava o rabo e comia a borda recheada de pubiano.—Beleza, maravilha mesmo. Ai vem essa rolhona ai e o que você faz? Reparte o pão achando que é Santa Ceia também, você só errou porque usou a boca errada, também.

Ele chegou perto de Adelfa andando como uma cavalgada e disse:-Quer dizer então que eu não posso comer minha pizza por baixo porque eu nasci errado, então? Então eu vou e enfio tudo na prostata e ainda estou errado? É assim também? Já que eu estou errado, então eu vou mesmo é curtir minha natureza fazendo o inferno aqui mesmo, é assim.

Ele pegou Adelfa pela gordura da coxa e arrastou escadaria acima, colocou a cabeça dela na privada e deu descarga—Não acredito, é uma cadela mesmo, depois de tudo isso fica ai, com água na boca, é um absurdo, é isso que é. Ficar dando sopa de merda, é o cumulo afinal, que nem funk. Ensopado de cocô.—E colocou o tampão encima da cabeça dela, como uma coroa de bosta. Ele voltou antes de sair pela porta. —É um absurdo também, a gente tenta assistir a novela e o que dá? As pessoas são egoístas demais achando que podem dar descarga a vontade com o cabelo na Copasa. Achando que a água é de graça, pior, achando que nascer é de graça, ainda mais feia assim, tão feia que dói e dor nessa vida é excitante. É também.

Voltou pra sala e pegou a panela.—Agora vamos fazer o caldo existencial.—Ele foi colocando o que achava pela frente. Abriu o zíper de Frank e colocou na água fervendo—Chá de Picão, chá de picão.—Disse ele e a reação foi iminente, com um urro ele tirou o pipi dali e repousou na poltrona, ele ia inchando até ter pelo menos o tamanho da casinha de cachorro.

-Acha mesmo que violência é o certo para resolver sua vendetta?—Jupiter que estava entrando no clímax retrucou—Acha que essa sua cara de idiota resolve alguma coisa, só pra frustração, é isso que é. Existem coisas que o dinheiro não compra, seu pesar é uma delas.—E pegou o telefone e discou para o monastério do lado da rua. Uma voz feminina atendeu:-Sexo a três, quem fala?

Júpiter não sabia dessa. Conhecia os capítulos dos ermitões, mas que eles adotavam os pecados também, era nova. Porque tudo é uma questão de paz de espírito, como eles dizem. Depois de meia hora, Júpiter já havia provido seu caldo, jogou uma pitada de calcinha de K. e a coisa explodiu (A química explica que substâncias criadas no gênesis são poderosos reagentes energéticos.)

A porta foi explodida no ato. Voando rua a fora, fato que um skatista que passava a usou de prancha e fez uma manobra no ar, coisa incrível.—ah é assim? Que bosta de coisa bacana.—Disse Júpiter olhando o pivete deslizar a rua encima da porta e dando as remadas com os pés.—Queria ver ele fazer isso com a minha mãe.—E fez também, a casa de Júpiter era a da esquina, ele tocou a campainha e usou a perna da dona Clotilde de rodinha, pegou velocidade e a jogou no chão pra aproveitar a inércia da corrida.


As anãs eróticas chegaram com seus chicotes.—Isso são as putas?—Perguntou Júpiter e logo presumiu que os sacerdotes no claustro de suas penitências, tinham muito tempo para pensar nas suas fantasias sexuais, que sempre evoluíam, aquele era o futuro do sex appeal. E não vieram como de costume, vieram plantando bananeira, o que fez com que todos os homens, inclusive Frank que estava despirocado, gozar cinco vezes instantâneamente sobre as vestes.

Júpiter ligou para os chaveiros e dentro de quinze minutos e trouxe uma porta nova—Uma porta e um sexo casual?—Disse o chaveiro com o bigode de Nieztsche com biquinho. (Júpiter pôs-se a imaginar ele comendo uma torta de creme) Ele negou com a cabeça e o homão retrucou.—Que foi, não gosta de portas? Podemos tirar pra não atrapalhar...

Bem, a coisa aconteceu rápido. Júpiter usou o pipi de Frank como espada e mosqueteou um angard no peito do chaveiro, que tinha a barriga aberta por um machucado que varava do mamilo aos pêlos pubianos, o intestino saia pelo ferimento, como grandes lingüiças que caiam deliciosamente com HCl das beiradas do estômago, ele falou assim—Eu não ligo, pode vir sem camisinha, já tenho AIDS mesmo.—A tristeza de Frank foi desoladora, até eu(o narrador) chorei ao vê-lo assim, o pior é que o pessoal só da coquetel pra quem se acidentou no trabalho, de resto o tratamento é caro demais.

Júpiter foi quem colocou a nova porta incumbido de ter a nova chave com o segredo diferente. Ele acabou subindo na janela e cagando pizza nos pedestres.—Hum, portuguesa!—Disse um que abocanhou o pedaço dele come um freesbe.—Hey, cuidado com o pedaço de macarrão ai, é de ontem, ta estragado.—E viu ele chupar o macarrão como se estivesse ao suco.

Pra terminar, Júpiter ficou olhando a cara de Frank olhar penosamente para o objeto que fora seu pipi. Arrependido, Júpiter quis fazer uma brincadeira com seu amigo, colocou um tampão de pirata, uma espada e fingiu que Frank estava na prancha, ele enfiou a espada no meio do fiofinho dele e gritou alegremente—PUUUULA PIRATAAAAAA! Arra, arra, riri ri rooro.—E caiu desmaiado, porque ele tinha epilepsia.
avatar
Jupiter

Número de Mensagens : 2
Idade : 41
País de origem : Escócia
Data de inscrição : 16/01/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Residências

Mensagem por Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Voltar ao Topo


 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum