Casa de chá da Mrs. Askey

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Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por João de Deus em Qua Jan 07, 2009 11:02 pm

Fora dos limites centrais de Ashford,
uma cabana de madeira caindo aos pedaços
serviu há tempos como casa de chá para os locais.
Com a vinda de novos comerciantes,
Mrs. Askey não foi capaz de acompanhar a concorrência e seu negócio foi definhando aos poucos.
Atualmente, ela ainda mora no mesmo lugar à espera de clientes que nunca aparecem
para pedir um pouco mais de água quente no leite frio.
Ela ainda hoje conversa com Preston, seu afilhado que morreu afogado no lago:
há quem diga que ele responde.
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Medusa em Sab Fev 07, 2009 1:42 pm

O Luar que incendeia a minha sombra, quebrando a janela onde eu viajo, grita a dor perfeita e silenciosa, ondulante e vazia, que risca o profundo céu…

Na noite enfeitiçada sopra um vento fraco, vociferante, que tenta aclamar algo, ao som de um piano que morre na distante floresta…

Ouve-se então o entoar de um poema e as águas de um rio desconhecido que ainda alimentam as ruínas de um esquecido castelo… as paredes são ásperas… de pedra pura…

Sob algumas árvores, um intenso percurso de sons inteligíveis e pequenas vozes que, percebo, de um espaço vital… onde plenamente me integro…

Há um caminho que me seduz…


Não chegou ainda o tempo de penetrarmos nesta alma de pleno tormento e incomensurável confusão, nem me atrevo a pressumir que o espírito humano seja capaz de permanecer inquebrado ao mergulhar na escuridão traiçoeira que preenche os fluxos conscientes da mente de uma bruxa. Serei eu o vosso cronista e tradutor visto meu ser o espírito já quebrado e minha a mente livre de luz e de clareza. A minha consciência encontra-se aprisonada dentro de Medusa, o inevitável destino de todos aqueles que amaram uma bruxa até ao profundo.
Encontro ainda nos fragmentos cristalizados da memória que antes foi minha os nossos passeios pelas costas montanhosas do Egeu e como o preto dos seus cabelos esvoaçava ao vento e os seus sorrisos e instigações, queria sempre estar mais próximo da falésia. O preto dos seus cabelos há muito desapareceu e a sua imaculada beleza deu lugar a um artíficio mágico que mais não pretende que esconder os seus já muitos anos de precária e malévola existência.

Não será sem algum obscuro desígnio que ela põe termo ao seu voo numa clareira de erva verde vibrante em que também se introduzia uma degradada casinha de reticentes tábuas de madeira. Deixa a sua vassoura repousar encostada à pequena cerca e transpõe a porta semi-aberta.
Enquanto Medusa atravessa o poeirento vestíbulo distingo sons da sala contígua que tentarei reproduzir na medida das minhas capacidades.

- Acreditas nisto Preston, meu Pretonzinho querido, será possível o preço oficial da beterraba para a campanha açucareira? Bem sei que não te interessa o preço oficial da beterraba para a campanha açucareira mas podias fingir que te interessavas Preston, meu Prestonzinho querido. As pessoas fingem que se interessam pelos assuntos e assim podem falar umas com as outras. Estás sempre calado meu Pretonzinho querido deixas-me muito desconfortável. Mas o que é isto?!? Temos vizitas Preston sê um amorzinho e vai buscar as chávenas. Tolice a minha as chávenas estão na mesa. Minha querida sente-se, sente-se. Quer mais açucar minha querida? Preston vai buscar o leite e as bolachas. És imprestável Prestonzinho meu querido, espere um momento querida eu trarei o leite e as bolachas.

Assim se encontra uma criatura das trevas e uma velha histérica de cabelos desgrenhados ambas sentadas a uma mesa redonda encimada por chávenas que lembravam ainda a elegância que outrora tinham possuido apesar desta ilusão ser destruída pelo liquído amarelado no seu interior. Cheirava a algo anciente, tão anciente como aquela salinha de contornos cinzentos emoldurados por várias camadas de pó. Entre caretas a velha vai sorvendo o conteúdo da sua chávena.

- Não toca no seu chá querida. Preston pára de fazer caretas para a menina. Ele é muito infantil sabe, cheira-me que gosta de si. Diga-me o seu nome querida e o que a traz a estas partes do mundo. É a nossa primeira cliente há algum tempo, não sei se reparou.

- Sou a Clara avozinha não se lembra de mim? Vim visitá-la de tão longe querida avó. Certamente tem um quarto preparado para mim

- Cla..ra? AH, Clara meu amorzinho! Pensava que se tinham todos esquecido de mim e aqui me aparece este anjo. Vou já preparar o teu quarto querida netinha, toma cuidado com o Preston ele é bom rapaz mas às vezes gosta de espreitar as meninas.

As mentes frágeis são alvo fácil para a sua natureza subversiva. Os motivos para as suas acções são-me ainda ocultos mas não gosto do ar desta terra. É pesado. Cheio de morte.

**--------------------------------------------------------------------**


Desque Medusa se tinha mudado para a casa de chá de Mrs. Askey tinham-se verificado notáveis mudanças na mesma.
Uma inverosímil quantidade de reptéis rastejantes tinha infestado o casebre em particular cobras de espécies variadas. São Patrício nada pode contra as forças da natureza principalmente se estas forças se encontrarem dobradas por uma intencionalidade obscura.
A vassoura de Medusa apoderara-se da vontade de Mrs. Askey que dançava às suas ordens despejadas directamente no seu cortex cerebral através de uma prolongação da dita vassoura que lhe perfurava a parte traseira do crânio, tal ocorrência resultara no mais apresentável aspecto das diversas divisões, o pó de anos não resistia aos avanços do instrumento encantado e da sua autómata portadora.
Medusa ocupara o sotão que se encontrava agora repleto de frascos cheios de animais das redondezas e de tubos de ensaio fumegantes. Das suas experiências resultara um híbrido entre uma cascavel e um pavão real. O agudos gemidos do bicho eram algo de extremamente perturbante. Com um rosto pouco satisfeito Medusa fez a faca cair sobre a pobre desfigurada criatura.
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Ahriman em Sab Fev 07, 2009 9:05 pm

"Mas antes que me solapeis com tais viciosas lâminas do ocaso moribundo ó escuteis este que vos fala altissonante pois esta voz serei capaz de torturá-la como um raio cujos dos orifícios mais obscuros o estentor de vossos acessos histéricos não poderão soar mais fracos que os dos bramidos das lhamas selvagens pois aqui pode escutá-la de vez que se escutarem não o limbo de vossas orelhas corroerá até o chão vazio e será consumido por um babirusa pseudo-domesticado da África Subsaariana.

Não me ouvis? Guardeis pois esse facão que nada poderá contra os tufões que serão ejetados desde as minhas profundezas mais nauseabundas que sendo assim quando estiver à procura do excrepúsculo encontraras os patagões da Patatônia deitados de sapatos de mocassim vivo! Pois de quando foi feito que as gruras das mentiras ecoadas ao léu o universo se abateu pelos balidos do rebanho predador que assim de vez que, digamos, os comeu todos os seus predadores restará apenas os baratas bandidas, as baratas ladrônicas, que não de se contentando em atacar aos mortos atacam até os inanimados, assim que se Virgílio soubesse que dos lábios de sua amada floresceria de uma manada de abelhas assassinas e pululassem puses e punzes assim teria dito a Virgínia "sua cadela, suma da minha frente pois que então de vez que, digamos, sois assim tão terrena não bastará apenas abatê-la mas também arrojada pugnarás à parusia das baiúcas contaminadas do seu fígado cirrótico!

Rudini Jr. nunca mais foi visto atrás das montanhas de que onde desceu para entoar os ditirambos apróstatas a bradar "excrementar, meu caro Watson". Eis todas as razões com as quais porque se faz assim que você deverá abaixar esse facão até os abismos do inferno porquanto porém é todavia que isto foste apesar de não ser subirá o diabo da próxima esquina e aqui virá pedindo o apocalipse do gênesis de uma cenoura de verão, o fim de toda a sua virgindade!

Portanto, de vez que assim, digamos, e por conseqüente que se faça nesse interregno o assombro e etincelante epanoícemento para que sejam gufradas as suas entranhas em exílio de cuja assepsia acintosamente não se farão ouvir ou deflagrar o descaso da sociedade olímpica das índias merequetréficas do Zimbábue da volúpia. De vez que neste momento parto com este esqueleticar cadavericamente ossaico mesozóico púmbeo-plúmbeo desfeito em lágrimas e micoses floridas."

