Parque de diversões

Ir em baixo

Parque de diversões

Mensagem por João de Deus em Sab Jan 10, 2009 7:20 am

Coisas estranhas acontecem no parque de diversões de Deverell. Mas é o único parque de diversões de Ashford e cidades vizinhas, por isso alguns ainda o procuram — especialmente aqueles que não acreditam nas histórias dos excêntricos habitantes do vilarejo.
Uma neblina inexplicável está sempre recobrindo o parque
e dizem que à noite os brinquedos começam a funcionar por conta própria — não se vêem funcionários manuseando os painéis de controle das máquinas.
Também dizem que a Casa dos Espantos é, simplesmente,
something to die for.
avatar
João de Deus
Admin

Número de Mensagens : 118
Idade : 76
Data de inscrição : 29/11/2008

Ver perfil do usuário http://countymayo.forumeiros.com

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Parque de diversões

Mensagem por Mirael em Ter Fev 17, 2009 10:00 pm

No pequeno dormitório do mecânico oficial do Parque de Diversões de Deverell, como de costume, sem nenhuma intervenção externa, Mirael despertou às quatro horas da manhã, em ponto; permaneceu três minutos e vinte segundos analisando as figuras formadas pelos reflexos e pelas sombras projetadas no teto do seu alojamento e... nada! Rabujento, levantou-se.

- Eu amo a vida. Se um dia eu parar de viver, eu morro! - Havia acordado com o "ovo virado" naquele dia. Fazia setenta e cinco dias que Mirael não reencontrava os seus pais, nem a sua adorável irmãzinha; eles eram a razão da loucura em sua vida e a insanidade da verdade sobre a morte.

Há vinte e seis anos, em Belfast, na Irlanda do Norte, uma pequena oficina mecânica de propriedade da família Tyrone, protestante, crescia junto com a explosão automobilística dos anos 80, ocorrida na capital Ulster. A expansão vertiginosa daquele mercado possibilitou aos Tyrone a formação de uma grande rede de oficinas, elevando o nome da família aos mais altos degraus da elite local. Entretanto, a época de fartura e felicidade dos Tyrone não duraria muito; ao final do quinto ano, o sucesso dessa família protestante, no seio da comunidade católica, atiçara o ímpeto do Exército Republicano Irlandês, o IRA.

- Mirael! Mirael! - Numa madrugada chuvosa de junho, o pequeno Mirael, filho caçula da família Tyrone, acordou de repente. A chuva açoitava vorazmente a janela do seu quarto, não se via nada lá fora. No teto, ao contrário, as sombras das árvores do quintal dançavam um ritmo tranqüilo, quase hipnótico, dando-lhe uma desejada e falsa sensação de segurança. O garoto olhou para a cama do outro lado do quarto e reparou que lá sua irmã gêmea, Mirelle, dormia profundamente e, entre as camas, sobre o criado-mudo, viu que o rádio-relógio piscava, marcando quatro horas. Cochilou.

- Mirael! Levante, meu filho, vocês precisam fugir! Eles estão atrás de vocês! AAAcooorrrdeee! - Mirael, assustado, despertou e sentou-se no meio da sua cama. Ouvira claramente a voz da sua mãe, mas sabia que seus pais estavam numa festa e que não constumavam retornar antes do nascer do sol. Ficou quieto por uns instantes, mas não escutou mais nada, só a chuva castigando a janela. Que estranho! Voltou a deitar, voltou a dormir.

- Ahhhhhhh! - o grito de Mirelle estrondou dentro do quarto. Dois homens encapuzados, vestidos de preto, colocavam a menina dentro de um saco de aninhagem, logo depois foi a sua vez. Os sacos foram colocados na carroceria de um caminhão que, em seguida, partiu velozmente. Algum tempo depois, o veículo parou. Estavam à beira de uma barragem do rio Lagan. Os sacos em que se encontravam os irmãos foram jogados no chão. O saco de Mirael, com a queda, se abriu e ele pôde ver os pedaços dos corpos esquartejados dos seus pais serem lançados rio abaixo pelos homens maus, membro a membro. Convulsionante, o pequeno Mirael chorava agarrando-se à irmã, que permanecia ensacada. Quando terminaram de jogar os pedaços dos Tyrone no rio, um dos terroristas aproximou-se dos irmãos. O menino abraçou-se ainda mais à irmã, protegendo-a. O terrorista, calmamente, olhou nos olhos de Mirael e aguardou até que a criança o encarasse, então, cravou seu punhal no saco uma única vez. Não houve grito, apenas gemidos cansados saíam do saco em que se encontrava Mirelle e o garoto permanecia enlaçado à irmã; parecia que nada o faria largá-la. Contrafeito, o bandido desenterrou o punhal da menina e, com ele, começou a surrar o rosto de Mirael que permanecia firmemente atado a Mirelle. Irritado, enfim, o terrorista também os arremessou no rio.

Mirael sobreviveu. Foi encontrado algumas horas depois, inconsciente, por um ator de uma trupe itinerante, dez quilômetros rio abaixo; seu rosto estava dilacerado e sua saúde não estava nas melhores condições, mas a equipe de artistas deu um jeito e o garoto resistiu. Dali para o parque de diversões, foi mera questão de tempo. Meses depois, o caçula dos Tyrone era o mais novo auxiliar de mecânico do Parque de Diversões de Deverell e os restos mortais de sua família nunca foram encontrados.

A partir de então, nas madrugadas, ocasionalmente, o espírito de Mirelle visitava seu amado irmão. Normalmente, não trazia boas notícias e falava muito pouco; às vezes trazia o seu pai, às vezes, trazia a mãe. Assim, noite após noite, todos os dias, Mirael deitava-se esperançoso. Ao seu modo, rezava por um instantezinho a mais com sua família, mesmo sabendo que, com a visita, muito provavelmente, vinha alguma desgraça.
avatar
Mirael

Número de Mensagens : 8
Idade : 39
País de origem : Irlanda do Norte
Data de inscrição : 16/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Parque de diversões

Mensagem por Mirael em Qui Fev 19, 2009 11:29 pm

- OK, OK OK! Não vai aparecer? Hein? Vai me deixar aqui, sozinho? Hein? Apareça, maninha, eu quero muito te ver, linda!... Tudo bem. Amanhã, então? Combinado! - Mirelle nunca atendia aos chamados do irmão. Aparecia a qualquer hora, quando precisava confidenciar-lhe algo ou para aplacar a falta que sentia do irmão vivo, e não passava mais do que o tempo suficiente para aliviar a tensão dos espíritos gêmeos ou para garantir que Mirael compreendera a mensagem que lhe cabia. Então, desaparecia.

Não muito conformado com mais uma alvorada órfão, seguiu a rotina massante de sempre: puxou a cordinha que acendia a lâmpada do centro do pequeno dormitório, (sempre acordava às quatro em ponto, o que lhe dava no mínimo mais três horas de escuridão até a alvorada), colocou a água no fogo, para o chá, dirigiu-se ao banheiro, urinou, (sentado no vaso, como lhe foi ensinado por sua educada mãe), banhou-se e barbeou-se no chuveiro, (com navalha, como fazia seu glorioso pai) e escovou os dentes, metódica e cuidadosamente, (adorava seus dentes, acreditava que eram a única beleza existente no seu rosto desfigurado), nu, tomou seu chazinho, então, vestiu o macacão da sexta-feira, (Mirael usava um macacão para cada dia da semana e obedecia rigorosamente a escala de macacões), e foi fazer aquilo que mais gostava em sua vidinha medíocre, manutenir os brinquedos do parque, sua terapia diária.

