Ruínas

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Mensagem por João de Deus em Sex Jan 09, 2009 9:12 pm

Deverell é essencialmente constituída de casinhas feitas de pedra há muito tempo atrás, contrastando com a Mansão e o centro, que foi reformado com construções mais modernas.

Seus habitantes não parecem muito entusiasmados em atualizar suas próprias casas;
segundo alguns deles, viver sem aquecimento central "é uma coisa que cresce dentro da gente!"
Quando crianças - na época em que as havia no vilarejo -, eles eram colocados do lado de fora da casa nas noites mais geladas do ano para se acostumarem com o clima que enfrentariam o resto da vida.

Na borda mais distante do Vilarejo estão "as ruínas", uma antiga casa que ficou entregue aos dias e pertencia à família do velho McKoy, segundo dizem. O próprio, quando perguntado, nunca diz nem que sim nem que não. Ao que parece seu bisavós tiveram algo a ver com o abandono da propriedade, por conta de um acidente grave cuja natureza jamais ninguém soube, ou quais os envolvidos.
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Re: Ruínas

Mensagem por Fergus Maguire em Sab Mar 14, 2009 6:18 pm

Continuação de http://countymayo.forumeiros.com/a-estalagem-de-louhi-pohjola-f5/lounge-room-t28-30.htm#287

Era interessante como Amelia havia se tornado interessante tão rápido.

Ela não era realmente bonita, fosse para se fazer uma análise detalhada (da perspectiva de Fergus, que reparava em especial no rosto das mulheres): os olhos eram muito pequenos em comparação com o restante do rosto ovalado; a testa, alta demais para os padrões femininos; o lábio superior, muito modesto, ao passo que o inferior era desproporcionalmente fornido; o nariz se mostrava bem comprido e fino, aliás parecido com o de Fergus, exceto que, no conjunto, todos aqueles detalhes não exatamente estéticos culminavam em um resultado imprevisivelmente agradável.

A princípio, ela não tinha chamado tanto a atenção dele, mas este desinteresse podia ter muito que ver com o fato de que ele andava chateado demais, muito mal consigo próprio, e isso vinha de algum tempo. Se não era capaz de resolver a causa desse dissabor com ele mesmo, podia pelo menos se punir através de um comportamento auto-flagelante.

Era clichê até nisso. Parece que estar mal hoje em dia entrou na moda. Depressão virou primeiro assunto na pauta de muita gente. No entanto, mais na moda ainda é o dedo judicante apontado contra as pessoas nessa situação, e esta incoerência, visto que o indivíduo que está ok consigo mesmo não precisa ficar listando críticas contra os outros nem que seja em um diário que ninguém nunca vai ler. Aliás, esta masturbação maledicente parecia ainda pior, no ver de Fergus.

Não disse nada para ninguém, guardava suas melhores opiniões para si e externalizava somente as piores, para gerar mesmo o asco dos outros em relação a ele, pois precisava dessa carícia negativa. Ele não disse nada para ninguém mas achou muito elegante a atitude de Amelia "descendo ao nível" de Fiona para não deixar a menina sozinha nesse patamar do barraqueirismo, como alguns diriam, preconceituosos. Então o tratamento honesto da porrada e dos pontapés é coisa de "barraco", ou seja, de gente pobre. Nojenta a expressão "que barraqueira", uma forma de dizer menos diretamente "que coisa de favelado".

Amelia não bancava a superior, não tinha essa arrogância de quem vira a outra face. Ela não apenas dignificava o outro lhe dando uma resposta, como ainda falava na língua dele — se grosseiro, com grosseria — e desta maneira, num certo sentido, o redimia. Esse comportamento dela definitivamente não era lugar-comum. Lugar mais comum que o deixa-disso não há, "Amelia, 'não desça ao nível'." E isso Fergus comentou em alto e bom som com um vaso de flores murchas na recepção.

O'Keeffe tinha saído para comprar cigarros e deixou o parceiro de aventuras sozinho, o que fazia com que o mesmo se sentisse um tanto perdido. Ele estava ainda impressionado com o dom da Amelia, não que acreditasse que ela podia efetivamente explodir cabeças, mas o impressionava aquela idéia dela, a ousadia da sua mentira e da sua prepotência, uma prepotência sadia, porque se fosse do tipo espezinhadora ela teria levantado o nariz para Fiona e agido como todo cristão pagador de promessa.