Ele see retira perturbado e vigarista com um esgar de mordacidade no bico e um tique nervoso no esfínter ariano como um orégano excomungado. Seus olhos atravessam-se-lhe o umbigo e por isso suicidosamente ficam-le presos nas vísceras como ganchos a fisgar os bifes molenguentos no açougue da esquina.

Ele caminha como um viandante entupigaitado e tresbêbado tendo a hóstea homissina extravagado por dentro e a estrepulia dos alimentos no engalfinho com os glúteos saltitantes, trêmulos, salpicados de sazonais ataques pascalianos e outros fluidos inconfessáveis.

Assim, violentado, genuflexado, despavoneia-se todas as cores plumosas enfiadas em seu pulsante hemisfério meridional assentavam com vigor e cada vez mais violentos em suas estocadas internas desde os lábios-até-pregas.

De modos que de assim que se tornou-se um peru da índia. Vendo o arco-íris nascer no lugar do sol compreendeu que era então finalmente livre um tatu do mato que descia por, digamos, uma cordinha desde o teto da caverna plataocênica e declarou dinasticamente "eu sou um equilibrista e vim aqui buscar a sua alma para que de seja vendida aos palhaços do circo."

- Conquanto fizesse isso os mágicos podem interferir aqueles seres despóticos, babilônicos, nefandos, bricosos, cereados de fim de semana, inconscientes de si mesmos e bananas nanicas. Pois tomem isso seus potassássios que eu não vou revelarei o que devereis ver ou desver no dia depois depois de amanhã. Hahahahahahahahah! - a malignitude se precipitando em monossílabos gargantescos. - Eu sou o Mal!

chóft.
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Medusa em Dom Fev 08, 2009 12:41 pm

Consternação é algo que o fisionomista experiente dificilmente identificaria no rosto de Medusa, diria, se assim me fosse solicitado, que se traduz num leve mas ansioso tremor do lábio inferior que não se vê nem se sente mas sub-vê-se e sub-sente-se, já que nunca se elementariza na percepção, permanece como parte de um todo, indistinguível.

Que trezentas mil agulhas trespassem o esfíncter causal do portador do estandarte, que vinte mil sejam asseverações à natureza ímpia e deslavada com que nos oferta as suas inócuas liturgias com que se celebra o triunfo dos bem-aventurados e as circunstâncias de bem-aventurança, nada porém se diga à sua glória espectral, nada que não possa ser expresso em mosaicos de casa de banho ou predito nas entranhas judaicas de uma só menina.

Então, o SENHOR Deus disse à serpente,
"Por teres feito isto, serás maldita entre todos os animais domésticos e entre os animais selvagens. Rastejarás sobre o teu ventre, alimentar-te-ás de terra todos os dias da tua vida."

Cai sobre mim a doce lacrimosa venda...na sombra vazia que me esconde da escuridão...
Movem-se na noite formas mesméricas, de lascívia apenas pressentida, cujos gemidos mortificam o vento metamorfoseando os contornos das árvores em chamas negras, de luto pela inocência primaveril.
Bebo da lua a coragem da vontade, cobre-me a noite de anônimo manto. Estou pronta.
Estou onde devia estar. Vivo como me foi levado a acreditar. Sendo aquilo que eu devia ser. Fazendo aquilo que devia fazer.
Ouviste o que eu disse? Percebeste o que eu quis dizer? É tudo ilusão, vivemos em confusão.


Não nego a existência de um significado que faça a travessia entre as palavras de uma bruxa, um pérfido significado, cósmico, só concebível pelos já marcados no calcanhar pela serpente.
Porém não se ambicionem geometrias cartesianas ao descrever os processos que o compõem, nem se pretendam rectas, nem tangentes sequer.
Acrescentem-se os elementos descritivos do nosso arranjo. Medusa repousa agora no alpendre, sentada a uma mesinha redonda ai colocada a muito esforço pela mesma Mrs. Askey que agora a serve de chá recente, disso se asegurou a vassoura. O olhar vazio de Mrs. Askey complementa-se no sorriso snistro de Medusa. Esta última olha a lua e eu recordo-me de quando olhá-mos os dois a lua e sob o céu estrelado lhe confiei sem contingências o meu coração. Perdição antiga. Mas não me afastai pois do propósito incial. Ela olha a lua como quem antevê à luz do deleite um terrível colapso, um colapso de tudo o que foi uma vez firme, certo, irrevogável, de todo o regulamento e convenção.

Eis que o chá acaba e Medusa volta ao salão onde encontra o seu tapete rectangular, famoso nas arábias por qualidades aéreas que rivalizam os dragões iraquianos, não ganhando em elegância à sua vassoura sendo esta a preferência estética das bruxas. O tapete tinha diversos padrões compostos de quadrados esquartejados por linhas de um amarelo morto que bramava a sua linearidade face ao rouxo predominante. Eram tecidos por velhas cegas com as peles esticadas de fetos de raça não-branca, tingidos sobre pianos de cauda. Tudo isto é verdade.
Verdade e facto será também a bola cristalina que se encontra no tapete. Medusa senta-se numa perfeita posição Yogui e lança sobre a onírica esfera os braços esticados.
Inferi que esferas deste género são meios para a expansão exponencial da consciência. E assim é, Medusa projecta-se para o plano astral e direciona os seus propósitos para a mansão de Ashford. É tremendo, profundo e assustador o plano astral. É infindável ao ponto de o abismo estar de mãos dadas à dialéctica, no entanto é credivel que não seja necessário o plano astral para o abismo se passear junto à dialéctica. No plano astral tudo isto é mais sensível.

Julgam ser aptos para totalizar mentalmente uma colisão astral entre consciências? Uma analogia seria talvez útil na tentativa de ilustrar tal ocorrência.

Imagine-se uma serpente a morder o calcanhar a uma gigante metálico. A serpente ri-se.


Última edição por Medusa em Dom Fev 08, 2009 3:35 pm, editado 2 vez(es)
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Ahriman em Dom Fev 08, 2009 3:29 pm

Um doppelganger. Portanto, a dificuldade para se fazer entendido, já que projeção de determinadas matrizes cuja preocupação nem sempre era se fazerem entender.

"Você parece não ter introjetado a minha condescendência, ó lígure garruloso, que nem todo mistério é digno de Orfeu, pois a má apologia dos enigmas soterra o significado por cima das palavras! Vide que a minha vingança por mentires a minha presença não será extravagar-lhe as tripas além da derme de cimento da sua razão irredimida, mas será lhe caluniar cada desejo, onde passo por passo terá eco nas minhas sombras, e cada martelo a que negares o mármore tão-somente logrará enxotar a brisa dos meus flatos mais amenos.

Você pode fingir uma capa de carne à minha nudez e cobrir os buracos dos seus tapetes de pele fetal com tapa-olhos piratas das ilhas canônicas, mas logo terás de testemunhar que o nascimento da tragédia jamais rebentou dos depoimentos vazios de uma masturbação filantrópica, pois que se prefere sonegar alma à existência afetando uma ignorância ultrajada, eu é que não me farei arrogado, e assim permanecerei infectando a anemia dos seus ideais até que se converta numa vilania efetivamente mortal!"

Ela procurou seu chá e assim afundou o nariz em água de aquário saborizada não dando atenção para a fileira de formigas que desciam pela xícara fazendo um furo na base, por onde escorria lentamente o conteúdo. Não obstante, obstinadamente emborcava o vazio, mas os contornos das árvores, a lua, o manto anônimo e inclusive a venda viam o corrimento leitoso no seio e o ressecamento nos lábios cor de telefone. A farsa prosseguia sob a forma de um colóquio despido com Mrs. Askey mas do outro lado da linha era a transformação de tal putrefato cadáver que tinha diante de si, metamorfose de sua própria imagem que lhe provava, na sua insistência em costurar as pálpebras nas bochechas, o quanto repugnava a si mesma.

"E eu pensando em canonizar meus sentidos para lhe emprestarem as minhas vivências, mas não mais se poupas sua dentição batráquia mastigando as palavras com pulgões. Pois que nenhum argonauta jamais obteve sucesso em substituir-lhe o siso por canelone vez que tal prazer não é dado conhecer às vaginas castradoras! Você se trai ao pretender orvalhar as Fossas Marianas, pois tudo o que irás encontrar neste mergulho será a sua própria retina, da qual se nega como provo agora!"

Não que o rosto dele se tenha convertido só naquele momento em espelho, mas a consciência do fato surgiu apenas então.