A função de Mirael era a de mecânico oficial do parque, (na verdade, era o único mecânico existente; o termo "oficial" foi adicionado pelo gerente, há alguns anos, para dar uma impressão de status para seu melhor funcionário), e como era o único a morar dentro do parque, também cumpria, quando devidamente abonado pelos colegas mais medrosos ou farristas, outros encargos como o de zelador e o de segurança. Tendo moradia, alimentação, (que tirava da cantina do parque com aval da proprietária), salário regular e o extra, e poucos gastos, com o tempo e com bons investimentos, Mirael conseguiu juntar uma verdadeira fortuna, que era administrada por uma competente e leal equipe do Banco Anglo Irlandês.

Mirael tinha o dom da mecânica no sangue e o amor pelos brinquedos, arraigados dos tempos felizes da infância, no coração. Se cabia dizer que a manutenção era sua terapia, assistir as pessoas divertirem-se, era o seu lazer. No parque, podia-se dizer que Mirael era uma pessoa normal e feliz. Dentro do parque.

A Casa dos Espantos era o seu brinquedo predileto. Lá, inclusive, havia encontrado sua irmã e seus pais por diversas vezes. O brinquedo reunia aquilo que ele mais gostava: precisão, sincronia, complexidade de mecanismos e, é claro, emoções. As reuniões familiares que ocorreram dentro da casa nunca foram seguidas por mensagens ruins, desagradáveis. Engraçado, não tinha percebido essa coincidência. Isso me lembra uma passagem interessante...

Com a chegada da primeira Casa dos Espantos no Parque de Diversões de Deverell, há uns quinze anos, Mirael teve que aprimorar seus conhecimentos, aprender novas tecnologias. Para tanto, ele foi enviado a sua terra natal, (Belfast), para fazer um curso intensivo em mecânica, elétrica e eletrônica oferecido pela empresa que vendeu o brinquedo. Era a primeira vez que voltava à cidade depois da morte de seus familiares. O curso deveria durar catorze dias, (exatamente o tempo previsto para que a empresa montasse a nova atração de Deverell),com aulas pela manhã e pela tarde, mas foi encerrado em dez dias, em face do bom desempenho dos instruendos. Como sua passagem já estava comprada, no décimo primeiro dia, Mirel aproveitou para passear pela cidade. Pouca coisa havia mudado. Reconheceu quase tudo, menos a sua casa. Estava no endereço certo, mas a casa... não era aquela. Então, Mirelle apareceu.
avatar
Mirael

Número de Mensagens : 8
Idade : 39
País de origem : Irlanda do Norte
Data de inscrição : 16/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Parque de diversões

Mensagem por Cliona em Sab Fev 21, 2009 11:50 pm

Uivos e lamentos agudos ecoaram por todo o parque de "diversões". Era uma dessas noites sombrias em que ninguém, para sua infelicidade, se sente sozinho. Os gemidos convertiam-se em gritos hárpicos assustadores que se mesclavam ao uivo do vento, o qual logo cedeu lugar a uma chuva estranha, com pedras de gelo do tamanho de sapos - e com formato de sapo, pegajosas como sapos, não restando outra alternativa aos habitantes do lugar deserto senão recolherem-se aos seus refúgios malditos.

A chuva levantava fumaça em contato com calor dos brinquedos de risco. Alguém ali os mantinha sempre em funcionamento, uma mente lunática decerto, já que o parque não era freqüentado há muito tempo.

O fumaceiro da condensação foi tomando forma, o corpo evocava o de mulher mas à medida que se materializava as feições aparentavam tratar-se mais de uma espécie de monstruosidade: a criatura era medonha e transmitia uma sensação desagradável, não obstante vinha deslizando até a janela de um cubículo onde por acaso encontrava-se Mirael, a cabine de uma montanha-russa, refúgio improvisado devido ao de-repente da chuva.

Uma rachadura na vidraça era o suficiente; por esta penetravam gotículas de água engastadas pela força da tempestade, e também a mulher mais uma vez se converteu em fumaça, esgueirando-se pelo corte — assim fundida à água que escorria por dentro da vidraça, a impressão que se tinha da mistura era de sangue.

Apesar do caráter inusitado daquela aparição, ela não teria interrompido as memórias de Mirael, absorto em flashbacks, não fosse pelos uivos, bramidos e altos prantos da banshee. Seu rosto feio era ainda mais desfigurado pela tristeza.

- Mirael... Mirael... - ela falava com uma voz diáfana, mas sempre de choro, os bramidos e ganidos fazendo trilha sonora de fundo para cada palavra - Todos se foram, menos as lembranças e o poder de materializá-las. Você vê o vento desfolhando as árvores, mas não são apenas as folhas que vêm ao chão... é também o vento, porque a sua realidade é o vento que se recusa dissociar-se dos objetos por ele tocados. O apego é arrastar cadáveres amarrados às nossas costas, e à medida que eles apodrecem, nós apodrecemos também. Só há um jeito de evitar a putrefação, Mirael...

A banshee, entidade depressora, aproveitava-se da solidão e da desolação de Mirael por um passado de massacres, para induzi-lo à agonia e à loucura. Pois só assim, trazendo para o seu tanto de sofrimento o máximo de participantes na dor e no ódio, ela poderia se sentir feliz.

- O único jeito é a vingança.

Um relâmpago coincidiu com a frase e, quando o clarão se desfez, ela não estava mais lá. O trovão que se seguiu também fez eco para um último grito de angústia de enregelar os ossos, e se poderia ter a impressão que o acontecido não passara de um delírio.

O céu mostrava-se muito mais escuro, a chuva não parecendo ter tido qualquer poder para dissipar as nuvens caliginosas. O cenário espelhava perfeitamente a sensação de fatalidade ante a tristeza e revolta inevitáveis. Uma coisa pesada de músculo e sangue que comprimia o coração dentro do peito gelado. A necessidade de destruir para não ser destruído se aprofundava juntamente com o frio sobrenatural - o mundo inteiro parecia avesso à felicidade e se encolhia até formar nada além de uma casca de noz em volta, que para ser superada somente através da ruptura violenta. Não havia alternativa.

Somente o desespero.
avatar
Cliona
Mourner

Número de Mensagens : 2
Idade : 259
País de origem : Celtas
Data de inscrição : 11/01/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Parque de diversões

Mensagem por Mirael em Dom Fev 22, 2009 9:02 pm

1

- Irmãozinho, irmãozinho... vê o que fizeram com a nossa casinha, o nosso lindo e amoroso lar?! - Mirelle confirmava o que os olhos e as lembranças de Mirael resistiam a aceitar. O que se via não tinha nada do que fora a bela e esplendorosa mansão dos Tyrone; era, verdadeiramente, o resultado da ira católica contra aquela vitoriosa família protestante. Nenhuma vidraça restou inteira. A alvura de paredes bem conservadas foi substituída pelo vermelho-terra dos tijolos fuzilados. Da garagem, virada em escombros, nada sobrou. O colorido do jardim cedeu lugar a um monocromático e estéril marrom-chumbo. E na fachada, faixas enalteciam a igreja católica e insuflavam a população contra os infiéis protestantes. Nada, nada, lembrava a vida pulsante que tomava conta daquele lar, num passado não muito distante.