E aí aconteceu aquela coisa, o cara que apareceu esbravejando e chutando porcos, entrou com empáfia no lounge room e fez plof.

Fergus se pusera a espiar por trás do batente, só os olhos aparecendo (da perspectiva de quem estava dentro do lounge); teve reflexo rápido suficiente para recolhê-los antes que pedaços da massa branquenta viessem cegar a sua visão também.

Na verdade, ele não sentiu nada sobre o evento. Estava mais ocupado em sentir pena de si mesmo e todo aquele blablablá tão bem conhecido que psicólogo nem se anima mais pegar para tratar, recomendando logo o suicídio, mas ele se consolava com o pensamento: "Pelo menos eu não fico me achando acima dos arquétipos da psicanálise". Claro que não, essa do humilde autodestrutivo é um dos arquétipos, e só sendo absurdamente imprevisível para surpreender um médico legista que seja, que alguns pelo timbre da voz conseguem reconhecer se a pessoa costuma falar muito ou pouco. Mas mesmo a imprevisibilidade já foi estudada e todas as reações possíveis desse script. Hoje em dia é difícil impressionar certos eruditos.

Inclusive que a obsessão da vanguarda pela originalidade é uma coisa tão romântica.

E se você é muito original, ainda vai ter que topar com gente invejosa que irá "diagnosticá-lo" como "exibido". Não há como sair no lucro.

"Não se perece mais de verdades mortais atualmente. Há antídotos demais."

Então ele ia tomar o rumo do quarto, para dormir, pois estava perturbado demais e tudo que tinha acontecido era demasiado excessivo para ele conseguir processar assim de um minuto para o outro, sobretudo porque não agüentava ficar tão maravilhado e excitado, parecia que o coração dele era fraco demais para muitas emoções. Por isso que ele só ouvia Roberto Carlos.

E por isso preferia ler Wittgenstein, uma coisa assim mais standard, preferia ter amizade com pessoas insossas, assistir big brother, novela, domingão do Faustão, Friends, seriados americanos em geral, essas coisas.

Quando resolveu ler Nietzsche, o coração disparava e os pulmões travavam, era acometido por uma falta de ar convulsionante, ficou taquicárdico por pelo menos uma semana. Lia um parágrafo e já tinha que sair para fazer uma caminhada, a fim de evitar um curto-circuito na malha de neurônios.

E ele ia subindo a escada para o quarto com aquela tristeza de ter que abrir mão do que mais gostava, por ser débil mental.

Talvez a expressão certa fosse esta mesma, inclusive do ponto de vista clínico. Mentalmente débil. Pouco depois de fugir de casa, teve a oportunidade de conhecer certo garotinho, de uma família que lhe proveu abrigo, que sofria de um tipo de arritmia cerebral e umas complicações neurológicas tais que ele tinha que ficar só dentro do quarto, caso contrário morreria. E Fergus entendeu o porquê disso no dia em que o menino escapuliu para o quintal da casa, onde estava o cachorro do vizinho. O menino ficou tão encantado com o cachorro, tão apavorado, tão emocionado, que ele suava como se cada poro fosse uma torneira, os olhos reviravam, ele tremia, e finalmente foi preciso recolhê-lo antes que tivesse um ataque apoplético.

Depois a mãe do menino o levou para um exorcismo em uma igreja evangélica, pois no desespero, ela que nunca tinha sido religiosa, resolveu apelar para o Espírito Santo.

Fergus não quis nem ver. Se a visão de um cachorro saracoteando havia quase fulminado o garoto, o que seria a antecipação do Armagedon em um daqueles shows de descarrego pentecostal, com toda aquela gente se contorcendo e espumando, o pastor berrando "pisa no capeta, irmão, pisa no capeta" e, enfim, todo aquele estado de espírito e histeria que somente encontra paralelo em um terreiro de macumba.