"Pois então desvende esse enigma, será a última chance que te darei, e se continuares a criminalizar a ficção, verás que igualmente perdida estará a realidade na qual se dessedentar da peçonha de suas subversões ilusórias! Pois não se engane. Quão mais doce é o jardim, menos secreta a sua inaptidão para a vida selvagem."

Para ilustrar o que queria dizer, pôs-se a dançar com seus braços compridos que agora se haviam encurtado para as dimensões correspondentes da matriz, e a sacudir os cabelos que, se picando uns aos outros, lhe provocaram a calvície prematura, quedando mortos por sobre o couro cobraludo.

Também foi se aboletar, imitando avestruz no próprio umbigo, ioguisticamente, e ficou colidindo as projeções que quanto mais se astralizavam, mais ele agia como se os cílios estivessem caindo em cataratas, pois somente uma analogia seria talvez útil na tentativa de ilustrar tal ocorrência.
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Medusa em Seg Fev 09, 2009 10:56 am

Quão frutíferas se assemelham as masturbações vulcânicas deste meu meu espectro causal.
Não me digno a consternar-me perante as sombras plasmolisadas ou perante os espelhos de volúpia induzida pela falta de comércio carnal, já as tuas ejaculações precoces e jactos esmégmicos de pouco representativas quantidades tendo por medida a tua impura existência, esses sim fazem a minha meninice ruborizar. E de faces coradas me prosto, expectante de ser tocada e bendita pelos teus infindáveis miasmas.


Ignorará este empertigado demónio a natureza das serpentes? Tem coragem de sobra mas falta-lhe resignação. Perecerá.

Vejo-te céptico meu amor, ( ou serei eu que assim me encontro? Espelho meu, espelho meu…) observando os incessantes avanços do teu falo solene sobre a minha pueril ingenuidade temo que não me acredites e menosprezes a pureza das minhas palavras, pára então os avanços fugazes desse velho falo mental porque eu te aseguro que não podes foder palavras.

Indajo se terás já interrompido as tuas trevas fugidias num fugidio momento em que nem o falo te abanasse e indago se nesse momento te foi concedida oportunidade de atentares na ordem natural das coisas assim como na irrepetibilidade dos arranjos. Estas questões a que me proponho não querem senão causar em ti espanto, sou honesta, mas sei que pretensões profundas te fazem lembrar retinas e coisas que tais, por isso mesmo me humilho para que possas gorgolejar na mesma imundice que nos liga por via das sombras.

Faz para ti a mascarilha de vivo, não de morto para que o estuque possa fingir o gesto da vida na matéria morta e não o ricto da morte na matéria que nunca esteve viva.
O absurdo não leva à crueldade mas conduz à misericórdia, aquela gente das imaginações porcas e amorosas julga que é ao contrário mas aquele gente egoísta e tímida engana-se.
Invejo-te porque podes mandar-me para a forca sem que ninguém te exija responsabilidades, aproveita a tua situação de privilégio e alegra-te, mata-me para agradar a populaça que reclama as pequeninas emoções que não deves negar-lhes.


Que perfeitas execução!
Pergunto-me porque fala Medusa com esta imitação lamacenta ou trivial perturbação psicológica. É certo que tem o seu interesse como caso patológico mas de resto bastaria varrê-la para baixo do tapete.
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Ahriman em Seg Fev 09, 2009 7:23 pm

Já não prestava mais atenção nas abelhas que atacavam o vidro sujo, e ficou dançando e gaseificando o ar com seus risos meridionais, até descobrir algo mais arbitrário para fazer. Viu que um preá com uma peruca de iscas para peixe-boi ficava brincando de montar legos, que nomeava conforme a onda de inspiração, etopeu, insulina, mingau, pedarquia, reco-reco, e assim por diante nesse padrão, cada onda de inspiração durando trinta e seis nanosegundos. Os blocos estavam ajuntados sem muita pretensão mórfica, peças grudadas, com elas decorava todos os cômodos da casa, levando as visitas para um tour às obras de arte, que explicava por meio de assoar o nariz e descascar rebocos da parede.

Alguns rebocos ela tentava inserir nos olhos dele, e quando obtinha sucesso percebia seus próprios olhos ardendo, lacrimejantes, poluídos e agredidos pelas lâminas da tintura decadente. Como isso tinha sons de xilofone, ele se permitiu catar as peças de lego e montar uma pirâmide asteca, que ficou parecendo um packard modernizado, mas que importava? para isso existem as legendas: anotou cuidadosamente ao pé do monumento "Piolho de cobra" - e ainda se passou por um fecundo estuprador da semiótica! Pelo menos aos olhos dele mesmo, e era isso que importava.

As abelhas, espertas, coordenaram um ataque ao interior de seus ouvidos, mas ele ficou rindo como um jurutu todo o tempo que choveu, por isso a cera engrossou; ficou esponjosa e anecóica. De modos que tanto as abelhas se viram presas, quanto suas bocas criaram uma gosma que lhes permitia produzir somente chicles de bola toda vez que queriam zumbir.

Então vieram os zangões, começaram a cavoucar os tímpanos para ter acesso ao cérebro que pretendiam intumescer no picadão, tudo para descobrir que ali dentro só havia um jarro para aprisionar criaturas apiformes, mantidas como escravas para produção de lubrificante íntimo.

- Mas nós produzimos mel!

- Nessa sociedade é assim, vocês se preparam para produzir mel, mas terão que vender ervilha no terreiro!

Ervilhas do tamanho de caroços do Vesúvio, as abelhas não davam conta nem de voar com as duas asas, que dirá que dirá. Era uma cruz muito pesada para carregarem, então precisavam tirar uma asa, por isso andavam com mochilinhas nas costas, onde guardavam o estepe.

- Então agora um dos meus bigos virou estepe? - reclamava ele. - Virou estepe agora? Então agora é assim? E onde é que eu guardo ele agora?

- Você quer mesmo que eu responda isso?

- Não é isso que faz a minha meninice ruborizar, mas essa prótese de provolone que, por não caber no porta-jóias, você tem que enfiar no forno, girando que nem rosca para fazer a ré. Pois guarde esse provolone para quando for comer no inferno!

O provolone teve um ataque de fúria e começou a crescer, a garganta, inchada de lubrificantes e os correlatos, gorgolejando diatribes galimáticas. Quando explodiu, a casa inteira ficou lambuzada naquilo que, em toda a sua inocência, ele batizou, simplesmente, de saliva.

Cronometrou quinze minutos para ficar rindo, e começou. A meta era ir aumentando o volume e a altura até trincar as bengalas dos cegos. As abelhas pediram arrego.

- Está bem, está bem, mande novo enigma e nos prometa a chave do cofre se o desvendarmos.

Mas elas estavam dentro do cofre e não podiam ser ouvidas. O riso, porém, as atingia e cozinhava-as de dentro para fora. Ping! Estavam no ponto, a portinhola se abriu e ele começou a preparar os sanduíches. O cheiro simulava o de carne queimada, mas na verdade as abelhas eram de borracha. Como só ele sabia disso, todos os outros sentiam o cheiro de churrasco original.

- Hum, o que vai ser hoje? Minha vesícula já está até se masturbando.

- O de sempre. Pedaços fritos de cadáver. Picles?

- Pepino me dá indigestão.

- Experimente com isso.

Ficou pulando num pé só enquanto batia na orelha oposta, para que do ouvido pulante escorresse o material fabricado pela colônia escrava, presa entre os infinitos lados de seu interior craniano.

- Alimente-se bem, porque temos um longo caminho pela frente, feito de vários retornos, todos eles eternos.
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Medusa em Sab Fev 14, 2009 3:52 pm

Pactuam agora os dois entes passíveis de ser repudiados por qualquer ética alguma vez estabelecida segundo instituições humanas. Fornece a bruxa suficiente conforto ao demónio e este pode apenas fazer exactamente o mesmo.
Os eternos retornos são insignificantes reflexos de coisas já em si vazias, é isto que me dá alento ao estádio actual da minha existência. Já soube, não sei, já quero, não quis. Menos sobre mim, menos sobre mim. Comprometi-me a ser o vosso fio de Ariadne e só essa poderia ser a minha utilidade. Nada posso contra este Minotauro, este não se entrega ao sono nem disso tem necessidade, fruto da sua insaciável natureza, devorador de consciências. Tentei já derrotá-lo é certo e daí provem a verificabilidade da minha experiência. Pois é facto que o seu pescoço cedeu ao receber o beijo rasante da Kopis. Não fosse a serpente que do seu decepado tronco se ergueu e me apertou no mais carinhoso abraço, teria libertado o fragmento de mim que se encontra nela. No labirinto que é ela. Na serpente que é ela. Que por fim me voltou a engolir , duma vez só, e não esperando sequer pela digestão apropriada dos já apodrecidos restos ( fossem ao menos mortais) expeliu-me pelo ânus com tamanha elegância que Febo de cabelos doirados se escondeu em estupidificante indignação.