- Ah, meu lindo irmão, podem esses carniceiros fazer isso conosco em nome de Cristo?... Não. Não. Isso não pode ficar assim, não é? - Mirelle sussurrou ao ouvido do rapaz, antes de deixá-lo só novamente.

- Não, querida irmã, isso não pode ficar assim. - com olhos vítreos, Mirael atravessou a rua, em direção a sua antiga casa, e entrou.

O odor de carne podre tomava conta da sala. Restos de comida se escondiam sob um manto de moscas sobre a mesinha de centro. Seringas, agulhas e colheres queimadas indicavam que o seu antigo quarto servira de abrigo à marginalidade local. No lavabo, fezes de diferentes cores enfeitavam o vaso, a pia, o chão e as paredes, e cravado atrás da porta Mirael encontrou o restante do conjunto de talheres inox da mamãe. Andando pela casa, percebeu que os objetos que possuíam algum valor haviam desaparecido e todo o resto que ficou parecia servir ao propósito de fazer, daquela casa, o rosto do caos. Mas o rapaz permanecia inalterado, frio. Foi, então, ao quarto dos seus pais, deu uma espiada no interior da suíte, que lhe pareceu um pouco menos suja que o lavabo, e se deitou sobre o colchão mofado, imundo e rasgado que no chão, úmido, jazia. Dormiu.

Por volta da meia-noite, sentindo uma mão afagar-lhe a cabeça, Mirael despertou. Ninguém. Então ouviu risinhos distantes aproximarem-se. Ouviu o ranger da porta da sala abrindo. Instintivamente, Mirael entrou no guarda-roupa embutido do quarto dos seus pais, no mesmo lugar em que constumava se esconder da irmã, quando brincavam, na infância. Ouviu os risos subindo as escadas, então fechou a porta do armário e ficou brechando por uma fresta. Viu quando uma moça com calça jeans e busto nú jogou-se no colchão, e quando um rapaz, vestido à maneira da primeira, beijando calorosamente uma outra garota que só trajava uma pequena calcinha e trazia numa das mãos uma garrafa de uísque barato, também se jogou no colchão dos seus pais. Inalterado, Mirael assistiu ao espetáculo pornô que o trio lhe proporcionou e ao pico que tomaram ao final da festinha.

Uma semana depois, de volta ao trabalho em Deverell, Mirael divertiu-se ao ver, na primeira página do seu jornal preferido, a foto do trio, crucificado com facas e garfos, pregado no grande armário do quarto dos seus pais.


2

Fazia algum tempo que a bilheteria só rendia o suficiente para a manutenção da vida vegetativa do parque. Algumas funções excedentes até haviam sido cortadas. Mantinha-se apenas o estritamente necessário, tudo, proporcionalmente, ao pequeno público que insistia em freqüentar o, outrora grandioso, Parque de Diversões de Deverell. Lá, nutria-se a esperança de que, em breve, com o crescimento turístico de Ashford, a bilheteria voltasse a registrar lucros.

O dia, porém, havia sido como outro qualquer, sem bilheteria expressiva. Mirael já recolhia as chaves-gerais dos brinquedos quando os ventos uivantes tomaram conta do parque. Apressou-se. Já o tinha ouvido outras vezes e Mirelle já tinha lhe falado sobre as banshees, mas, ao contrário do que fazia crer, apesar de não admitir, o mecânico tinha medo de encontrá-las. Foi então que uma estranha chuva começou a cair, fazendo com que Mirael tivesse que se abrigar na cabine da montanha-russa. Resignado, sentou-se na cadeira de comando e lembrou-se da primeira vez em que havia andado nesse brinquedo. Lembrava-se dos vestidos da mãe e da irmã e do chapéu engraçado do pai, quando um desconforto tomou conta do seu âmago e sua mente desandou em lamentações tristes. Ante as lágrimas que rolavam da sua face, Mirael só via lampejos da névoa lá fora e da condensação sufocante do seu suor no interior da cabine. Ia, aos poucos, afogando-se em desespero quando se lembrou da irmã e do que aprendera sobre as banshees, encontrara ali a saída daquela agonia...

- Vai-te, querida, vai-te na certeza de que minha família e eu ainda temos muito o que fazer. - e, refazendo-se, Mirael ganhou coragem, enfrentou a chuva e foi se abrigar no seu refúgio, no seu alojamento... "o único jeito é a vingança"...
avatar
Mirael

Número de Mensagens : 8
Idade : 39
País de origem : Irlanda do Norte
Data de inscrição : 16/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Parque de diversões

Mensagem por K. em Qua Fev 25, 2009 10:27 am

K. cultivava um pequeno jardim aos fundos de sua casa, onde dispunha de rosas brancas e vermelhas, cravos amarelos e amores-perfeitos. Uma improvisada estufa escondida da qual retirava uma cota diária de flores e lhe custava atenção e cuidados constantes. Quando seus pais estavam vivos a casa vivia cheia de ruídos e agregados que iam e vinham todas as manhãs e tardes, incomodando as leituras e trazendo movimento à sua vida. Hoje, K. visita os cômodos apenas para fingir que seus pais ainda estam lá, assistir projetadas pelas paredes antigas suas cenas infantis, em que ora ajudava à sua mãe em tarefas domésticas, ora entalhava brinquedos de madeira junto com o pai. Na sua adolescência, fez da marcenaria um ofício rentável, vendendo diversos móveis para famílias da região, até que seu pai morreu, e o prazer de transformar as formas pela ação do cinzel morreu junto. A mãe morreu poucos meses após, deixaram como herança aquela casa, alguns campos cultivados não muito distantes, um jardim de flores e urtigas.

A dor da perda obrigou K. a reformular toda a sua vida, nada do que houvesse desejado antes serviria agora, vagou de emprego em emprego, executando suas tarefas com a pontualidade e a limpeza agradáveis a qualquer patrão, mas por ser incapaz de se contentar com qualquer emprego por muito tempo, migrava sempre para um novo. Atualmente, oferecia sua experiência em marcenaria, funilaria e pintura ao Parque de Diversões, fazendo a restauração visual e pintura da maioria dos brinquedos. Basicamente, era lixar, limar, aplicar antioxidantes e reconstituir a pintura esmaltada das superfícies, substituindo partes já muito deterioradas por outras novas que K. produzia em sua própria casa.

Às sextas feiras repetia-se um ritual nunca abandonado por K., que saía ainda de madrugada para visitar o cemitério onde estava enterrada a família. Podava rosas e cravos, atava os talos em um grande maço enrolado em papel de seda, em um saco de papel levava velas perfumadas de fabricadas em casa e um grosso rosário de contas escuras, também feito por suas mãos, inclusive as imagens da Virgem e do Cristo, talhados minimamente com rostos retorcidos de dor e beatificação.
Esta visita semanal seria especial, era o aniversário de casamento dos pais, coincidentemente muito próximo aos aniversários de morte do casal e ao aniversário de K. Uma celebração em família, simples, silenciosa e solitária.

Caminhou pela rua enlameada com as botas pesando em seus pés, o vermelho do barro respingando em sua calça de tecido grosseiro, o maço de flores resguardado dos olhares curiosos sob o capote marrom. Um espinho de rosa arranhou sua costela do lado esquerdo, uma fímbria de sangue correu, manchando a camisa branca. A entrada do cemitério não estava longe, andou mais depressa.