A história do garotinho marcou bastante a Fergus, porque ele sabia que, guardadas as devidas proporções, era como ele. E arrastava a culpa por não ter salvo o menino, até que mais para a frente descobriu que o doidinho saiu da igreja para o pronto-socorro, a fim de receber um transplante de coração — e pelo menos taquicardia não teve mais. Não é que Deus recompensa a fé dessas pessoas. Deus compensa a fé das pessoas.

Fergus subiu tão vagarosamente as escadas, desanimado até para se desanimar, que na metade do caminho ouviu o "Nããããããããããão, Améliaaaaaaaaa!!!" de Eric. Então desceu correndo e viu o camarada se jogar em cima dela, os dois batendo com a cabeça em quinas desmaiantes.

Em estado de choque, João de Deus pedia mais uma cocada, urgente, para Riclédson, a fim de se recuperar dos horrores que acabara de sofrer. Seu nariz sangrava muito, bem como seus ouvidos, e os olhos pareciam mais saltados que de costume. Quer dizer que Amelia havia tentado explodir João de Deus também.

Fergus achou bem feito. Tinha achado péssimo da parte do médium ele ficar fazendo indiretas depreciativas sobre Amelia. Se está claro para todo mundo do que exatamente você está falando, de que tipo de desvantagem você acha que as indiretas vão te salvar?

Indireta é coisa de covarde. Porque o nego fica dando alfinetadas camufladas e se você vai lá tomar satisfação com ele, ele pode alegar, santarrão "Quem eu? Eu não disse nada, você que é paranóico". Ele não assume nada. "Foi você que vestiu a carapuça", e assim o Pilatos lava as mãos até a História se saturar de tanta estereotipia.

Além do que a recomendação final do João de Deus para que ficassem longe de Amelia pareceu tão amarga, no entender de Fergus. Quer dizer, salvem-se e deixem ela se fodendo no ostracismo. Se bem que isso era muito mais agradável do que dizer "ela precisa de ajuda, vamos todos dar um grande abraço na coitada" — aí Amelia estaria mais do que certa em explodir cada uma das cabeças impensantes que se dignassem a esse tipo de tratamento desprezível.

E por fim, ao inserir Amelia no rol de monstros da apresentação do médium, João só lograra, em função da psicologia de alguns, que se interessassem mais nela. Ou será que era este o objetivo dele? afastar os fracos e, não obstante, pela mesma técnica, aproximar os fortes dela?

Fergus sentiu ímpetos de seguir Amelia, que acabaram sendo maiores que o seu desejo de paz. Mas, perdendo-a de vista no meio do caminho, acabou entrando pelas quebradas erradas e foi parar nas ruínas do vilarejo.

A visão do refúgio de pedra desabando não lhe deu escolha senão aceitar que tinha se perdido.
E a chuva enregelante que começou a cair o obrigou a se recolher ao desmoronante abrigo.
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Re: Ruínas

Mensagem por Sissi em Dom Mar 15, 2009 12:23 pm

Continuação de

http://countymayo.forumeiros.com/rea-comercial-de-ashford-f11/bar-de-solteiros-t43.htm#289

Em nenhum lugar Sissi jamais encontrou segurança. Desde pequena conseguia ouvir os ruídos ameaçadores das árvores e suas sombras em formas de garras e mãos. De qualquer sombra saltava um espanto, boca escancarada para devorar. Sozinha, sofria o desamparo. Acompanhada, sofria a exposição. Uma multidão mostrava-se tão perigosa quanto um deserto. Não existia paz em parte alguma, por onde quer que andassse, o medo a acompanhava guardado nas entranhas, aguardando um momento de vulnerabilidade para escorrer para fora e atacar.

Precisava ocupar a mente e as mãos, desligar-se daquela natureza sensível às mudanças da lua, que enxergava maus presságios em todas as partes.