Perdi-me mais uma vez? É difícil meus caros, é difícil.

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Mr. Sandman, bring me a dream
Make him the cutest that I've ever seen
Give him two lips like roses and clover
Then tell him that his lonesome nights are over.
Sandman, I'm so alone
Don't have nobody to call my own
Please turn on your magic beam
Mr. Sandman, bring me a dream.


Os fragmentos do meu eu desafiam o atomismo e fragmentam-se com ainda maior vigor. Se for alguma coisa neste momento, sou a agonizante, tangível e estrupiadora realidade dos gritos que são nada mais que dor, tudo mais desespero, sempre um tanto pior do que aquilo que promete o abismo.
Porquê terei eu que ouvi-la cantar outra vez? Que milenar ofensa ao destino terei eu elaborado sem sequer a reconhecer?

Mas quão doce é a sua voz.

NÃO! TU NÃO! NUNCA MAIS!

Volto, resigno-me.

O demónio semi-forma semi-outro transforma o seu corpo (ou a sua sombra ou o que quer que permita comunicar a sua manifestação por aleatórias palavras) em saxofone tenor e Mrs. Astley pouco acanhada cumpre o acompanhamento em perfeição.
Estonteante harmonia.

Regressa.

Mr. Sandman bring us a dream
Give him a pair of eyes with a “come-hither” gleam
Give him a lonely heart like Pagliacci
And lots of wavy hair like Liberace
Mr Sandman, someone to hold
Would be so peachy before we're too old
So please turn on your magic beam
Mr Sandman, bring us, please, please, please
Mr Sandman, bring us a dream.



Que mais posso fazer? Acedo então a questionar os sentidos.

Será uma infeliz prece a um Deus misterioso? Porque não uma subversiva invocação a alguma entidade cacofílica. Um descarado apelo à crueldade do destino, uma pretensa perversão do destino! Sim, talvez seja isso.

É destemida a possibilidade que se apropria dos odores gentis da natureza que suponho minha. É tal a taça que transborda de vida, é tal a vida que se extingue nas bordas. Todo o líquido derramado é sangue de crianças virgens, grávidas de amor pela vida, de fulgor e apoteótico chamamento pelo levantar do véu da revelação absolvente. Desejam a morte mas não o sabem, são taças que transbordam de vida.
Na mais inócua doçura iniciativa dançaremos nos jardins de inverno dos lupanários, observaremos o pulsar dos movimentos do mundo e em perfeito acordo as nossas carnes apodrecerão deixando mui adocicados cheiros a frutas tropicais espalhar-se pelas incontáveis atmosferas suspensas.


Pressumes muito minha rainha mas maior é ainda o amor que trespassa a pobre mente.

Sinto-me fraco. Temo falhar-vos no futuro com maior gravidade do que agora. Imperativo é não largarem o fio, nunca largarem o fio.
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Ahriman em Qua Fev 18, 2009 10:46 am

Acompanhado da mesma face, um distinto caos se formava dentro do coração dos condizentes espíritos do orvalho. Escrevendo tal qual como uma sociedade ignóbil dentro de seus antros, retumbava uma diferença incólume de um reflexo vindouro de sua alma. Que quando de mesmo, o breu não se reflete, faria ele então diferença? De um deselegante não saber por se aplumar numa certeza intrínseca de não se achar sobre as premissas incontáveis do cerne?

Apelativo vos grado, ó romance, que me dê tuas palavras já prontas para me vestir de lua, ó, indomável coração dos açoitados... Que de tal fio se tenha costurado teus passos no caminho que nos intercede, e que forçamo-nos em um mundo de nós, em utilidade. Que me leve a repousar num labirinto, mas que resplandeça de tal brio, um que não seja a consciência... Pois por ora se atingir a ti, a mim mesmo me acabo, que me sangro eternamente sem teu labor.

E que um pombo deu um looping no ar e se desfez em um alabastro de lírios... Mais que me vale de tal serpente, esta que saiu do tronco ceifado e sobrepujou por baixo das minhas vestes com um canto de sereia... Daquele canto de tão mítico, que me trouxe a ti, querido Minotauro. Pois por longa jornada, um Gru me mastigou até virar sarrafo e me cuspiu pela bunda e de tão envergonhado ficou, que se escondeu nos meus podríficos olhos, sendo os meus, o da bruxa.

Que numa rajada nuclear que me findasse meu braço e se completasse assim, mediante a sua alma. Que sua serpente assim mordiscasse meus instintos e do veneno que me fez uma víbora dançante que lhe rouba toda a desatenção. Que o abismo de ti, me olha com tais versos infindáveis de uma lírica adjacente de uma alma em dois caminhos, que deságua em tua voz.

Que em ti depois de vagos tormentos, ter me encontrado uno em tocar-te a mim, no espelho. Que se de ti projeta todos seus sentimentos, tem em mim a mesma valise que impera um canto irresistível. Por a ti completar. Astley servia seu chá pomposo de desgraças em meio ao mal poente que investia sobre eles.

Que se transformasse horas em um lúgubre e disforme confusão de sentidos, agora uma agonizante ironia que pairasse sobre ele por detalhar, logo, sua natureza por fim desvendada. Numa vertiginosa união homogênea de átomos que se unem no topo do universo.

E num canto de um palhaço bardo, termina o senhor sono nos levando a utopia, um Sandman que nos visita assim sem tem menor delicadeza em roubar a minha sanidade, me entregar aos braços dum falso amor, que ladeira me colocou, destino, tão cruel é o coração das bruxas...

Seria então uma razão infundada por distar assim seu mar de trevas? Um clamor uníssono de um desespero mútuo? De no fundo se tornar real aquilo que levantassem suspeitas? Um amor assim, farsante que no fundo tivesse reais intuitos...

Tão concreta como a sombra que paira sobre seus corpos mórbidos. Como qual que meu destino valesse tão somente de desatinos, então quão seria meus torpores por deitar sobre os meus valores? Que alagasse assim todos meus planos com a mesma cólera que esta deusa me infligisse suas infortuitas diretrizes. Que da tenaz forma de minhas veias, corresse um transbordante rio límpido que a ele refletisse aquilo que lhe mais tivesse de valor, num merecer disforme com suas tais distorções dadas pela profundidade das ondas.

Do amor que a ti me tens e do intuito que a mim verseja, que tenha o mesmo para ti, que se tem como farsa, vai cair assim como tal em derrocada, não teste o destino as suas máscaras, mas que tenha real valor por a ti mesma. Que se transbordar a sinceridade, não seria mais a ti que suponho, então creio eu te dar, meu falso amor. Sendo pois então, verdadeiro. E o que sou, querida dos olhos de pedra? O que seria então como a ti, real em minhas palavras?

A atração de tais planetas se muniam, como as duas pontas de um mesmo fio.
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Medusa em Sex Fev 20, 2009 12:33 pm

Por vias menos sinuosas se revolve a vida esférica de contornos rugosos e protuberâncias cronicamente paralelas. Crónico estado de mal fado e pouco de pombos que circulando a própria existência geram lírios mortais. Do verdadeiro e do falso que se fale, que se diga aparência aqui, realidade ali, virgindade acolá. Pois de que vale a verdade mais que a mentira?

Dentro e fora, fora e dentro, que maravilhosa dança de cadáveres sãos e bons de saúde, que seja pois eu a coroar com gerânios a tua mui digna fronte. Não me quererás mal por menosprezar o verso livre e até suponho que a censura alheia da prosa formal será aceite e incitadora de regozijo e quentes emoções ao nível do ventre.
Descortinarás os propósitos, se os houver, no tempo devido e apropriado. É falso que tudo esteja previamente determinado mas certamente o saberás.