Lavava as lápides, arrancava o mato, juntava as folhas secas que caíam das árvores ao redor da sepultura dos pais e de todas as outras da mesma quadra. A maioria das pessoas não visita cemitérios, por medo da proximidade com a morte, por não serem capazes de aceitar esta etapa da vida, só por acharem doloroso o reencontro com os que atravessaram. Do mesmo modo, não vêem sentido em se orar pelas almas, interceder por sua ascensão, requisitar o conforto por sua partida. K. não estava entre essas pessoas; reverenciava a presença dos mortos em suas sepulturas, seria uma falta de respeito abandonar os restos das pessoas amadas negligenciados; falta ainda mais grave a de fingir que aquelas pessoas nunca existiram. Tanto existiram que seus corpos permaneciam guardados na terra, e a cada dia a terra cobrava o seu pedágio e devolvia gradualmente toda a matéria corpórea ao ciclo natural.

Ajoelhou-se em frente aos túmulos cobertos pelas flores, perfumados e iluminados pelas velas pequenas e orou pelas almas dos pais e de seus vizinhos daquele descanso perene. Pediu que seguissem os seus caminhos através da misteriosa noite da vida; se fossem capazes, lembrassem daquela vida que geraram um dia, se fosse possível, que se encontrassem os três novamente em um novo amanhecer. E com pausas, entoou o mantra de padres-nossos e ave-marias de seu rosário, recitando de cor as passagens dos três mistérios sacros. Os joelhos finos e muito brancos, herdados da mãe, arroxearam-se pelo contato com o chão áspero.

Terminado o último Glória, sentou-se em posição de quem medita, sem se importar com o umidade da terra naquela hora da manhã, molhada pelo sereno da madrugada. Acendeu um cigarro na chama de uma das velas. Deu uma longa tragada, daquelas que fumantes muito inconseqüentes são capazes, e leu os nomes dos pais nas lápides. Jamais seria cabível ignorar a existência daqueles dois seres, pois estavam os dois a viver em seu corpo, em seus gestos. Para isso visitava todas as semanas aquele cemitério, para desfiar aquele rosário doloso em homenagem à sua mãe, que ainda podia ser vista em sua pele delicada, seus cabelos prateados, sua boca fina e nariz pequeno. Para isso tragava aquele cigarro, para homenagear seu pai, que sobrevivia em seus olhos claros e sem medo, em sua força e teimosia incansáveis, na firmeza de sua voz macia e suave. Sua maior herança era carregada em sua personalidade, o respeito pelos outros, a vontade inquebrantável e um orgulho irritante.

Apoiou a testa na mão, para esconder a tristeza da face. Lembrou especialmente do enterro da mãe, sua última esperança de companhia sobre a Terra, e os desagradáveis acontecimentos em seu sepultamento. Sua mãe estava moribunda, doente de amores pelo pai falecido, e pediu-lhe encarecidamente que não a fizesse de buscadora de água das almas. A mãe era muitíssimo supersticiosa, contagiava K. com seus temores. Conta-se que a última pessoa enterrada em um cemitério tem sua alma encarregada de buscar água a uma longa e torturante distância para todas as outras do Purgatório, até que uma nova pessoa seja sepultada e assuma o cargo. Tarefa excruciante e humilhante, indesejável a qualquer um. A mãe temia esta pena póstuma, expressando em seus últimos minutos o temor. K. compadeceu-se. Guardaria o ceticismo para uma alma que não pertencesse à sua amada mãe. Interrogou coveiros sobre os próximos enterros, subornou a todos para que lhe dessem preferência aos restos da mãe. Velou solitariamente o corpo frágil da mãe por três noites e dias. O aviso chegou ao terceiro entardecer, uma mulher recém-casada morrera naquela manhã e seria sepultada ao amanhecer. Furtivamente, dirigiu o caixão ao cemitério em um coche coberto, era madrugada e a lua estava escura. A cova aberta ao lado da cova paterna havia desabado parte da terra de volta ao fosso por culpa da chuva. Saltou dentro do buraco e retirou a terra com uma pá, garantindo assim os sagrados palmos para o descanso materno. Sem ajuda de ninguém, porque o coveiro não queria comprometer-se com a rica família da moça, auxiliando a K. em nome da consideração que tinha à família devota, especialmente à mãe pela qual nutriu uma paixão na juventude. Quando ouviu as canções do cortejo que acompanhava a recém defunta, estava jogando as duas últimas pás sobre a sepultura da mulher que mais amou em sua vida.

Isso havia sido passado, mas voltava sempre às suas memórias. Haveria algum dia alguém para se interessar pelo destino de sua alma?

Já era tarde, naquele mesmo dia precisaria desmontar peças pesadas de um carrossel no Parque e aprontá-las o mais rápido possível, esperar a secagem da pintura, restituí-las ao lugar devido com o menor prejuízo de tempo o possível. Porque, se para K. o tempo era um limitante para a conclusão de seu trabalho, para o dono do Parque tempo era dinheiro.
avatar
K.

Número de Mensagens : 7
Idade : 30
Data de inscrição : 19/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Parque de diversões

Mensagem por Mirael em Qua Fev 25, 2009 11:33 pm

1

Se Mirael imaginasse que aquele banho de chuva seria tão terrível, optaria por ficar ali mesmo, na cabine da montanha-russa.

No trajeto até o alojamento, impregnada nas tramas do tecido de suas vestes e nos poros do seu corpo, a água se fazia pegajosa, gélida e extremamente pesada. A força da água e do gelo o pressionava contra o chão e as poças, como caldas aglutinantes, agarravam-lhe os pés. Foi a custa de um enorme castigo, (só inferior ao que, antes, lhe impusera o IRA), que Mirael chegou ao seu destino. Transtornado e exausto, desfez-se, como peso morto, atrás da porta.

Felizmente, (ou infelizmente), a saúde do seu corpo não se contagiara pela fraqueza de sua mente doentia e Mirael ainda se achava consciente. Assim, não obstante todo o esforço despendido para chegar até o alojamento, a guerra não estava ganha: com a força do vento sobre as esquadrias velhas, uma lâmina de um centímetro de água tomou todo o piso do alojamento. O frio, aos poucos, minava suas resistências ao mesmo tempo em que o inibia de tirar o agasalho molhado, que, por sua vez, se fazia mais e mais pesado sobre seu corpo cansado. Morreria, se permanecesse ali, então, o instinto sobrepujou a mente fazendo com que, num último rompante de energia, Mirael se desvencilhasse das botas e de toda a roupa molhada e se arrastasse até a cama. Ali, enrolado em duas mantas felpudas, aliviou-se da tortura física, que lhe seria fatal, e passou a sofrer do espírito.

A essa altura, Mirael já não era capaz de identificar a razão da angústia e da dor que lhe corroía o ventre e lhe inflamava os olhos. O fato era que a banshee o havia tocado, não havia saída, e o relâmpago que levara embora aquela entidade depressora, também, lhe imprimara, na mente e no coração, uma velada missão: "vingança".

Agora, Mirael era um refém em si mesmo, seu refúgio era uma prisão e o tempo,... o tempo não mais existiria; não, dentro da casca funesta que lhe envolvia.