Se ela gostaria de se sentir segura? Não havia nada que desejasse mais na vida.
Sissi não temia as pessoas por qualquer razão, temia por saber que as outras pessoas também hospedavam a mandíbula perfurante do medo dentro de suas almas, umas a liberavam em ocasiões comuns a todos, outras, como Sissi, não possuíam controle, deixavam-se dominar e enfraquecer, faziam-se instrumento de uma força muito superior à compreensão, perigosas em seus extremos de covardia. Os covardes estão sujeitos a atos desesperados e impensáveis aos que possuem alguma coragem. Toda a sua energia concentrada em não sucumbir às próprias fraquezas, precisava de um exterior que lhe passasse o mínimo de elementos para resguardar algum auto-controle. Trancas grandes nas portas, cercas elétricas, alarmes, morar em um bairro com um bom patrulhamento policial, pagar um seguro de saúde excelente, andar com spray de pimenta na bolsa, qualquer subterfúgio que ajudasse a criar uma imagem de segurança. Imagem, porque seguros nós nunca estamos.

Com a sinalização de Glória, Sissi olhou para cima e analisou as pequenas câmeras, posicionadas nos cantos. Os olhos mecânicos captam os olhos malignos que espiam de dentro de cada um? Duvidava. A vida inteira, ninguém ao redor além dela percebia aquilo que espiava das frestas e resfolegava nos momentos de silêncio, gritava em momentos de euforia, agarrava em momentos de solidão. Era coisa que não se deixava capturar por olhos céticos ou mecânicos, brota de dentro de cada um e se esconde com perfeição. A maioria sabe que está lá, adormecido como um vulcão inativo, borbulhante em seu interior monstruoso, tranqüilo sobre a superfície morna, tanto sabe, que dia a dia as pessoas vigiam mais umas às outras, em seus aparatos tecnológicos, monitoramentos artificiais das bestas submersas.

À Sissi intimidava ser monitorada, aos fregueses deveria surtir algum efeito também. Adelfa também parecia intimidadora. Sissi sentiu que desagradava à mulher, porém, agradar aos outros não entrava em suas prioridades. Queria ser invisível e passar incógnita aos olhares de todos. Ter Adelfa em seu grupo já lhe fazia sentir melhor, ignorando os problemas que ela pudesse ter em se relacionar com o resto da equipe de atendentes, o seu jeito de lidar com as pessoas era útil ao cargo que ocupava. Sissi adoraria possuir um pouco daquela contundência, mas não possuía. Seu orgulho era muito pouco para se ferir com as palavras de Adelfa, especialmente porque sabia que era incapaz de se achar melhor do que qualquer ser humano. Os outros atendentes aos seus olhos seriam sempre mais bonitos, inteligentes e eficientes, devia existir alguém no mundo que não fosse melhor do que Sissi aos olhos dela, infelizmente esta pessoa ainda não lhe fora apresentada. No dia desta apresentação, com certeza Sissi choraria com pena da pobre alma, tentando até se unir a ela, para que as duas juntas errassem juntas em sua trilha de medo e insignificância.

Ver o nojo de Ed fez Sissi enjoar, saiu rápido para respirar o ar gelado da noite. Ainda era cedo, ao menos a entrevista durou muito menos do que Sissi previra, não sentia vontade de voltar para casa, pretendia adiar ao máximo a volta. Sentia que a noite de trabalho seguinte seria uma noite de libertação, o primeiro avanço em direção a uma vida nova menos povoada de inseguranças e angústias. Os tormentos comuns da convivência, do dia a dia, as disputas mesquinhas entre egos pareciam menos aterrorizantes do que estar sozinha consigo mesma e com Tommy. Por esta noite, achava, o filho estava mais seguro com a Mary, com sua adolescência cheia de arrogância e livre de temores.

Chamou um táxi, era possível usar o metrô, mas um táxi a fazia sentir-se mais protegida. Arrependimento. Sentada no banco de trás, após dizer o endereço, cruzou com os olhos do motorista a observando no retrovisor interno. Eram olhos atemorizantes, grandes, de sobrancelhas grossas. Olhou para outro lado, seria apenas uma coincidência. Prestou atenção nos letreiros comerciais, nas luzes de neon que passavam rápidas. O taxista não tagarelava como a maioria deles fazem, isso a incomodava. Faltavam forças para entabular alguma conversa sem importância que a acalmasse. Estar presa ao cinto começou a sufocá-la, como se estivesse atada indo para o seu cadafalso, sem a misericórdia de uma venda que a cegasse aos olhares invasores dos transeuntes. No segundo farol, os olhos não se encontraram no reflexo do espelho, mas Sissi percebeu que ele havia desviado o dele instantes antes. O táxi dobrou uma esquina na direção errada, e Sissi estourou:

- Pode parar aqui. Vou visitar uma amiga.