O meu único amor foi transportado numa banheira de cristal após a sua morte. Banheira de cristal cheia até à marca adequada de urina de todas as mulheres com quem ele fez amor. Deve manter-se a urina na marca adequada, este é o axioma a ser recordado pelas vindouras gerações de lírios e gerânios. Catorze anões transportaram o caixão. Minto. Treze anões transportaram o caixão, um levava a filha do falecido pela mão. Minto. Dez anões transportaram o caixão, três carregavam as maçãs, as maçãs vermelhas. Minto. Sete anões transportaram o caixão, três coçavam vigorosamente os testículos.
Testículos de anão temperados com salva e rosmaninho.
Queiram as crianças de todo o mundo chorar como chora a filha do falecido. A triste filha do falecido. Labirintos serpenteantes não chegariam para decifrar uma fracção do tumulto que ocupa e seduz a alma da pobre filha do falecido.


Desapropriação conceptual existe para ser praticada. A prática deve respeitar e conciliar-se com o ritual vigente, o regulamente e a convenção serão obedecidos a todo o cuspo. Repito. A todo o cuspo. Os espancamentos continuarão até a ordem ser restabelecida. Na eventualidade de a ordem não ser restabelecida seguiremos o litúrgico e celestial sacrifício prescrito por todos os curandeiros japoneses consistindo na morte por apedrejamento de cinco mil fetos de raça não-branca.

Não mentes mas devias. Não vale menos a mentira que a verdade é facto comprovado pela falta de justificação de um juízo contrário a este. Tudo carece de justificação, tudo falta a tudo é por isso que somos livres a todos os juízos a todas as doutrinas. Prostra-te no tempo da cobra, no tempo da serpente, no templo dos gritos vivos e rasgados, sibilantes e mortais. Beija os pés à doce vida que se recusa a todos e deixando-nos assim nos braços da morte à nascença nos permite sorrir e dar valor ao Sol, à Lua, aos amores e guerrilhas e ódios verdejantes e paixões mortificantes e Fumos distintos carmins, estropiadores rebeldes da revolta portuguesa face a Castela. Não vale nada não valer.

À luz do método afirmas tu e eu, afirmas mais ainda, afirmas eu e tu e outro, afirmas causalidades impossíveis, inverosímeis, irresponsáveis.


"Toma-te como estuque apodrecido e ante tal crença desce aos abismos da gorgona, casa-te com Perseu e produz quatro filhos, todos hermafroditas."

Percebes agora o tamanho erro que te subjuga?

Diz-me mais ou cala tudo.


O que é um homem quando tudo o que lhe resta é a vontade de morrer?
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Ahriman em Dom Fev 22, 2009 2:51 am

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Ahriman dormia enquanto outro se passava por ele, pois "o que fizeres aos outros será feito a tu também".

Despertou na parte em que a bruxa confidenciava a renúncia a um amor infiel, embora num formato mais distinto — a banheira com urina; os anões pseudo-necrófilos, masturbando-se no funeral só para bancar os perversos, sendo que na verdade eram virgens e até davam o dízimo, mas não queriam ser confundidos com rebanho e por isso faziam montagens em filmes pornôs usando imagens de si mesmos — tentativas de conferir alguma elegância à decadência da traição, para com tal generosidade dar a impressão de que alcançara o zênite sobre todo esse vale rasteiro de lírios, gerânios, salva, rosmaninho e o resto da farinha do mesmo saco de anão.

Mas ele sentia a dor. E tanto mais a sentiu quando a bruxa iniciou a repreensão contra a sua autenticidade, que por ser verdadeiro era, como conseqüência, monstruoso. A perfeição nos afasta de Deus. Ele reconheceu que o conceito batia com o sermão da montanha "Os sãos não precisam de médico".

Então Ahriman adoeceu gravemente, pois pelo jeito os sãos não têm as companhias mais sãs. Caiu enfermo dessa doença chamada humanidade, e humano, demasiado humano, ele confessou:

- Me passe aquela touca.

Estava de cama, vestido num camisolão puído, labutando ao telefone por uma prescrição médica que o autorizasse a tomar coca-cola. Após isso, aceitou o chá de coca de Mrs. Askey e se pôs a delirar novas confissões.

- Sim, fui eu que não estava ali naquele dia! Mas até os grampos de papel precisam dormir alguma hora. Quem és tu para negá-lo? - começou a fazer um sotaque argeliano, sem motivos satisfatórios para tanto. - Pois a realidade conhecida não é toda a realidade, e existe outra além do espelho, em que o sermão da Montanha é pregado no Pântano e os testículos coçam os anões! Achas tu que estiveste lá? Terias pois tamanha pretensão? Se estiveste lá, então é porque jamais estiveste, vez que é assim que as coisas funcionam lá e quando se está lá é aqui que se está, de modo que estando aqui nunca estarás lá, e tudo se resolve da forma mais óbvia.

Tossiu moribundamente e, passado um minuto e vinte e dois segundos (na verdade foram dois minutos em ponto) curvou-se e começou a chorar. Também confidenciou um amor perdido.

- Eu me afastei imitando um colibri, serelepe e faceiro como um esquilo, mas na verdade só o fiz porque ia dar meia-noite, quando então meu pinto se transformaria em abóbora. O colibri que me enganara com suas doze badaladas noturnas não passava de uma lagartixa em peruca, e, sem a peruca, nem lagartixa eu pareceria e sim um pirex guei, daqueles em que se corta pepino na madrugada. Quando eu ficava inteligente, a peruca se reverdecia como um toco de árvore apodrecido após o dilúvio, e logo todos estavam tomando o efeito pela causa graças a um condicionamento pavlovico. Agora você me desmascara. Nem colibri, nem lagartixa, nem abóbora, um simples pó universal que só toma forma naquilo em que pode se grudar feito uma sanguessuga banguela. Vá. Me deixe a apenas a solidão de companhia. Seu guisado merece salames e presuntos edênicos, não os espinhos de um porco que descama ao menor bafejo de repolhos cozidos. Só me restam a vontade de morrer e meus filhos hermafroditas.

(Ainda naquela tarde, ele havia assinado o papel de adoção das quatro abelhas órfãs, que o iludiram quanto à realidade sexual delas.)

- E eu achando que conheço o mundo, daí a minha presunção canibal. As flores que colhi não passavam de pêras em decomposição, e minha sorte foi estar cercado de pessoas dispostas a se convencerem por retórica jurídica, de modo que tomavam os tumores do tempo por botões florais, e as persuadi de que o cheiro de carniça era mera questão de interpretação. Por fim, contratei bandidos para prender a polícia em seu próprio cárcere, sem me aperceber que cumprida a missão eles estariam se convertendo nos novos policiais. Do que adianta mudar os valores se permanece a mesma estrutura? Era preciso derribar todos os cárceres, mas, para isso, eu precisaria derribar a mim mesmo.

Em profunda dor tentou se levantar e saiu abalroando tudo que o encontrava pelo caminho, agora só um trambolho trôpego à procura de um martelo.

Alucinado, revolveu o formigueiro que Mrs. Askey tinha ganhado de Buda em uma visita a Los Angeles, e ali encontrou uma trava de porta, algumas bolhas de água, um forcado, uma caixa, uma carapaça de tartaruga, uma faca de açougueiro, um pedaço de carne e um dragão.

Em cada escama do dragão brilhava os dizeres "TU DEVES JAJAJA" (ele era fanfarrão e espanhol), mas Ahriman não conseguiu nem ler, pois a verdade é que estavam grafados em hieróglifos Klingons, vez que o formigueiro havia sido obtido, mais especificamente, em Hollywood (mentira).

- EU QUERO um martelo! - berrou Ahriman às escuras, sem saber com o que lidava, já que era então apenas uma célula-tronco de camelo.

O dragão riu como o cão de fogo.

- JAJAJAJAJAJAJAJAJAJAJAJA!

- EU QUERO um martelo! - repetia Ahriman, determinado, aproveitando-se do seu momento de cegueira para ser corajoso.

Mas o dragão continuava negando com zombarias, pois nem para querer ser martelada a criatura prestava. Como última instância, deprimido, Ahriman volveu à cama, pedindo à bruxa:

- Desenha-me um martelo.
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Medusa em Seg Fev 23, 2009 2:16 pm

Foste mais uma vez enganado meu querido, abre os olhos e comprova por ti a inexistência desse dourado dragão, erro comum e desculpável pois compreende-se a susceptibilidade a ser induzido pelos ídolos populares. São figurinhas de gesso forjadas por mui frágeis e obesos artífices de pobre e afável aceitação aos não poucos lanceiros tributários e policiais espartanos. Figurinhas de gesso dos TU DEVES, logo não precisas sequer de um martelo. Basta-te lançá-las de adequada altura e verás como se fragmentam em mil e um pedaços de coisa nenhuma. Afianço-te que não me encontro em posse de martelos.