2

O trabalho silente e abnegado do jovem mecânico nunca passara desapercebido aos olhos vividos, (dos funcionários mais antigos), e inquisidores, (dos companheiros com quem dividia os serviços mais pesados, principalmente os menos nobres). Nos tempos de "casa cheia", esse reconhecimento ao trabalho costumava resultar em comendas e recompensas que eram comemoradas com cerveja e boxty à vontade, na lanchonete do parque. No entanto, após a divulgação dos rumores sobrenaturais do parque e a consequente queda da bilheteria, e com os cortes orçamentários e demissões subsequentes, um clima ruim se instaurou e as relações entre os funcionários, que eram cordiais e camaradas, passaram a se manchar com deslealdades e intrigas.

Mirael nunca foi homem de fofocas, nem de meias-palavras, na verdade, falava tão pouco que havia dias em que não pronunciava uma única palavra. Ele é assim. Ensimesmado, convive tranquilamente com os demais funcionários, (e a eles sobrevive), ficando de fora das confusões e rixas que, vez por outra, irrompem. Nunca tomou partido e, muito menos, se manifestou nas assembléias organizadas pela gerência do parque. Para uns, essa isenção e paz aparentes "não cheiravam e nem fediam", mas, para a maioria dos funcionários e para o gerente, era um sinal de respeito e distinção. Assim, para todos, em linhas gerais, Mirael era tido como um pacífico e louvável sobrevivente da guerra religiosa.

Bem, mas nem todos demonstravam essa deferência. Alguma coisa em K. o intrigava.
avatar
Mirael

Número de Mensagens : 8
Idade : 39
País de origem : Irlanda do Norte
Data de inscrição : 16/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Parque de diversões

Mensagem por K. em Dom Mar 01, 2009 8:24 pm

Muito tempo em solidão torna a pessoa mais e mais solitária, porque no caso de K., a solidão era uma forma de manter intactas as suas lembranças e seus hábitos, afastar-se de contato humano verdadeiro formava uma litania em sua própria homenagem, um modo de sacralizar-se, evitar que outras pessoas conspurcassem o seu íntimo com a tolice vã das gentes.

Explique-se que K. não foi uma figura saltada de páginas oitocentistas, não refugiou-se nos campos bucólicos, não guardou castidade ou cultivou a tuberculose, não se envenenou com a bílis negra dos folhetins ultra românticos, tampouco suspirou por encontrar uma alma gêmea. Embebeu-se da solidão moderna, sentindo-se só em meio a multidões, falando muito sem jamais dizer nada de verdadeiro, tratando com os outros sempre assuntos que não lhe interessavam mais do que a cor dos cadarços de um João-ninguém.

K. deixou crescer os cabelos até a metade das costas e os tratava com exageros cosméticos, ouvia dia e noite música alta de batidas monótonas e metálicas, que nada comunicava ao cérebro mas fazia vibrar seu corpo. Intoxicava-se com bebidas coloridas, estrangeiras, para negar que se satisfaria com a cerveja nacional. Bebia apenas para provar ao mundo que era capaz de beber, pois não sentia nenhum prazer com isso, a bebida em lugar de turvar os sentidos, aguçava-os, fazendo com que prestasse maior atenção na venialidade das pessoas ao seu redor, desprezando-as com mais força.
Mais crescia o seu desprezo pelos outros, maior se tornava a sua autoconfiança.

Ansiava viver em um mundo em que houvesse apenas K. Não um mundo povoados por K., mas um mundo de uma pessoa só. Com o sol nascendo e se pondo para si, os rios correndo por si, os pássaros cantando somente para os seus ouvidos, a vida brotando e perecendo em sua honra.

Perdoava, então, os outros viventes por suas existências incômodas, e dignava-se a sentir piedade deles. Afinal, um mundo somente seu era exigir demais.

E naquela manhã K. se deparou com a inconveniência de dividir o mundo com outras pessoas: precisaria pedir ajuda para realizar uma tarefa. A peça do carrossel do parque era demasiado pesada e grande para ser movida por uma única pessoa. O uso de polias e cordas não bastaria, pois o tempo demandado para erguer um apoio seria desperdiçar tempo e material. Faltava-lhe, inclusive, a chave correta para os parafusos que prendiam a peça ao todo do brinquedo. Outra pessoa seria indispensável. E a pessoa mais indicada seria o homem de rosto desfigurado, Mirael.

Existiam alguns motivos para que K. detestasse a idéia de pedir auxílio ao protestante. K. poderia alegar que seu povo foi acusado injustamente de bárbaro por interesse dos ingleses em usurpar a terra de seus antepassados (mais ou menos o que houve na América, gente inculta e sem alma não precisa das riquezas da terra, vai usar como? Só para alimentar seus zilhões de filhos?); poderia ainda dizer que a gente da qual Mirael descendia dominou o poder, criaram e mantiveram leis que desprivilegiaram e boicotaram a população irlandesa católica em prol dos ingleses protestantes, promovendo um estado de miséria e atraso que até hoje mostra suas marcas nos índices de desenvolvimento humano dos católicos irlandeses. É claro, para a lógica anglicana esse devia ser o curso natural das coisas, subjugar os supersticiosos e atrasados em benefício dos desenvolvidos e evoluídos, da nação berço de filósofos, cientistas, artistas e personalidades que marcaram toda a história da humanidade. Que fiasco! O mundo inteiro baixando a cabeça para o gigante decadente da Inglaterra, baixando a cabeça para o novo (não tão novo) monstrinho americano que eles criaram para se tornar pior do que eles. Nosso povo é tão desorganizado, tão bárbaro, tão inculto, que somos dos poucos povos no mundo capazes de resistir politicamente ao imperialismo que se arrasta e atravessa o finado século XX, e o que os civilizados fazem com nossos emissários, representantes dos ideais libertários? Encarceram como presos comuns, negam o privilégio de presos políticos, acusam de terrorismo. Assassinatos em off, ocupação militar, direitos políticos cerceados, é esta a democracia pela qual o mundo se bate. Então partimos para o terrorismo político e nos chamam monstros. Monstros? Nosso terror pode ter embrulhado muitos estômagos sensíveis, abismado muitas associações cristãs de moços e moças e todo este choque que se abate sobre as pessoas quando enxergam até onde é capaz de ir a raça humana. Mas acima de tudo, nosso terror serviu para nos fazer ouvidos, nos tornou fortes. A gratuidade do terror, esta sim é patética. Nosso terror foi libertário.

Mas nada disso contava, logicamente não, pelo contrário. Porque por mais que o destino dos povos influísse no julgamento entre os cidadãos, acima disso, a verdadeira razão para sentir repulsa por Mirael era muito mais simples. Detestava a idéia de precisar dele para algo, porque sentia-se superior a ele. Mirael despertava-lhe pena por sua condição humilde e aquela circunstância infeliz obrigava K. a pedir auxílio ao homem.

Entrou no quarto de piso molhado com receio, chamara através da porta pelo lado de fora sem resultados. Obrigou-se a entrar, a encarar a miséria do outro enrolado em uma coberta vulgar que pouco tapava o frio, e obrigou-se a acordá-lo com uma sacudidela.

Mirael sobressaltou-se, e talvez levado pela invasão inopinada, ou pela reciprocidade por sua inimizade e asco, avançou contra K. em fúria cega. Mas para K. as fúrias possuíam uma visão perfeita, esquivou-se do arremate por milímetros e despregou um chute nas costas que Mirael deixou desprevenidas. O mecânico tombou dentro da poça de água e os dois olhares se encontraram. Um espectador atento veria piedade e pesar nos olhos metálicos de K. O que o mecânico enxergaria dependeria de sua mente perturbada.
avatar
K.