Era madrugada e Sissi mal sabia o nome do bairro em que estava, sabia que precisava descer do táxi, pois suas mãos suavam muito, o coração disparava de forma a atrapalhar a respiração, as pernas tremiam e a presença do taxista lhe era insuportável. Pagou a corrida e dobrou a viela mais próxima, para sumir o quanto antes do olhar daquele homem. Estava aliviada e perdida. Mais perdida do que qualquer outra coisa. Nasceu naquela cidade, sentia-se capaz de chegar até seu bairro por instinto, guiando-se pelos telhados altos de velhas casas tradicionais. Não estava muito longe, era achar a entrada certa e a rua principal e chegaria em casa em pouco tempo. A chuva veio encharcar seus planos, correu para as árvores para se esconder da chuva gelada, ouviu um trovão e estremeceu, os raios eram um de seus algozes infantis, imaginou-se logo atingida por um raio embaixo daquelas árvores, seguiu carreira então para campo aberto em lugar de voltar para as ruas habitadas.

Em poucas passadas já não estava correndo para fugir dos raios, corria para sentir a chuva bater em seu rosto e sentir a roupa úmida colar-se ao corpo. A frente avistou as ruínas dos Mckoy, a chuva não fazia menção de diminuir, entrou vencida pelo susto de um trovão mais alto.

Dentro da construção de pedras, ouviu uma respiração ofegante como a sua, a escuridão impedia que visse o que estava lá dentro junto com ela. Paralisada pela perspectiva de não estar só, recuou para lugar nenhum. Outro relâmpago cortou o céu e iluminou instantaneamente o interior da velha casa, um homem estava lá em pé a observando.

A voz não queria sair, porém calar também seria inaceitável. Juntando forças de onde não havia, em voz trêmula e fina, Sissi perguntou:

- Também está perdido?
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Re: Ruínas

Mensagem por Fergus Maguire em Qua Mar 18, 2009 8:53 pm

Fergus levou um susto quando um relâmpago coincidiu com a entrada triunfal de uma mulher. Ele gostava da história do leão do Mágico de Oz. O personagem se achava um covarde, mas sua luta para ser corajoso teve como resultado nada mais que uma descoberta. A de que ele já era corajoso. É que as pessoas se comportam como são encorajadas a ser. E por isso a famosa frase de Píndaro "Torna-te aquilo que és". Pois o que você é, é tudo o que vai chegar a ser. É inútil e perda de tempo uma rosa lutar para ser um lírio. O empenho de cada elemento natural é dar o máximo para ser ele mesmo. Mas quem era ele?

- Sim, estou perdido. Eu acho.

O fato de que ele não podia ter certeza de que estava perdido só comprovava a que ponto estava perdido. Uma análise óbvia, não é destrinchamento psicanalítico, mas há quem não se sinta à vontade com verdades incontestáveis. Precisa arrastar para o campo dos valores e das opiniões, para conseguir escapar mais fácil pela tangente: "devaneios". Tem certas coisas que são o que são, e querer polemizá-las fala muito sobre o discordador de plantão, não sobre o objeto da sua "análise" - que pode ser ele mesmo.

Aconteceu uma coisa com Fergus que ele não saberia explicar. Deu-lhe uma vontade súbita de testar a recém-chegada. Em sua cabeça, era que ele tinha medo e portanto, como cautela, razoável supor que um bom método de defesa é inspirar o medo. Mas algo lhe dizia que esta não era a verdadeira razão.

- Eu sou um tarado. - ele disse com os braços cruzados, enfiado num dos cantos, pouco se importando se o mesmo cheirava a urina.

Tem suas vantagens ser desagradável, malcheiroso. Talvez emprestasse alguma credibilidade à panca que ele queria botar para cima dela. Só que, como um verdadeiro ignóbil em psicologia, ele não se tocava que a proteção do peito com os braços cruzados não dava força à sua declaração de ser um predador sexual, pelo contrário.