Para comprovar tal afirmação a bruxa desenha um vassoura num guardanapo e passa-o ao triste metamorfo.
Medusa retorna ao seu tapete e à esfera cristalina que sobre ele repousa. Cruzar as pernas e lançar os braços sobre a bola de cristal. Astralizar, astralizar, astralizar. Regresso sobre o efeito de mais um sinistro (e como podia deixar de o ser) sorriso. Esta expressão facial desperta ainda outras pérfidas possibilidades e terá certamente uma representação comportamental nos momentos que se seguem.
Vejo um brilho nos seus olhos que outrora me enchia de entusiasmo o peito. Agora garante-me uma resolução cruel e um mal que se aproxima.

Sempre foste fraco, simples e pouco dado à compreensão das características graves de uma personalidade.

Não te dignes a dirigir-me palavra. Serás sucintamente ignorado.

Escolhe ignorar-me e condenaste ao abismo da tua falta de controlo. Não sou mais que a tua falta de controlo. A consolidação da tua fraqueza em sublime elegância e magnifica frivolidade. Foste condenado e eu servirei como a tua resignação e o deleite e luxúria inerentes a essa resignação.

Respiras mentiras e és sem dúvida apropriado para este destino, o de nem estar morto nem vivo, preso para sempre, preso em labirintos serpenteantes, em sentimentos atormentadores e atormentados pelas impossíveis dilacerações das nossas consciências.
Desengana-te se achas que voltas para me ludibriar, não foi antes, não será agora, és mais um que Medusa consumiu, resigna-te pois à tua qualidade de consumido e some-te da minha pretensa narração.

Como és nobre. Como és tão vitoriosamente nobre. HAHAHAHA.

Não foi certamente a surpresa que me invadiu quando Medusa se aproximou do caldeirão, conferiu a espessura do líquido com uma colher de pau feita de ossos de colibri e visivelmente satisfeita encheu um pequeno frasco em forma de papoila com o borbulhante, verde-escuro semi-líquido conteúdo. Não me tocou de novo a surpresa quando ela se cobriu com o tapete escarlate de impronunciáveis origens e depois de um sucinto recital (encantamentos que insultariam a inteligência humana e por isso não serão reproduzidos) ergue-se a inverosímil criatura agora com a forma de criança. Truque desprezível.

Com seus agora pequenos passinhos dirige-se para Mrs.Askey estica a pequena mão e diz numa perfeita voz de colegial de dez aninhos:

Vamos ao parque de diversões avozinha.
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Tyrone em Ter Fev 24, 2009 6:08 am

- Porra, Alencar, me dá licença, não é assim não. Eu fiz Harvard, estava estudando para ser médico, cheguei lá por esforço, minha família nunca teve dinheiro não, eu sou do gueto, como é que pode ser tão fácil para você concluir que eu não consegui me formar por incompetência? Você sabe onde eu cheguei? Então, não sabe, e pelo mesmo motivo que você não sabe, não sabe que eu fui sabotado.

- Pois é, eu não sei, não tenho provas de que foi sabotagem, mas vocês, negros, são paranóicos, tudo para vocês é racismo e perseguição.

- Meu, você sabe que o que está dizendo nesse exato momento é crime? Você sabe que é crime isso?

- É crime eu expressar minha opinião?!

- Opinião RACISTA é!

- É exatamente disso que estou falando! — largou a chave-de-fenda dentro do motor e estendeu os braços para o outro, como prova de que para negro qualquer crítica é racismo.

- Mas você está sendo preconceituoso mesmo, você não sabe como foi e já parte da pior premissa a meu respeito. Cadê a presunção de inocência? Por quê que negro não pode gozar de presunção de inocência?

- Cara, eu não sou racista, meu melhor amigo é negro, eu sou brasileiro, poxa, os negros construíram o meu país, porque se não fosse por eles o sistema produtivo lá estava ferrado, índio se recusa a trabalhar escravizado! Eles não fazem nada à força, nem debaixo do chicote!

- Meu, aí, você é todo preconceito, mesmo quando você quer dizer que não é, dá logo um exemplo racista, cara, você não existe!

- Sabe por que você conseguiu esse emprego? Fui eu que te recomendei para o Taciro - batia no peito como se a sua suposta bondade tivesse algum poder de lhe validar o raciocínio capenga. - Fui eu que te recomendei para o china lá.

- Japonês.

- É tudo igual.

- Quer saber, cara, não dá para trabalhar contigo. — Era findo o expediente. Fechou o capô sobre as chaves-de-aperto e os saca-polias e boa. Estava cansado demais, especialmente do colega.

- E aí o quê? Você vai ficar desempregado de novo por causa disso? porque você fica se melindrando todo aí pelos cantos? Isso é desculpa para largar o emprego? Típico!

- Como é que é? Com assim "típico"?

- Eu não falei nada.

- Ainda por cima, você subestima a minha inteligência!

- Não empurra, cara, pega leve.

- Estou cheio de você!!!

- Agora a florzinha vai ficar cheia, aí, você faz tempestade em copo d'água.

Tyrone nem perdeu mais saliva tentando mostrar como o raciocínio do outro era falho: meteu porrada. Com a porrada, a vítima fez o favor de cair em cima do painel de controle do elevador. Alguns botões foram acionados. O resultado mais funesto disso é que o carro que estava na plataforma, já suspenso, esmagou contra o teto. Era uma Ferrari Dino, de um cliente de Beverly Hills.

E foi assim que Tyrone foi despedido da maior oficina mecânica de Los Angeles.

Depois veio o cara que ele tinha socado mostrar uma revista brasileira falando da viagem de João de Deus para a Irlanda, porque não existe maior filhadaputice do que ser legal com a pessoa que bateu em você. A verdade é que Alencar não estava fazendo isso porque era legal, mas para ser desagradável, para deixar Tyrone se sentindo mal por ter batido no outro. Acontece que Tyrone não se sentiu mal. Era o mínimo que a mula do Alencar podia fazer por ele.
====================

- Mas é esse o lugar mesmo?

- É — respondeu o taxista que cheirava a erva-doce queimada.

Não podia ser. O taxista estava fumado. Mas, justamente porque ele estava fumado, Tyrone decidiu, ainda que meio tardiamente, que era melhor descer ali mesmo e pegar outro táxi.

Mas não havia outro táxi. Aliás, parecia que não havia gente naquele vilarejo.

- Olá!

E o eco respondeu, inclusive, era faroéstico assim.

- Estamos mesmo sozinhos, meu amigo.

Ele só tinha a si próprio de interlocutor, porque o taxista havia sumido. Bem assim, sumido. Num momento, Tyrone saiu do carro e checou o lugar, no outro olhou para trás e o carro não estava mais lá. Sequer ouvira a arrancada do táxi, nem viu sinal de que ele havia partido, uma poeira no chão de terra, um ronco de motor, nada.

Mas ele estava cansado. Fizera uma viagem de 13 horas — e tinha pânico a aviões. Mas não era só isso. Coisas estranhas sempre aconteceram com ele. Aos 12 anos de idade já estava sendo exorcizado. De outro lado, o doutor Evans dizia que os sintomas de uma suposta possessão eram apenas fruto de um sugestionamento, em decorrência da brincadeira com o tabuleiro de Ouija. Mas Tyrone lembrava bem do que tinha acontecido, e não lhe parecia fruto de sugestionamento. "É assim mesmo, Ty, o louco é louco porque não separa fantasia da realidade."

Estava escurecendo e o céu prometia chuva. Por sorte, alguém finalmente apareceu, um sujeito passando na calçada:

- Com licença, senhor, sabe se tem algum hotel ou pensão por aqui?

- Você está falando comigo? - estacou o indivíduo, como se estivesse chocado.

- Bom... - de imediato, Tyrone estranhou a reação do sujeito. - Sim.

- É comigo mesmo? - o outro falava alto, enérgico.

- Receio que sim...

- Como assim receia que sim? Por que o receio?

- Bom, é maneira de dizer.

- Então o que você quer dizer realmente?

- Eu quero dizer que... — Tyrone não iria dignar-se a explicar a razão para o emprego de uma figura de linguagem. Cortou logo para o que interessava: — Eu quero saber se tem algum hotel por aqui.

- Você acha que tem algum hotel por aqui?

- Não sei.

- Então por que pergunta?

- Não estou conseguindo acompanhar a sua lógica, senhor.

- Você tem problemas mentais, por acaso?

- Olha, obrigado, eu me viro, falou, te vejo por aí.