Número de Mensagens : 7
Idade : 30
Data de inscrição : 19/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Parque de diversões

Mensagem por Mirael em Qua Mar 04, 2009 8:20 pm

--Desgraça da terra! Como se não bastasse invadir meu templo, minha vida privada, minhas intimidades, não se deixa expulsar e ainda me agride?! - declarou Mirael, transtornado.

Com lágrimas de vergonha e de raiva nublando-lhe a visão e escorrendo em abundância pelos olhos e pelo nariz, o mecânico levantou-se lentamente, ficando estranhamente ereto. Sua face apontava para o chão, mas os olhos miravam K, e com os ombros caídos à frente, suas costas arqueavam, travadas por uma super-contração do abdômen. Assim, ficou parado por uns instantes, chorando mansinho.

Não tinha certeza se K era um rapaz afeminado, ou uma rapariga masculinizada, mas, fosse como fosse, considerava-a "sexo oposto" e, noutra situação, sentiria-se envergonhado. Afinal, estava nú, com as vergonhas expostas. Mas, naquele momento, sua consciência não lhe colocava limites, não lhe impunha pudores; uma força maior tomava conta de si e a pressão que sentia dentro do peito forçava para uma saída inevitável.

Então, voltou os olhos para o chão, respirou fundo e, com uma gargalhada sinistra, voltou a olhar para K. Em sua mão esquerda, Mirael girava, atrevidamente, um pequeno punhal.

Seu semblante havia mudado; sorria, com a boca e com os olhos, um sorriso sombrio destinado à inimiga. Com o abdômen descontraído, os braço semi-abertos e o peito estufado, Mirael fazia-se maior. E maior, avançava lentamente em direção ao seu alvo.

Diante do punhal, que Mirael fazia dançar entre os dedos, a nudez do mecânico parecia passar despercebida aos olhos preocupados da moçoila. K já não parecia mais tão destemida e recuava conforme o homem pelado avançava. Estava sendo encurralada num canto do quarto.

Quando ela encostou as costas na parede, Mirael parou de avançar e os olhos dos dois passaram a se fitar. Estavam a um braço e meio de distância um do outro e ninguém ousava sequer piscar.

Ficaram ali, parados, encarando-se, por um tempo que nem um nem outro saberia mensurar, até que K desviou rapidamente o olhar para a porta. Era o que Mirael esperava para dar o bote. Com a mão direita agarrou seu pescoço e com a esquerda, desferiu uma punhalada buscando o umbigo da rapariga, sendo barrado por suas mãos desesperadas.

Com a invasora dominada, o sorriso aprofundava-se em sua face desfigurada e Mirael saboreava o prazer da vitória. A angústia e a dor, aos poucos, aliviavam-lhe o peito e desanuviavam-lhe a visão. Estaria a banshee satisfeita?

As mãos fortes de K impediam Mirael de prosseguir enfiando o punhal, mas não eram suficientes para fazer com que ele retrocedesse. Assim, apenas meio centímetro da lâmina se enterrara na carne macia da moça e um filete de sangue escorria umbigo abaixo. Mas ele sabia que não levaria muito tempo para que o efeito do sufocamento se fizesse sentir; logo ela fraquejaria.

Extasiava-lhe aquilo. Estar ali, sobrepujando a pessoa mais orgulhosa e prepotente daquele parque, vingando-se de todo o desdém, de todo o desprezo que lhe direcionara. Olhou para baixo. Avaliou que, apesar de ser pequeno o corte, o punhal deveria estar impondo a K uma dor realmente lascinante. Todo o corpo da moça tremia.

Encarou-a novamente. O rosto outrora pálido ganhara um tom avermelhado e os olhos injetados e duros pareciam focar alguma coisa que se encontrava na direção da porta, às costas de Mirael; e a boca de K, que estava contraída e arroxeada, resistindo ao sufocamento, pareceu querer dizer-lhe algo. Seria o nirvana para o mecânico ouvi-la suplicar. Então, reduziu a pressão que fazia no pescoço dela e esperou pela glória.
avatar
Mirael

Número de Mensagens : 8
Idade : 39
País de origem : Irlanda do Norte
Data de inscrição : 16/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Parque de diversões

Mensagem por Cliona em Sex Mar 06, 2009 10:22 pm

O céu estava limpo de nuvens, mas uma névoa densa, morna e pesada rondava pelo parque, enlaçando-se nas árvores que se curvavam à brisa, tocando os brinquedos que há muito não brincavam, enchendo o ar de desesperança, semeando a agonia e a tristeza. Procurando um túmulo, desejando-o. Semeando o fim das pessoas. Chorando o fim.

Era muito mais fácil tentar encontrar razões específicas para as sensações que comprimiam seu íntimo do que perceber a entidade que havia se esgueirado pela porta semi-aberta.

Cliona não perdera a chance de entrar no cubículo que K. resguardava suas emoções, sussurrando sobre a injustiça que era a sua solidão sobre a terra. Uma criatura condenada a vagar entre os humanos, nunca vista, nunca observada, nunca levada em conta. Todo seu esforço sendo condenado a ser invisível até o fim de sua vida miserável.

Suas mãos envelhecidas de unhas muito longas tocavam os cabelos prateados de K. ao suspirar que acordasse o mecânico, culpando-o por se fazer necessário, culpando-o por colocar um fim prematuro na sua vida isolada. Mostrando o quanto havia fraqueza em si ao necessitar dos préstimos dele.

Mas a banshee estava também presente nos sonhos de Mirael que, por fora, parecia estar num ressonar tranqüilo mas, em sua mente insone, desejava vingar sua família. Pelo menos, ela desejava isso para ele.

Quando Mirael levantou e começou o embate com K. Cliona observou apenas, retirada em sua dor de tristeza tão excruciante que os gemidos de agonia reverberavam pelo quarto do mecânico. Ela começou a exigir, imitando a voz de Mirelle, chorosa:

- Irmãozinho, irmãozinho! Como ousa deixar viver essa criatura que nos atormenta? Não vê que a culpa é dela? É dela! Vê como ela ri da sua fraqueza? Ela pensa que você não é homem para terminar o serviço. Chama-o de mulherzinha fraca por fraquejar assim. Sente! Consegue sentir o cheiro da vingança em forma do sangue que brota da carne dessa criatura? Corta mais, corta mais fundo. Irmãozinho.

O choro ficou alto, perturbando as mentes, apertando os corações, fragilizando as vontades próprias. A banshee então falou com sua voz que mais parecia um eco distante, um algo macio e sussurrante como uma brisa cheia de ódio:

- Mirael.... Mirael.... É a única forma de mostrar que não esqueceu-se deles, Mirael. Não é justo que se esqueça deles. Quanta dor você acha que eles sofreram? Quanta dor você há de suportar, rasgando sua pele, sem revidar? Mirael... só há uma chance, só um jeito... é a vingança. A dor pode sumir Mirael. Deixe que ela suma de dentro de você.... Vingue-se. A sua covardia aumentará a sua dor – A banshee começou a uivar, num choro compulsivo. – A sua covardia lhes trará mais dor!