Seu moral já tinha sido bastante minado naquela vida de puto. Ainda que teve a idéia de respirar forte e aproveitar os clarões dos relâmpagos para lançar à mulher um olhar carregado, cenho franzido, como coisa que tarados fossem carrancudos daquele jeito.

E então começou a produzir grunhidos, rosnados guturais, e finalmente soltou um "hehehe" "maldoso" ao final das raspações de garganta.

Se ela fosse alguma louca do vilarejo, ele já estava mais ou menos prevenido, mostrando seu poder maligno daquele jeito. Teve ainda a inspiração de arregalar os olhos de um jeito "assustador" durante uma seqüência de relâmpagos, e percebeu que a moça era meio assustada mesmo. E aí confirmou que era uma boa o que estava fazendo. Ela não o conhecia, então ele podia se fingir o último M&M do pacote (machão matador), e gostou do gostinho. Juntou escarro, cuspiu do lado, apertando o brigogério, super foda, dava umas risadas escrotas, mas ele bem que poderia ter mais sacação relativamente ao sentido de certos sinais emitidos pelo comportamento alheio. O fato de que ela não saía correndo desembestada no meio da chuva provavelmente queria dizer que não estava completamente convencida da performance dele.

Todavia, ele não tinha essa sacação para detecções psicológicas, que não precisam ser afirmadas como verdades absolutas mas dão um norte razoável para orientar o trato com os outros. Ele queria desempenhar um determinado papel mas não saía lá do cantinho. E por mais que sua interlocutora não fosse expert em análise psicanalítica, a pessoa sente, com mais ou menos precisão, o que significa um gesto, o fato dele não avançar, de ficar grudado na parede, a não ser que o observador seja um quase-autista para não ter aptidão para a parte tácita da comunicação, o que acontece também na escrita - a leitura nas entrelinhas. Dizer que esse tipo de dedução não é válida, porque especulativa, é negar a capacidade de interpretação e o "feeling" do ser humano. É uma postura das mentes literais demais - entediantes.

Fergus ergueu a cabeça falando com o máximo de entonação cafajeste que conseguia:

- Alguém aqui vai se dar bem hoje...
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Re: Ruínas

Mensagem por Sissi em Qua Mar 25, 2009 9:22 pm

- Sim, estou perdido. Eu acho.

A resposta do homem escondido no escuro tranqüilizou Sissi, em um primeiro momento. Estava ele perdido, estava ela também, ele não estava bem certo de seu desnorteio, tampouco certeza ela tinha. Sissi havia nascido e se criado naquelas redondezas, lembrava de haver brincado perto daquelas ruínas em seus tempos de criança, correra para casa chorando quando os irmãos a empurraram porta adentro e a abandonaram sozinha naquele pedaço desdito de chão. Havia chorado porque não suportava ficar só, pior estar só em um lugar que não se conhecia, sendo criança e chorona o pior foi triplicado. Naquele dia não foi difícil encontrar o caminho de casa, quase uma grande linha reta com uma curva suave para o norte atravessando dúzias de quintais sem muros, por entre os pomares que pertenciam a ninguém e a todos. Um tempo límpido, em que sentia-se medo de coisas simples e concretas. O escuro, o cachorro, a tia velha, o ladrão de crianças, as serpentes, os medos todos nomeados e figurados, em letras grandes sobre seus rótulos os antídotos.

Hoje o que a perseguia não tinha rosto ou forma, sem nome ou paradeiro, ocupava todo o espaço vazio entre os objetos. Sinta medo de uma coisa concreta e o caminho para escapar está aberto: enfrentar, destruir, anular. Acenda a luz e acaba a escuridão, aniquile todas as serpentes, expulse todos os cães, proíba a tia de fazer visitas e redobre o patrulhamento das ruas. Contra o desconhecido não existem defesas.
Estava Fergus em sua frente, declarando-se tão perdida quanto a própria, perdido pelo próprio conceito de estar ou não estar perdido. Em minúcia, Sissi sabia chegar em casa de onde estava, os trovões é que a impediam de continuar correndo através dos quarteirões irregulares cujas esquinas nunca se encontravam até atinar com a rua exata de sua casa e ficar oficialmente “localizada”.