"Meu Deus, que sujeito invocado. Será que todo mundo daqui é assim?"

Dobrando uma esquina, viu um rapaz magricelo, uma dessas vítimas da acne bubônica, que se dedicava à nobre tarefa de desentupir as fossas nasais.

- Com licença. Tem algum hotel por aqui?

O rapaz tirou o dedo do nariz e, por alguns momentos, ficou olhando, de boca aberta, para Tyrone. Finalmente disse:

- Por aqui, aqui nessa rua, não.

- Em que rua então? Onde posso encontrar um?

- Um hotel, você diz?

Tyrone nem respondeu. Começou a desanimar e a olhar em torno, a ver se achava outra pessoa para perguntar. Mas o rapaz respondeu:

- Em vários lugares você pode encontrar um hotel, se é disso que está falando. Está precisando de um hotel?

Lidar com gente cuja interpretação é muito literal é meio complicado. E quando essas pessoas se metem a querer dizer algo mais que a mensagem expressamente transmitida pela literalidade dos significantes, elas têm certa dificuldade para figurar as codificações mais elegantes ou mais ousadas, porque seu poder de jogar com as palavras vai até certo ponto bastante limitado, devido à sua forma quadrada de processar as coisas. Como estão acostumadas a não interpretar, exasperam-se com os intérpretes. Mas Tyrone deu uma segunda chance ao rapaz:

- Preciso de um hotel com urgência. Já está começando a pingar.

- É, parece que vai chover.

O rapaz parecia consternado com a notícia. Tyrone se compadeceu:

- Se bem que está ventando bastante, pode ser que o vento leve a chuva embora.

- É, eu acho que o vento vai levar a chuva embora.

Ele pareceu ainda mais desolado ao concordar com a possibilidade, e por isso Tyrone se apressou a querer devolvê-lo ao status quo ante:

- Mas pode ser que o vento não leve a chuva embora.

- Sabe o que eu estou achando? Que o vento não vai levar a chuva embora não. - Ficou cabisbaixo e uma tristeza mortal se apossou de seu semblante.

Tyrone começou a ficar até meio apavorado. Apressou o passo e se embrenhou por umas quebradas até ver, em frente a uma casa de madeira caindo aos pedaços, uma senhora de idade acompanhada de outra mulher bem baixinha, e resolveu parar a fim de perguntar-lhes onde poderia se hospedar no vilarejo.
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Ahriman em Ter Fev 24, 2009 7:12 am

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Tem-se em um determinado canteiro (se bem que por falta de especificação, acaba sendo é indeterminado mesmo) begônias e miosótis nascendo lado a lado. O jardineiro só entende de begônia, aí ele quer dispensar aos miosótis o mesmo trato que deu nas primeiras. Na lógica da técnica, parece tudo muito adequado, porque tanto uma espécie como a outra são flores do mesmo jeito, mas begônia não gosta tanto de água, já os miosótis gostam mais. Como, porém, ele se diz jardineiro e trata flor como flor, e não como pôneis ou azulejos, parece que ele está fazendo a coisa certa. Em sendo o caso dele realmente acreditar que não faz diferença, se eu reproduzo a falta de noção do jardineiro ele não vai perceber a graça da coisa.

A falta de noção cansa até Deus, pelo menos segundo os rabinos que escreveram sobre o dilúvio. Também diz uma versão mais fidedigna da Torá que Davi, ao enfrentar Golias, parou no meio do Vale de Elá e ficou discursando:

- Ó gigantesco mico de apóstata prepúcio, não sabeis ainda que essa tua armadura é mero embuste, que inclusive ela nem existe tanto assim? Prova disso é que eu posso ver que de gigante só tens o nome, se pelo menos soubesses com quem se encomendou a confecção dessa indecente indumentária, foi com um alfaiate turco, que tal raça usa é estopa e flanela para fazer armaduras, só filisteu mesmo para acreditar que vestiu uma malha de aço e uma carapaça de peixe solúvel feito essa tua, mas eu não julgo, por isso que prefiro usar uma linguagem que ignora o significado das coisas, para estar livre do julgamento, pois o julgamento pertence somente a Deus. E Deus disse que os incircuncisos merecem a fornalha do fogo e do enxofre, e o enxofre eu já providencio é agora! - e virou o traseiro para revelar num estilo mais performático o que comera no almoço.

Golias achou que seria desonroso vencer tal campeão israelita. Essa versão não aparece no cânone porque Israel "tinha" a vantagem de contar com agentes de marketing mais competentes. Filisteus sempre olvidaram questões de propaganda.

Tem-se também o famoso caso de Itzhak Behrman, que na invasão do exército alemão a Ardennes, achava que as bombas da Luftwaffe eram os aviões caindo sob a mira da sua espingarda de chumbinho. Quando foi enfiado em um trem para Auschwitz-Birkenau, nem a suástica no uniforme dos homens que o arrastavam serviu de alguma coisa: eram seus criados o levando gentilmente para a casa de campo, vez que já vencera a guerra e precisava de férias. O momento em que finalmente começou a vislumbrar alguma coisa da realidade coincidiu com a notícia da rendição alemã em Ardennes, e ele aceitou isso e tudo o mais, entendeu que estava em um campo de concentração e não na casa de campo, mas ainda assim os alemães haviam se entregado por causa de uma mandinga que ele tinha feito.

Também teve o caso ainda mais famoso do Cavaleiro Negro — deste, Ahriman igualmente se cansou. O que não aparece na história é que o Cavaleiro Negro morreu acreditando que o rei Arthur realmente havia fugido.



Os casos do jardineiro, de Itzhak Behrman e do Cavaleiro Negro têm, assim, uma base em comum. Não se pode negar que a falta de noção sobre si mesmos e em relação àqueles com quem estão lidando é causa de uma sucinta felicidade... Por exemplo, Itzhak Behrman seqüestrou um historiador da universidade local para obrigá-lo a inserir em suas obras que ele fora o responsável pela vitória dos franceses.

Por essas e outras, Ahriman abandonou o papel como Mrs. Askey e se ligou ao negro que tinha acabado de chegar. Há tempos, desde a morte dessa senhora, não tendo mais ninguém para copiar, contentara-se em seguir reproduzindo a esquizofrenia dela. Por isso se dizia que ela foi definhando com o tempo, a velha mesma não definharia porque era ruim como o diabo e vaso assim, se não morre de acidente, nem doente fica. Mas Ahriman não a tinha mais como matriz para imitar sua resistência, e sem matriz seu destino era definhar.

Para vencer um doppelganger é preciso perder - a moral certamente menos moralista de todas as histórias. Se é que é derrota fazer-se por ser ignorado. Afinal, se se chegou a isso como "vitória" é porque se abriu mão do narcisismo. Talvez até demais.

Não é que Mrs. Askey não incluiria mais ninguém em suas narrativas. Era o fim das narrativas.
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Medusa em Ter Fev 24, 2009 9:08 pm

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Não te aproximes demasiado e será permitido auscultares o suave choro do demónio-coisa da coisa-espelho. Não é mais que um gotejar límpido numa profunda imensidão de escuridão. Pergunta-te, eu pergunto-me, o que é feito do feito quando tudo redunda em silêncio. Ouve depois o silêncio se fores capaz, nunca fui capaz. Nesse silêncio será permitido o conhecimento ancestral daqueles que há muito se encontram sob o solo que pisas. Aspira à sabedoria mas sabe que o conhecimento será sempre daqueles que se encontram sob o solo que pisas. Não há conhecimento senão o das runas indecifráveis. Se o há mostra-mo e nada mais será dito porque então conseguiremos auscultar o silêncio. Homens e mulheres na sua dança à volta da fogueira.

A imagem é em si pouco suspeita. Vejo uma mulher e uma criança de mãos dadas a seguir com os propósitos que lhes são naturais e próprios. Nada a mais e nada em falta. Descem do destroçado alpendre e deparam-se com um homem negro cujo semblante irradia algo que faz a travessia entre a confusão e a irritação. Suponho que haja um qualquer propósito na sua mente também.

Respondemos diligentemente aos enigmas da esfinge, porque ela nos assusta. Tememos o julgamento dos homens porque são cruéis, tememos o julgamento dos Deuses porque são poderosos. As sombras inauditas, as sombras repetidas, as sombras das sombras, essas não as tememos, são-nos queridas, lembram-nos do medo que tínhamos do escuro em épocas que não voltam. Recordamos os mistérios que se deparavam connosco ao olharmos o espelho e as poças de água e as noites de trovoada.

Uma Mrs. Askey afavelmente sorridente (subversivamente pervertida) dirige-se ao homem:
- Que faz por aqui? Está perdido não está? Vejo logo que está perdido. Quer um chazinho? Oh mas a minha netinha está com pressa. Com pressa, com pressa. Que dizes querida? Este serve? Já vamos, já vamos. Serve, serve. Quer chá querido? Preston vai buscar as bolachas. PRESTON! As bolachas! Claro, com pressa, pois é, pois é. Não sabe onde ficar querido é isso? Pode ficar na minha casinha, temos muito espaço. Não pode querida? Não pode afinal. Tem que ir para a estalagem de Louhi Pohjola. É lá que eles estão. A estalagem, a estalagem. Vá, vá o que está ai especado a fazer? ESPERE! Ainda não lhe disse onde fica. Vai por ali, depois vira, depois vira outra vez, dá a volta, por ali, em frente, vira e encontra a placa depois. Nada que enganar.

A inocente criancinha estica a mãozinha e oferece um frasco em forma de papoila ao homem estupefacto.

Se ficar com sede. É um tónico especial que a avozinha me ensinou a fazer.

-Pois claro querida. Tem de beber, refresca a mente e eleva o espírito. Pois claro que tem de beber querido. Agora ponha-se a andar, o que está aqui a fazer ainda? A estalagem, pois claro, tem que ir para a estalagem. Por ali querido já lhe ensinei o caminho.

É um tónico deveras especial, uma gota que escorregue pela garganta alheia e a percepção da vítima será acessível à bruxa através da sua bola de cristal. De resto é bastante saboroso.

Só no fim das narrativas começa a acção. Não me deixes desamparada no mundo cruel da razão, da mortificante dialéctica, da humanidade enfim.

No final acabamos, sem perder nem ganhar, sem rejubilo nem desilusão, cada passo é mais um e menos um ao mesmo tempo e em tempo nenhum ao mesmo tempo e sem ínicio nem fim. Vemos a junção matrimonial de homens e mulheres em torno da fogueira mantendo o ritmo com firmeza, de hábeis saltos carregados por desajeitados pés. Por isso foges sem braços nem pernas nem forma que te valha e sabes que ao fugires não começas nem acabas. O meu ínicio é o meu fim.


Astrais seduções a demoniacos receptores que podem nem sequer estar onde estão pelo único motivo de lá estarem. Em frente e resigno-me as crianças compreenderão.
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

Mensagem por Tyrone em Qua Fev 25, 2009 12:12 am

Apesar de todo show de bizarria que o lugar lhe oferecera até então, Tyrone ainda conseguiu achar a pessoinha loira bem estranha — não por dom dele, é claro, o mérito era todo dela. Ela fazia uma voz como que de velha e alternava o timbre para um de criancinha gude-gude. Claro que ele não estava nem um pouco a fim de tomar o conteúdo do frasco que a lunática lhe tinha posto na mão. Não se toma um preparado feito por gente maluca, se é que ela mesma havia preparado aquilo, como dizia. Mas não importava quem tinha feito, vai saber qual seria o resultado de contrariar aquele serzinho. Sobretudo, ele se sentia intimidado e algo hipnotizado pelo olhar da garota, e por isso acabou emborcando o líquido.

Não sentiu nada esquisito, o sabor até era bom, parecia tudo normal e, enfim, até então até que tudo bem. Mas aí a velha começou a se transformar, adquirindo as feições, o corpo, as roupas de Tyrone... a olhos vistos.

- O que diabos você me deu para beber?!

Ele atirou o frasco para o lado e começou a correr, alucinado. Pelos vistos, literalmente alucinado. Disparou numa carreira desabalada, nem um pouco interessado em esperar para ser conduzido a uma estalagem pela menina esquizofrênica; o interesse dele era ir para bem longe daquele vilarejo, nem que precisasse tomar chuva e passar a noite em maratona.

Algo lhe dizia que ele não escaparia daquela vivo. Em sua corrida para fora do vilarejo, discerniu ao longe um bosque recortado contra o pôr-do-sol e alguma coisa o atraía para lá, mas, racionalmente considerando o assunto, não lhe parecia o melhor lugar para se esconder.

Quando ele fez 15 anos, a mãe, que já o tinha levado para tudo quanto é padre e pastor, vendo que o filho ainda era suscetível a ataques sobrenaturais, achou que deveria tentar outras religiões. O cristianismo claramente parecia inspirar-lhe mais medo, e o medo não ajudava muito na luta do garoto contra as assombrações que o perturbavam... Ela era uma mulher crédula mas não seguia uma religião em especial e, assim, cabeça-aberta, acabou levando o filho a um guru hinduísta, que dizia coisas como...

- Agora vamos relaxar e abrir o terceiro olho, permitindo a entrada do cosmo sem filtros nem julgamentos, para que a essência seja conjugada com o chacra da onisciência universal.

Tyrone era um rapazinho bem inteligente e, como tal, perguntador...

- Que história é essa de abrir terceiro olho para a entrada do cosmo?

- Deixe que o cosmo queime!

- Queimar o terceiro olho?

- Sim, o olho que nada vê mas tudo enxerga!

- Deixar cosmo queimar meu olho cego não é uma coisa que estava nos meus planos ao entrar para uma religião oriental...

- Você pensa demais! É no vazio do jarro que jaz a sua importância! Apenas sinta o fluir das energias astrais! O pensamento é o Véu de Maya - nesse momento, o guru começou a revirar os olhos e a engrolar palavras que pareciam inventadas na hora, alternando timbres e ritmos.

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Depois Tyrone veio a saber que aquilo era um mantra da religião do camarada, que a um primeiro momento parece mesmo ser as sofridas manifestações de uma pessoa com dor de barriga, e num segundo momento, um cara literalmente tomando no terceiro olho pelas acalorantes penetrações do cosmos — e gostando para cacete. O prazer extático desse momento, segundo lhe foi explicado depois, só poderia ser experimentado se ele deixasse de tentar compreender o momento para apenas senti-lo.

- O senhor faz isso? Apenas sente?

- Na chama do cosmo, o terceiro olho incandesce consumindo o Véu de Maya, que nos separa da verdade.

Foi então que Tyrone entendeu por que aquele cara tinha largado a escola. O que lhe parecia também meio hipócrita, pois as referências do tal do guru à capacidade racional de Tyrone (a qual fora a causa da bolsa em Harvard, que se devia não às suas exímias habilidades como esportista, como geralmente acontece com os negros que conseguem entrar em uma universidade nos Estados Unidos) recendiam a incômodo, nervoso, irritação, porque Tyrone teimava em não ser como ele, um cara desprendido, que tinha o pensamento solto e em harmonia com a Força do Multiverso. Ora, esse estado mental do guru era corolário de julgamentos, de rótulos; a crítica (ou mesmo os meros xingamentos) à dialética, por exemplo, é dialética: não se pode sentenciar alguma coisa como positiva ou negativa sem estar julgando, pesando valores, e por isso Tyrone largou mão daquela charlatanice toda.

Era muito bonito aquilo do Obi Wan dizendo para o Luke Skywalker lutar de olhos fechados contra os raios não-cósmicos das máquinas, guiado apenas pelas sensações, pela intuição, abandonando o olhar crítico, a racionalização e tudo mais, mas na prática o que se via é que as pessoas que pregavam essa postura eram só faça-o-que-eu-digo-e-não-o-que-eu-faço. O mau exemplo delas afastava qualquer atratividade que seu discurso pudesse exercer sobre os ingênuos (principalmente sobre os maus pensadores, que usam o ceticismo, o intuicionismo e congêneres como muleta ou fuga). Lá dentro eram iguais a qualquer cientista capitalista, demonizador, rotulador, crítico e os etc's.

Mas tem lugares que parecem feitos sob medida pelo cosmo para nublar a razão... Aí você fica à mercê das vagas. Alguns dizem que isso é uma coisa muito boa, e que para perceber quão positiva é a experiência você precisa aprender o "desapego" (nada mais inumano e anti-natural). Tyrone preferia ter uma âncora. Mas era tarde. Enfiara-se no bosque das árvores retorcidas.


[OFF] Como o moderador do grupo dos doppelgangers explicou que a Mrs. Askey era o personagem dele (Ahriman), não tive outra alternativa senão concluir que a menina mesma é que estava fazendo as falas da Mrs. Askey, já que não poderia ser "a própria" falando. [/OFF]
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Re: Casa de chá da Mrs. Askey

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