Cliona desejava que Mirael infligisse a mesma dor que suportara quando humana àquela criaturinha ridícula, queria experimentar através dele a euforia quando ele visse que tinha o poder de transformar rostinhos graciosos e delicados — banais — na sua imagem e semelhança, coroados com aquele mesmo esgar que ele chamava de seu rosto.

Não chovia mais, mas o vento era duro, e as janelas do pequeno cômodo balançavam no ritmo da morte, como tambores cheios de expectativa pela agonia de K., subjugado pela vingança de Mirael.
Manchas de sangue translúcido surgiram nas vestes cinzentas da entidade.

- Olhe o sangue, Mirael. Como é vibrante! Rasgue mais, deixe que se espalhe sobre você. A quentura do sangue irá aplacar a dor da sua irmãzinha.... Irá aplacar a sua dor. Não é justo que essa coisa viva! A culpa é dela! Vingue-se, vingue-se. Seja maior que toda essa injustiça. Não apodreça covardemente junto com sua família Mirael. PREVALEÇA, Mirael!

Cliona gritou tão alto e tão dolorosamente desolada que os vidros que já batiam com o vento trepidaram e explodiram, lançando cacos venenosos pelos quatro cantos do quartinho imundo. Cada palavra da banshee impoderava Mirael com uma força sobre-humana e fustigava a mente e o corpo de K. como se tivesse peso material.

Dilacere! Destrua! Vingue!!
avatar
Cliona
Mourner

Número de Mensagens : 2
Idade : 259
País de origem : Celtas
Data de inscrição : 11/01/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Parque de diversões

Mensagem por K. em Sab Mar 07, 2009 9:57 am

- Templo?!? Eu não castigaria meus cães permitindo que passassem aqui uma noite.

K. entrara no quarto com a intenção de tratar aquele homem de igual para igual, iria rebaixar-se a oportunizar que o homenzinho infeliz lhe fosse útil. K. sabia que Mirael prestava serviços àquele parque durante um longo tempo, sabia também que tratava-se de um sujeito perigoso, devido a sua reclusão. Homens solitários são capazes de qualquer fraqueza. K. era capaz de conviver entre as pessoas, cativá-las e rir de suas trivialidades. Somente o tempo que suportava manter esta farsa era curto, vencido o prazo de tolerância, procurava locais mais silenciosos. Contra sua vontade, voltava a sentir falta de convívio e a mesma humanidade que impulsionava a reclusão impulsionava também que procurasse alguma convivência. As pessoas lhe pareciam geralmente insuportáveis, intrometidas em opinar a vida alheia, fingir condescendências, continuavam mesmo assim a serem os únicos animais dotados de inteligência e fala sobre a Terra. Suportar era imprescindível.

Em absoluto, K. sentia-se muito superior a Mirael. Beirava simpatizar com o mecânico, devido ao contraste inegável, qualquer pessoa teria a sensação de ser um abençoado próximo a uma criatura naquela situação. Prostrar-se em um quarto apertado e mal iluminado, porcamente protegido da chuva e do frio, orgulhar-se de um dinheiro minguado, ajuntado em avareza pelo fio de anos e anos. Isto passava pela mente de K., pés firmes no meio do quarto, aguardando que Mirael deixasse de sentir pena de si mesmo e se erguesse.

Tarde reparou na nudez do desfigurado, mais um motivo somado ao choro compulsivo e a postura anormal para causar asco. Um animal cujo ninho houvesse sido violado pelas raposas, esta foi a imagem depreendida por K. daquela reação descontrolada.

- Não estou aqui para invadir tuas privacidades, vim apenas lembrar-te das tuas obrigações profissionais.

A frase saiu indiferente. Sem intenção de justificar ou amenizar a inconveniência, uma informação oportuna, só. Desejava sair dali e pagar do próprio bolso a um trabalhador qualquer para que auxiliasse na remoção da peça a ser restaurada do carrossel. Gastaria em dobro, teria prejuízos, em compensação, estaria livre do indigno companheiro de trabalho. Mais alguns meses, entregaria a empreita completa e tiraria umas longas férias nos campos, longe daquelas ruas que a cada dia se enchiam de mais e mais estrangeiros gananciosos.

Vislumbrou o rosto de cicatrizes profundas contorcer-se para um sorriso caricatural. Engolindo choro e vergonha, o mecânico buscara forças para provar o quanto era covarde e embusteiro. K. sentia o desespero e a ausência de amor-próprio de Mirael, provando com aquela lâmina que podia ser mais abjeto do que muitos criminosos, com o descaro de um sorriso cínico na face negava à outra parte envolvida na disputa o direito da igualdade de condições.

Como se já não bastasse a nudez ridícula, exposta como um câncer cujo doente imbecil faz questão de mostrar a todos que o visitam, chamando sobre si exclamações de pena e conforto, exclamações arrancadas da falta de decência do canceroso, carente de saúde e orgulho próprio.

Subtraindo o punhal de seu adversário, o embate seria simples, os reflexos de K. não falhariam frente a inimigo tão passional. Porém, punhais não se soltam das mãos de seus donos pela força do pensamento. Recuaria e aguardaria uma vantagem. O quarto minúsculo não fornecia grandes opções para recuos, as costas de K. não tardaram a encontrar a parede. Por mais forte que Mirael viesse a ser, duvidada que fosse, mas se porventura fosse, a parede serviria como ponto de equilíbrio para um revide mais ousado, em que fosse necessário abrir mão de um ponto de apoio.

Durante o tempo que Mirael fixou os olhos, estonteado talvez por um ser humano que não se assustasse ou gargalhasse de sua cara de palhaço em circo de aberrações, K. tentava entender como em tão pouco tempo o desprezo e indiferença que sentia pelo mecânico haviam tomado tão grandes proporções. Sentia como se a proximidade de Mirael e a atmosfera daquele quarto amplificassem todos os seus sentidos. Apalpava o objeto arredondado dentro do bolso de seu casaco quando um vulto passou rapidamente pela janela, fazendo com que K. olhasse. Amaldiçoado vulto. Foi a chance para Mirael atar-lhe o pescoço e avançar o punhal. K. deteve a mão assassina. Não fosse o estrangulamento, que prendia parte dos movimentos de seu tronco além de causar dor e falta de ar, K. teria desequilibrado o mecânico. Mas os fracos são covardes até mesmo em suas valentias, o objetivo de Mirael não era provar sua superioridade, parecia ser a simples vontade de ferir alguém.

O pior ultraje era reparar no rosto do inimigo o prazer que sua dor excitava. Sentiu escorrer o sangue da incisão por sua coxa e imaginou quão deprimente seria experimentar uma morte sem sentido como aquela.

“Jamais!”, pensou em seu íntimo. A morte seria bem vinda no dia que chegasse acompanhada por reconhecimento e honra, como a de seu tio Haus, que morrera abraçado a uma bomba colada em seu peito, levando junto consigo outras trinta almas em um metrô. Trinta havia sido pouco, mas Haus nunca foi grande coisa.

Por cima do ombro de Mirael, K. assistia ao tremular dos vidros das janelas pelo vento, lutava para subjugar o braço do mecânico, mas a falta de ar começava a atrofiar seus músculos. K. pensou suicidamente em deixar que Mirael enterrasse o punhal até o fim e se afastasse para contemplar sua obra, momento em que aproveitaria para desenterrar o punhal e arrancar os intestinos do infiel. Iriam os dois para o inferno e lá descobririam qual seria o mais forte. Todavia, não somos nós que escolhemos a morte. É ela, senhora de tudo, que nos escolhe.