Sissi procurava outra frase para entabular alguma conversa que prendesse a atenção de Fergus, totalmente encoberto pela ausência de luz da velha sala sem janelas ou portas, pelas quais entrava somente a luz dos relâmpagos que vinham se repetindo mais e mais próximos nos últimos minutos. Ouvir a voz de alguém tem efeito calmante quando se procura evitar ouvir os murmúrios saídos de onde devia haver apenas silêncio. Distraída ainda nesta tentativa de dizer o que não tinha para dizer, ouviu a declaração de Fergus e paralisou. Não por susto, por pura confusão. “Eu sou um tarado.” Saíra a notícia repentina, quebrando toda a confiança que Sissi já havia tomado pelo dono invisível da voz entre alta e baixa, sentindo-se já mais tranqüila por haver achado um companheiro para o aziago abrigo noturno. Descontando o fato de ser um local ermo, um tarado provavelmente não ficaria lá a esperar que um milagre guiasse suas vítimas até as suas mãos, sairia ele próprio para buscá-las onde estivessem. Mas a confusão voltava, Sissi não se achava apta a maquinar sobre os hábitos dos tarados, nunca se interessou pelo assunto para pesquisa ou estudo, o que sabia era básico e prático, “gritar, bater e correr”. Faltavam, no entanto, as pernas para conduirem a fuga, a corrida até ali havia sido longa, as panturrilhas começavam a enrolar-se em cãibras pela falta de costume com o esforço, o frio e a umidade da noite também não colaboravam em nada, o casaco esquecido no táxi começava a fazer uma falta enorme, que se notava no cianótico de seus dedos e dos lábios.

A mão já estava dentro da bolsa revirando em busca do spray de pimenta, nervosa encontrava só o cabo da escova de cabelo. Exceto pela frase, Sissi não via como o rapaz podia ser perigoso, na verdade, fez força para não deixar escapar uma risada no primeiro grunhido ouvido, sem deboche ou galhofa, o tipo de risada nervosa que nos escapa em lugar de um “ai, meu Deus!” , risada recolhida e spray empunhado, aguardava para devolver a investida do suposto atacante, que sob a iluminação do último relâmpago paralisara-se em um quadro que o assemelhava ao leão da Metro Goldwyn Mayer Pictures em seu rugido forjado de leão cinematográfico.

- Alguém aqui vai se dar bem hoje...

Sissi não tinha certeza se o homem era realmente um aproveitador de mulheres, um andarilho querendo expulsá-la de seu refúgio, um debochador que sairia depois a espalhar na vizinhança que fizera chorar a moça assustada do bairro, mas tinha certeza que era capaz de enfrentar qualquer coisa que pudesse ver, ainda que fosse o vulto do homem dois palmos mais alto do que ela só insinuado pelos relâmpagos. A certeza era fraca, insuficiente para saber qual dos lados sairia vitorioso em um embate, suficiente para não desistir antes de tentar.

Alguma coisa naquele avanço a fazia sentir-se mais forte, como se toda a sua energia só fosse estimulada na tomada de velocidade, o espaço entre os dois era de pouco menos do que cinco metros, distância mínima que parecia crescer para deixá-la correr e saltar na direção de Fergus, em um salto perfeito em sua decolagem e totalmente infeliz na aterrissagem do pé direito em um tijolo solto e rolante que a desequilibrou e atirou de cabeça contra a barriga de Fergus, escova de cabelo em punho, o impacto fez os dois baterem juntos na parede do fundo da sala velha, o reboco da parede desabou sobre os dois e por muito pouco quase a parede inteira não caía.

Com a queda o salto de sua sandália quebrou, seu cabelo ficou cheio com os restos da parede velha, Fergus que tentara se defender acabou por apará-la, e estando os dois embolados e caídos no chão, um pouco por seu fracasso em atacar e muito pela humilhação da queda, Sissi descontava as lágrimas que não queriam parar de rolar junto aos soluços com escovadas na cabeça de Fergus, impossibilitado de erguer-se por ter Sissi sentada sobre seus joelhos.
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Re: Ruínas

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