Achava anormal a trepidação dos vidros, hipnotizando-se com o barulho que poderia ser o último que ouviria, quando o estouro das janelas sobressaltou aos dois gladiadores. Mirael estava absorto demais em obter algum retorno emocional com sua crueldade, por isso assustou-se deveras e tirou a mão do pescoço de K. para reparar no que ocorria às suas costas. K. já vinha contando com alguma distração do tolo, segundos antes do estilhaçar dos vidros ele imprudentemente folgava a mão para espremer alguma palavra da vítima agonizante. Ao voltar do rosto de Mirael, K. arremessou a cabeça o mais forte que pode, usando toda a liberdade de movimentos obtida com o pescoço e os ombros livres do estrangulamento. Ouviu o estalido de osso quebrado, era o nariz de Mirael que rompia. Aturdido pela dor, Mirael deixou cair o punhal e levou as mãos ao rosto. Ainda respirando com dificuldade, K. sacou do bolso o objeto que havia acariciado pouco antes da sua imobilização, um soco inglês que havia pertencido ao avô, com ele aplicou um gancho de direita no estômago de um Mirael de peito coberto pelo sangue do nariz, segundo depois tombado ao chão desacordado.

Guardou o punhal no bolso interno do casaco, junto com o soco inglês, levando em seguida a mão ao umbigo ensangüentado.

- Você é no final das contas, um fraco, ou já me teria assassinado. A mim não interessa dar a clemência da morte a um pobre infeliz. Teu castigo é viver sabendo que eu sou superior a você.

Saiu K. em seguida e retornou pouco tempo depois com uma corda e um saco grosso de aniagem. Atou pés e mãos de Mirael, vestindo-o antes com um macacão azul tirado da cômoda velha, jogou o saco no ombro direito e o levou até a carroça parada a uns cinqüenta metros de distância. Mirael não ultrapassava tanto o peso dos fardos que carregava durante as colheitas, pesava pouco como valia.

Uma lição aprendida do pai por K., era achar valor nas pessoas mesmo quando estivesse muito escondido. Por maior que fosse o seu desprezo por Mirael, foi capaz de enxergar alguma utilidade aproveitável naquela carcaça fétida. Havia sido capaz de obter vantagem em uma luta que começou desvantajosa para ele, em lugar de se portar como uma puta chorona e exigir a saída de K., propôs-se a executar uma expulsão quiçá um assassinato.

Interessante se fazia Mirael ao olhar de K.. Arrancou seu sangue com prazer. Era homem o bastante para direcionar este talento para outras vítimas? Aquela loucura em seus olhos podia ser manipulada por K.?

Positivas ou negativas, K. obteria aquelas respostas. Seguia pensando e guiando a carroça pela estrada enlameada, a chuva começava a cair novamente, precisava chegar logo em casa para estancar e medicar a ferida, fazer as perguntas certas para Mirael.

“ Só é possível descobrir do que é capaz um homem perguntando a ele, e deixando que ele mostre o que sabe fazer.”

Assim dizia seu pai.

avatar
K.

Número de Mensagens : 7
Idade : 30
Data de inscrição : 19/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Parque de diversões

Mensagem por Mirael em Dom Mar 08, 2009 3:51 pm

- Mirael, meu irmãozinho, o que foi que você fez a essa infeliz criatura? Não vê sua tristeza? Não sente o seu ódio reprimido sob a pele fina? Olhe-a nos olhos e veja o quão forte e insensível ela teve que tornar o seu corpo, a sua casca, para ocultar sua fragilidade interior. Não se gaste em sua carcaça fria. Ofereça-lha uma brasinha do seu coração e vença, mesmo se sentindo derrotado.

Um forte impacto nas costas fez com que Mirael despertasse. Seu corpo trepidava numa frequência que seguia a... a velocide do trote de um equino. Estava numa carroça, percebeu. Numa carroça rústica, para transporte de material, avaliou pela ausência ou ineficiência das molas amortecedoras.

- Mas o que é isso que me esmaga, que não me deixa mover? - aturdido pelo septo ferido e pelo estômago dolorido, custou-lhe entender que se encontrava ensacado, num saco de aninhagem, como estivera na noite em que perdeu sua familia.

Quando se deu conta da sua situação, Mirael desesperou-se. Os batimentos cardíacos aceleraram; a respiração, que já parecia sofrida, ficou ainda mais pesada; os olhos, que já não enxergavam nada dentro do grosso saco, alucinaram-lhe com as mesmas imagens que diariamente traziam-lhe pesar e dor, dos pedaços dos seus pais sendo jogados no rio. A força que tinha nos dedos rústicos de mecânico não era suficiente para destramar o tecido do saco. Por mais que tentasse localizar um ponto mais frágil ou defeituoso no seu invólucro, Mirael não conseguia livrar-se. Enfim, a exaustão, do corpo e da mente, sofrida no transcorrer dessa noite sobrenatural, fez-se insuperável e o atormentado rapaz resignou-se ao seu destino.

Lá de fora, podia ouvir K. Sabia que era ela, gemendo de dor a cada solavanco da carroça. Lembrou-se do que lhe dissera a irmã enquanto permanecera inconsciente. (Ou havia sido um sonho?). Isso o acalmou e lhe trouxe alguma esperança.

-- O que você quer de mim? Para onde está me levando? Por que foi ao meu quarto, atacar-me? - ao fazer esta última pergunta, Mirael se quedou em silêncio, questionando-se se K realmente o havia atacado no quarto, pois não constava nada em sua memória que - até o instante em que investiu contra ela - o fizesse supor que estava sendo vítima de uma agressão.

Ensimesmado, o mecânico aquietou-se dentro do saco, refletindo se suas ações e sua emoções poderiam ter sido manipuladas pela entidade sobrenatural que lhe admoestara na montanha-russa e lhe impusera aquele insuportável castigo, antes de apagar. Concluiu que era possível e muito provável que a banshee estivesse mesmo por trás de tudo aquilo, uma vez que, apesar de se sentir intrigado com a sexualidade de K e de abominar o seu fervor religioso, identificava-se muito na sua discreta reclusão e na paz insana que pairava sobre seus espíritos.

Após alguns minutos de introspecção, com a tranquilidade daquele que não tem mais o que perder e seguindo a orientação dada por Mirelle, Mirael se pôs a trabalhar em como poderia passar uma "brasinha" para a moça e conquistar-lhe a confiança.

-- Ei, K?! ... Sei que você não pretende me matar, pois, se fosse essa a idéia, já o teria feito. - declarou e esperou por uma resposta da moça, que se fez entender apenas por uma redução da velocidade da carroça. Crendo estar sendo alvo de atenção, Mirael prosseguiu.

-- Lá no quarto, não era eu! Estava sob o jugo de uma entidade sobrenatural e, na verdade, você me salvou. ... K?! Você escutou? ... K?! ... Eu estou bem. Não vou lhe fazer mal. Você pode me soltar? ... Sei que você não está bem. Estou escutando seus gemidos. Eu posso ajudar com esse ferimento, se você confiar em mim, agora.


CONTINUA EM: http://countymayo.forumeiros.com/deverell-f15/residencias-t120.htm#286
avatar
Mirael

Número de Mensagens : 8
Idade : 39
País de origem : Irlanda do Norte
Data de inscrição : 16/02/2009

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Parque de diversões

Mensagem por Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum